O Arcano

A mediadora 01

Meg Cabote


ndice        2
Captulo 1        3
Captulo 2        11
Captulo 3        19
Captulo 4        28
Captulo 5        34
Captulo 6        41
Captulo 7        47
Captulo 8        52
Captulo 9        56
Captulo 10        62
Captulo 11        71
Captulo 12        77
Captulo 13        82
Captulo 14        88
Captulo 15        93
Captulo 16        100
Captulo 17        105
Captulo 18        113
Captulo 19        118
Captulo 20        122
Captulo 21        126
Captulo 22        130
Captulo 23        137


     
    

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Captulo 1
     
     
     
     Ningum me contou sobre o sumagre venenoso. Ah, contaram sobre as palmeiras. , contaram muita coisa sobre as palmeiras, certo. Mas ningum disse uma palavra 
sobre a histria do sumagre venenoso.
     - O negcio, Suzannah...
     O padre Dominic estava falando comigo. Eu tentava prestar ateno, mas deixe-me dizer uma coisa: sumagre venenoso coa.
     - Como mediadores, o que eu e voc somos, Suzannah, ns temos uma responsabilidade. Dar ajuda e consolo s almas desafortunadas que sofrem no vazio entre os 
vivos e os mortos.
     Bom, , as palmeiras so legais e tudo. Foi maneiro sair do avio e ver as palmeiras em toda parte, especialmente porque eu tinha ouvido dizer que podia ficar 
bem frio  noite no norte da Califrnia.
     Mas que negcio  esse do sumagre venenoso? Como  que ningum me avisou disso?
     - Veja bem, como mediadores, Suzannah,  nosso dever ajudar as almas perdidas a ir para onde devem. Ns somos seus guias, por assim dizer. Sua conexo espiritual 
entre este mundo e o outro. 
     - O padre Dominic ficou mexendo num mao de cigarros fechado sobre sua mesa e me olhou com aqueles grandes olhos azul-beb. - Mas quando a pessoa que serve 
de elemento de ligao espiritual pega sua cabea fantasmagrica e bate com ela numa porta de armrio... bem, esse tipo de comportamento no produz exatamente o 
tipo de confiana que gostaramos de estabelecer com nossos irmos e irms perturbados.
     Ergui os olhos da erupo vermelha nas minhas mos. Erupo. Essa nem era a palavra certa. Era como um fungo. Pior at do que um fungo. Era um cncer. Um cncer 
insidioso que, com o tempo, consumiria cada centmetro da minha pele lisa e sem manchas, cobrindo a de calombos vermelhos e escamosos. Que por sinal soltavam lquido.
     -  - falei -, mas se os irmos e irms perturbados esto pegando pesado com a gente, no vejo por que  um crime to grande eu s agarr-los e jogar contra 
o...
     - Mas voc no v, Suzannah? - O padre Dominic apertou com fora o mao de cigarros. Eu s o conhecia h duas semanas, mas sempre que ele comeava a acariciar 
os cigarros, que, a propsito, ele nunca fumava, queria dizer que estava chateado com alguma coisa.
     Essa coisa, em particular, parecia ser eu.
     - E  por isso que voc  chamada de mediadora - explicou ele. - Voc deveria estar ajudando a levar essas almas perturbadas  realizao espiritual...
     - Olha, padre Dom - falei escondendo minhas mos que soltavam lquido. - Eu no sei com que tipo de fantasmas o senhor andou lidando ultimamente, mas os que 
andaram esbarrando comigo tm tanta probabilidade de achar realizao espiritual quanto eu de achar uma fatia de pizza decente, estilo Nova York, nesta cidade. No 
vai acontecer. Esses caras vo para o Inferno, para o Cu ou para a prxima vida na forma de uma lagarta em Kathmandu, mas de qualquer modo que a gente veja a coisa, 
alguns s vezes vo precisar de um pequeno chute na bunda para chegar l...
     - No, no, no. - O padre Dominic se inclinou para frente. No podia se inclinar muito porque h cerca de uma semana uma daquelas suas almas perturbadas tinha 
decidido adiar o esclarecimento espiritual e em vez disso tentou arrancar a perna dele. Alm disso, partiu duas de suas costelas, deu-lhe uma concusso bem maneira, 
arrebentou com a escola numa boa e - vejamos - o que mais?
     - Ah, . Tentou me matar.
     O padre Dominic estava de volta  escola, mas usava um gesso que ia at os dedos dos ps e desaparecia debaixo da batina preta, quem sabe at onde? Pessoalmente 
eu no gostava de pensar nisso.
     Mas ele estava se saindo muito bem com aquelas muletas. Seria capaz de perseguir os garotos atrasados de um lado para o outro dos corredores, se fosse preciso. 
Mas como era o diretor, e cuidar dos retardatrios ficava por conta das novias, ele no precisava. Alm disso, o padre Dom era bem legal e no faria isso nem se 
pudesse.
     Mas leva um pouco a srio demais o negcio dos fantasmas, se voc quer saber.
     - Suzannah - disse ele em voz cansada. - Voc e eu, para o bem ou para o mal, nascemos com um dom incrvel: a capacidade de ver os mortos e falar com eles.
     - L vem o senhor de novo com esse papo de dom - falei revirando os olhos. - Francamente, padre, eu no vejo isso assim.
     Como poderia ver? Desde os dois anos - dois anos de idade - eu fui incomodada, pentelhada, perseguida por espritos inquietos. Durante quatorze anos suportei 
o abuso deles, ajudando-os quando podia, batendo neles quando no podia, sempre com medo de algum descobrir meu segredo e me revelar como a monstruosidade biolgica
que eu sempre soube que sou, mas que tentei to desesperadamente esconder de minha me doce e sofredora.
     E ento mame se casou de novo, se mudou e me levou para a Califrnia - no meio do segundo ano do segundo grau, muito obrigada - onde, maravilha das maravilhas,
acabei conhecendo algum que sofria do mesmo terrvel talento: o padre Dominic.
     S que o padre Dominic se recusa a ver nosso "dom" do mesmo modo que eu. Para ele  uma oportunidade maravilhosa de ajudar pessoas necessitadas.
     , est bem. Tudo bem para ele. Ele  um padre. No  uma garota de dezesseis anos que, ol, gostaria de ter uma vida social.
     Se voc me perguntasse, um "dom" teria algum lado positivo. Como uma fora sobre-humana ou a capacidade de ler mentes, ou alguma coisa assim. Mas eu no tenho
nada dessas coisas legais. Sou apenas uma garota comum de dezesseis anos - bem, certo, com uma aparncia acima da mdia, se  que eu mesma posso dizer - que por 
acaso  capaz de conversar com os mortos.
     Grande coisa.
     - Suzannah - disse ele agora, muito srio. - Ns somos mediadores. No somos... bem... exterminadores. Nosso dever  intervir a favor dos espritos e gui-los 
para seu destino definitivo. Fazemos isso atravs de orientao gentil e aconselhamento, e no desferindo um murro no rosto ou fazendo exorcismos.
     Ele ergueu a voz ao dizer a palavra exorcismos, mesmo sabendo perfeitamente que eu s tinha feito os exorcismos como ltimo recurso. Quero dizer, tecnicamente 
isso foi culpa do fantasma, e no minha.
     - Certo, certo, j chega - falei, levantando as duas mos num gesto meio de rendio. - De agora em diante vou experimentar do seu modo. Vou fazer a coisa gentilzinha.
     - Minha nossa! Vocs, da Costa Oeste... Com vocs  tudo tapinhas nas costas e sanduches de abacate, no ?
     O padre Dominic balanou a cabea.
     - E como voc chamaria sua tcnica de mediao, Suzannah? Cacetadas na cabea e chaves de brao?
     - Muito engraado, padre Dom. Agora posso voltar para a aula?
     - Ainda no. - Ele brincou mais um pouco com os cigarros, batendo com o mao como se fosse abri-lo. Este vai ser o dia. - Como foi o seu fim de semana?
     - Maneiro - falei. Levantei as mos, com os ns dos dedos virados para ele. - Est vendo?
     Ele forou a vista.
     - Santo Deus, Suzannah. O que  isso?
     - Sumagre venenoso. Foi legal ningum ter me dito que isso cresce em tudo que  lugar por aqui.
     - No cresce em toda parte. S na floresta. Voc esteve numa floresta neste fim de semana? - Ento seus olhos se arregalaram por trs das lentes dos culos. 
- Suzannah! Voc no foi ao cemitrio, foi? No foi sozinha, pelo menos. Eu sei que voc se acha invencvel, mas no  totalmente seguro uma jovem como voc andar 
por cemitrios, mesmo sendo uma mediadora.
     Baixei as mos e disse, enojada:
     - Eu no peguei isso em nenhum cemitrio. Eu no estava trabalhando. Peguei na festa da piscina de Kelly Prescott no sbado  noite.
     - Festa da piscina de Kelly Prescott? - O padre Dominic ficou confuso. - Como voc pode ter achado sumagre venenoso l?
     - Tarde demais, notei que provavelmente deveria ter ficado de boca fechada. Agora teria de explicar - ao diretor da minha escola, que por acaso era um padre, 
nada menos do que isso - que havia corrido um boato na metade da festa dizendo que meu irmo adotivo, Dunga, e uma garota chamada Debbie Mancuso estavam transando 
no vestirio da piscina.
     Claro que eu havia negado a possibilidade, j que sabia que Dunga estava de castigo. O pai de Dunga - meu novo padrasto que, para um cara bem tranqilo, tipo 
Califrnia, acabou se mostrando um disciplinador bem srio - tinha posto Dunga de castigo por ter chamado um amigo meu de veado.
     Ento, quando correu o boato de que Dunga e Debbie Mancuso estavam mandando ver no vestirio da piscina, eu tive quase certeza de que todo mundo estava enganado. 
Fiquei insistindo que Brad (todo mundo, menos eu, chama Dunga de Brad, que  seu nome de verdade, mas acredite, Dunga, o ano maluco, combina muito mais) estava 
em casa ouvindo Marilyn Manson com os fones de ouvido, j que seu pai tambm tinha confiscado as caixas de som dele.
     Mas ento algum disse:
     - V dar uma olhada. - E eu cometi o erro de fazer isso, indo nas pontas dos ps at a janelinha que tinham indicado e espiando por ela.
     Eu nunca quis especificamente ver algum dos meus irmos adotivos pelado. No que eles sejam feios nem nada. Soneca, o mais velho,  considerado meio garanho 
pela maioria das garotas da Academia da Misso Junipero Serra, onde ele est no ltimo ano e eu no segundo. Mas isso no significa que eu tenha vontade de v-lo 
andando pela casa sem cueca. E claro que Mestre, o mais novo, s tem doze anos,  totalmente adorvel com seus cabelos ruivos e orelhas de abano, mas no  o que 
voc chamaria de um gato.
     Quanto ao Dunga... bem, eu particularmente nunca quis ver Dunga em plo. De fato, Dunga deve ser a ltima pessoa na terra que eu gostaria de ver nu.
     Felizmente, quando olhei pela janela, vi que os relatrios sobre o estgio de nudez do meu irmo - bem como sua voracidade - tinham sido grandemente exagerados. 
Ele e Debbie s estavam dando uns amassos. Isso no quer dizer que eu no tenha ficado completamente repugnada. Quero dizer, eu no senti exatamente orgulho porque 
meu irmo estava ali entrelaando a lngua com a segunda pessoa mais estpida da nossa turma, depois dele.
     Desviei o olhar imediatamente, claro. Quero dizer, a gente tem o canal Showtime em casa, pelo amor de Deus. E j vi muito beijo de lngua antes. No iria ficar 
ali de boca aberta enquanto meu irmo fazia aquilo. E, quanto a Debbie Mancuso, bem, s posso dizer que ela deveria dar um tempo. Ela no pode se dar ao luxo de 
perder mais neurnios do que j perdeu, com todo o fixador e a musse de cabelo que passa no banheiro feminino, entre as aulas.
     Foi enquanto eu estava cambaleando enojada para longe da janela do vestirio, acima de um pequeno caminho de cascalho, que acho que tropecei numa moita de sumagre 
venenoso. No me lembro de ter entrado em contato com vida vegetal em qualquer outro momento deste final de semana, j que sou do tipo de garota que geralmente fica 
em lugares fechados.
     E deixe-me dizer, eu realmente tropecei naquelas plantas. Estava meio tonta por causa do horror do que tinha visto - voc sabe, as lnguas e coisa e tal - e, 
alm disso, estava com sapatos de plataforma e meio que perdi o equilbrio. As plantas s quais eu me agarrei  que me salvaram da ignomnia de desmoronar no deque 
da piscina de Kelly Prescott.
     Mas o que contei ao padre Dominic foi uma verso condensada. Disse que devo ter tropeado numa moita de sumagre venenoso quando estava saindo da piscina dos 
Prescott.
     O padre Dominic pareceu aceitar isso, e disse:
     Bem, um pouco de hidrocortisona deve resolver. Voc deveria procurar a enfermeira quando sair daqui. Certifique-se de no coar, para no espalhar.
     , obrigada. Melhor no respirar tambm. Na certa isso vai ser to fcil quanto.
     O padre Dominic ignorou meu sarcasmo.  engraado que ns dois sejamos mediadores. Nunca conheci outra pessoa que fosse - de fato, at umas semanas atrs, eu 
achava que era a nica mediadora em todo o mundo.
     Mas o padre Dominic diz que h outros. Ele no sabe quantos, nem mesmo como, exatamente, os poucos de ns foram por acaso escolhidos para nossa ilustre - eu 
mencionei sem remunerao? - carreira. Acho que a gente deveria publicar um boletim, ou algo do tipo. Mediadores hoje. E fazer congressos. Eu poderia dar um seminrio 
sobre cinco modos fceis de dar porrada em um fantasma sem bagunar o cabelo.
     De qualquer modo, voltando a mim e ao padre Dominic, para duas pessoas que tm a mesma capacidade estranha de falar com os mortos, no poderamos ser mais diferentes.
Alm da coisa da idade, j que o padre Dom tem sessenta e eu dezesseis, ele  o prprio Sr. Gentil, ao passo que eu...
     Bem, no sou.
     No que no tente ser. S que uma coisa que aprendi com tudo isso  que ns no temos muito tempo aqui na Terra. Ento por que desperdiar aceitando as merdas 
dos outros? Particularmente quando j esto mortos?
     - Alm do sumagre venenoso - disse o padre Dominic. - H mais alguma coisa acontecendo em sua vida que voc acha que eu deveria saber?
     Qualquer coisa na minha vida e que eu achasse que ele deveria saber. Vejamos...
     Que tal o fato de que eu tenho dezesseis anos, e at agora, diferentemente de meu irmo adotivo Dunga, nunca fui beijada, quanto mais convidada para sair?
     No  assim to importante - especialmente para o Padre Dom, um cara que fez voto de castidade uns trinta anos antes de eu nascer -, mas ainda assim  humilhante. 
Aconteceu um monte de beijos na festa de Kelly Prescott - e at umas coisas mais pesadas -, mas ningum tentou travar os lbios comigo.  Numa certa hora um garoto 
que eu no conhecia me convidou para danar agarradinho. E eu disse sim, mas s porque Kelly gritou comigo depois de eu ter dispensado o cara na primeira vez em 
que ele pediu. Parece que o garoto era um cara por quem ela tinha uma queda h um tempo. No sei como  que eu danar agarradinho com o cara iria fazer com que ele 
gostasse de Kelly, mas depois de eu dispens-lo da primeira vez ela me acuou em seu quarto, onde eu tinha ido verificar o cabelo, e, com lgrimas nos olhos, me informou 
que eu tinha arruinado sua festa.
     Arruinei sua festa? - Eu estava genuinamente perplexa. Morava na Califrnia h duas semanas inteiras, por isso estava espantada porque tinha conseguido me tornar 
uma pria em to pouco tempo. Kelly j estava furiosa comigo, eu sabia, porque eu tinha convidado  sua festa meus amigos Cee Cee e Adam, que ela e praticamente 
todo mundo no segundo ano da Academia da Misso consideram uns esquisitos. Agora, pelo jeito, eu tinha tripudiado ao no concordar em danar com um garoto que eu 
nem conhecia.
     - Meu Deus - disse Kelly, quando ouviu isso. - Ele est no primeiro ano da Robert Louis Stevenson, certo?  o piv do time de basquete, o astro. Ganhou a regata 
do ano passado em Pebble Beach e  o cara mais gato do Vale, depois de Bryce Martinson. Suze, se voc no danar com ele eu juro que nunca mais falo com voc.
     - Tudo bem - falei. - Mas o que  que est por trs disso?
     - Eu s... - disse Kelly, enxugando os olhos com o dedo de unha muito bem feita -... quero que tudo corra bem de verdade. Eu j estou de olho nesse cara h 
um tempo, e...
     - Ah, , Kel. E me obrigar a danar com ele realmente vai fazer com que ele goste de voc.
     Mas quando apontei para essa incoerncia lgica em seu processo de pensamento ela s disse:
     - Faa isso - s que no como dizem nos anncios da Nike. Disse do modo como a Bruxa M do Oeste falou aos macacos alados quando os mandou matar Dorothy e seu 
cachorrinho.
     Eu no tenho medo de Kelly nem nada, mas, verdade, quem precisa de encrenca?
     Ento voltei para fora e fiquei ali, em meu mai Calvin Klein - com uma canga amarrada casualmente na cintura, totalmente sem saber que tinha acabado de tropear 
numa moita de sumagre venenoso, enquanto Kelly ia at o gato dos seus sonhos e pedia que ele me pedisse de novo para danar.
     Enquanto eu estava ali parada, tentei no pensar que o nico motivo que ele teria para querer danar comigo era que eu era a nica garota na festa usando roupa 
de banho. Como nunca tinha sido convidada a uma festa da piscina, tinha acreditado erroneamente que as pessoas nadavam nessas festas e me vestido de acordo.
     Aparentemente no era assim. Afora meu irmo adotivo, que aparentemente tinha se esquentado demais no abrao passional de Debbie Mancuso e tirado a camisa, 
eu era a pessoa usando a menor quantidade de roupa.
     Inclusive menos do que o gato dos sonhos de Kelly. Ele apareceu alguns minutos depois, com expresso sria, cala branca e camisa de seda preta. O prprio prego 
de Nova York, mas, afinal de contas, aqui era a Costa Oeste, de modo que como ele ia saber?
     - Quer danar? - perguntou ele numa voz realmente suave. Eu mal pude ouvir acima dos berros de Sheryl Crow estrondeando nas caixas de som do deque da piscina.
     - Olha - falei, pousando minha Diet Coke. - Eu nem sei o seu nome.
     -  Tad.
     E ento, sem dizer outra palavra, ele passou o brao pela minha cintura, me puxou e comeou a balanar no ritmo da msica.
     Com a exceo da vez em que eu me joguei em cima de Bryce Martinson para tir-lo do caminho quando um fantasma estava tentando esmagar seu crnio com uma enorme 
tora de madeira, era o mais prximo do corpo de um garoto - um garoto vivo, que ainda estivesse respirando - que eu j havia estado.
     E deixe-me dizer: mesmo com a camisa de seda preta, eu gostei. A sensao do cara era boa. Ele era todo quente - eu estava meio que sentindo frio no mai; como 
era janeiro, claro, deveria estar frio demais para um mai, mas aqui era a Califrnia, afinal de contas -, e ele cheirava a algum sabonete realmente legal, realmente 
caro. Alm disso, era mais alto do que eu apenas o suficiente para sua respirao meio que roar na minha bochecha daquele jeito provocador, tipo romance aucarado.
     Vou te contar, fechei os olhos, passei os braos em volta do pescoo do cara e balancei com ele durante os dois minutos mais longos e mais bem-aventurados da 
minha vida.
     Ento a msica acabou.
     - Obrigado - disse Tad na mesma voz macia que tinha usado antes e me soltou.
     E foi s isso. Ele se virou e voltou ao seu grupo de caras que estavam perto do barril de chope que o pai de Kelly tinha comprado para ela com a condio de 
no deixar ningum dirigir bbado para casa, condio que Kelly estava cumprindo rigidamente, no bebendo e andando com um celular com o nmero da Txis Carmel na 
memria.
     E ento, pelo resto da festa, Tad me evitou. No danou com mais ningum. Mas no falou comigo de novo.
     Fim do jogo, como diria Dunga.
     Mas eu no achei que o padre Dominic quisesse saber sobre meus ficantes. Por isso falei:
     Nada. Niente. Nothing.
     - Estranho - disse o padre Dominic, pensativo. - Eu diria que houve alguma atividade paranormal...
     - Ah. O senhor quer dizer que aconteceu alguma coisa de fantasmas?
     Agora ele no parecia pensativo. Parecia meio chateado.
     - Bem, sim, Suzannah - disse ele tirando os culos e beliscando o osso do nariz entre o polegar e o indicador, como se tivesse subitamente uma dor de cabea. 
- Claro,  isso que eu quis dizer. - Ele recolocou os culos. - Por qu? Aconteceu alguma coisa? Voc encontrou algum? Quero dizer, desde aquele incidente infeliz 
que resultou na destruio da escola?
     Falei devagar:
     - Bem...
     
Captulo 2



     Na primeira vez em que ela apareceu foi mais ou menos uma hora depois de eu ter voltado da festa de piscina para casa. Por volta das trs da manh, acho. E
o que ela fez foi parar perto da minha cama e comear a gritar.
     Gritar de verdade. Alto de verdade. Ela me acordou de um sono de pedra. Eu estava ali sonhando com o Bryce Martinson. No sonho, eu e ele estvamos percorrendo
a Seventeen Mile Drive num conversvel vermelho. No sei de quem era o conversvel. Dele, acho, j que eu ainda no tenho carteira de motorista. O cabelo macio e
cor de trigo de Bryce estava balanando ao vento e o sol ia afundando no mar, deixando o cu todo vermelho, laranja e roxo. Ns estvamos fazendo curvas, sabe, nos 
penhascos acima do Pacfico, e eu nem me sentia enjoada por causa do carro nem nada. Era um sonho realmente fantstico.
     Ento a mulher comeou a berrar, praticamente no meu ouvido.
     E eu pergunto a voc: Por que eu?
     Claro que me sentei imediatamente, totalmente acordada. Uma mulher morta aparecer berrando no quarto faz isso com a gente. Quero dizer: acordar na hora.
     Fiquei ali sentada piscando, porque meu quarto estava escuro de verdade - bem, era de noite. Voc sabe, de noite, quando as pessoas normais dormem.
     Mas no ns, os mediadores. Ah, no.
     Ela estava parada num trecho fino de luar que entrava pelas janelas salientes do outro lado do meu quarto. Usava um agasalho de moletom com capuz, camiseta, 
calas pescando siri e tnis de cano alto. O cabelo era curto, castanho ruo. Era difcil dizer se era nova ou velha com aquela gritaria toda, mas meio que deduzi 
que tinha mais ou menos a idade da minha me.
     Por isso no sa da cama e no lhe dei um soco ali, na hora.
     Provavelmente deveria ter dado. Quero dizer, eu no podia exatamente berrar de volta para ela sem acordar a casa inteira. Eu era a nica que podia ouvi-la.
     Bem, pelo menos a nica viva.
     Depois de um tempo acho que ela notou que eu estava acordada, porque parou de gritar e enxugou os olhos. Estava chorando pra cacete.
     - Desculpe - disse ela.
     - , bem, voc conseguiu minha ateno. Agora, o que voc quer?
     - Eu preciso de voc. - Ela estava fungando. - Preciso que voc diga uma coisa a uma pessoa.
     - Certo. O qu?
     - Diga a ele... - Ela enxugou o rosto com as mos. - Diga que no foi culpa dele. Ele no me matou.
     Essa era nova. Levantei as sobrancelhas.
     - Dizer a ele que ele no matou voc? - perguntei, s para ter certeza de que tinha ouvido direito.
     Ela confirmou com a cabea. Era meio bonita, acho de um jeito meio abandonado. Ainda que provavelmente no teria feito mal se tivesse comido um ou dois bolinhos 
quando estava viva.
     - Voc diz? - perguntou ela, ansiosa. - Promete?
     - Claro. Eu digo. Mas para quem?
     Ela me olhou de um jeito engraado.
     - Red, claro.
     Red? Ela estava brincando?
     Mas era tarde demais. A mulher tinha sumido.
     Assim.
     Red. Eu me virei e bati no travesseiro para afofar de novo. Red.
     Por que eu? Quero dizer, fala srio. Ser interrompida durante um sonho com Bryce Martinson s porque uma mulher quer que um cara chamado Red saiba que no a 
matou... Juro, algumas vezes me conveno de que minha vida no passa de uma srie de esquetes para as Videocassetadas, sem as partes em que as calas caem.
     S que minha vida no  to engraada, se voc pensar bem.
     Especialmente eu no estava rindo quando, no minuto em que por fim achei um ponto confortvel no travesseiro e ia fechar os olhos de novo para voltar a dormir, 
outra pessoa apareceu na faixa de luar no meio do meu quarto.
     Dessa vez no houve nenhum grito. Foi praticamente a nica coisa pela qual me senti grata.
     - O que ? - perguntei com uma voz bem grosseira.
     Ele falou, balanando a cabea:
     - Voc nem perguntou o nome dela.
     Eu me inclinei para frente, me apoiando nos dois cotovelos. Era por causa desse cara que eu tinha passado a usar camiseta e short para dormir. No que eu ficasse 
andando por a em camisolas difanas antes de ele ter aparecido, mas certamente no iria comear a usar agora que estava dividindo o quarto com algum do sexo masculino.
     - , voc leu isso direito.
     - Como se ela tivesse me dado a chance - falei.
     Voc poderia ter perguntado. - Jesse cruzou os braos diante do peito. - Mas no se incomodou.
     - Com licena - falei sentando-me. - Este  o meu quarto. Vou tratar os visitantes especiais que entrarem nele como eu quiser, muito obrigada.
     - Suzannah.
     Ele tinha a voz mais suave que se possa imaginar. Mais ainda do que aquele cara, o Tad. Era como seda, ou alguma coisa do tipo. Era realmente difcil ser m 
com um cara que tinha uma voz daquelas.
     Mas o negcio  que eu precisava ser m. Porque mesmo ao luar eu podia perceber a largura de seus ombros fortes, a abertura em "v" de sua camisa branca e fora 
de moda, revelando uma pele morena, azeitonada, alguns plos no peito e provavelmente os abdominais mais bem definidos que voc j viu. Tambm podia ver os planos 
fortes de seu rosto, a cicatriz minscula numa das sobrancelhas pretssimas, onde alguma coisa - ou algum - tinha-o cortado uma vez.
     Kelly Prescott estava errada. Martinson no era o cara mais gato de Carmel.
     Era Jesse.
     E se eu no fosse m com ele, sabia que ia acabar me apaixonando.
     E o problema era, veja bem, ele estava - hum - morto.
     - Se voc vai fazer isso, Suzannah - disse ele naquela voz sedosa - no faa pela metade.
     - Olha, Jesse. - Minha voz no estava nem um pouco sedosa. Era dura que nem pedra. Ou foi o que eu disse a mim mesma, pelo menos. - Eu venho fazendo isso h 
muito tempo sem ajuda sua, certo?
     - Ela estava obviamente muito carente e voc...
     - E voc? - perguntei irritada. - Vocs dois vivem no mesmo plano astral, se  que no estou enganada. Por que voc no pegou a patente e o nmero de registro 
dela?
     - Patente e o qu?
     Algumas vezes eu esqueo que Jesse morreu h uns cento e cinqenta anos. No est exatamente a par do jargo do sculo vinte e um, se  que voc me entende.
     - O nome dela - traduzi. - Por que voc no pegou o nome dela?
     Ele balanou a cabea.
     - No funciona assim.
     Jesse vive dizendo coisas desse tipo. Coisas cifradas sobre o mundo espiritual que eu, no sendo um esprito, ainda assim deveria entender. Vou te contar, isso 
me enche o saco. Somando isso ao espanhol - que eu no falo, e que ele usa ocasionalmente, em especial quando est furioso -, eu no fao idia do que Jesse est 
dizendo mais ou menos um tero das vezes.
     O que  irritante pra burro. Quero dizer, eu tenho de dividir meu quarto com o cara porque foi nesse quarto que ele levou um tiro, ou sei l o qu, tipo em 
1850, quando a casa era uma espcie de penso para garimpeiros e vaqueiros - ou, no caso de Jesse, filhos de fazendeiros ricos que deveriam se casar com suas primas 
lindas e ricas, mas que eram tragicamente assassinados no caminho para a cerimnia.
     Pelo menos foi o que tinha acontecido com Jesse. No que ele tivesse me contado isso, nem nada. No, eu tive de deduzir sozinha... ainda que meu irmo adotivo 
Mestre tenha ajudado. No  um assunto que Jesse parea muito interessado em discutir. O que  meio estranho porque, na minha experincia, tudo que os mortos querem 
falar  como foram para a outra banda.
     Mas no Jesse. Ele s quer falar de como eu sou uma mediadora fajuta.
     Mas talvez ele tenha alguma razo. Quero dizer, segundo o padre Dominic, eu deveria estar servindo de condutora espiritual entre a terra dos vivos e a terra 
dos mortos. Mas na maior parte do tempo o que estava fazendo era reclamar porque ningum me deixava dormir.
     - Olha - falei -, eu pretendo ajudar aquela mulher. S que no agora, certo? Agora eu preciso dormir um pouco.
     - Estou totalmente esfrangalhada.
     - Esfrangalhada? - ecoou ele.
     - . Esfrangalhada. - Algumas vezes acho que Jesse tambm no entende um tero do que eu falo, se bem que pelo menos eu estou falando nossa lngua.
     - Arrasada - traduzi. - Morta. Em farrapos. Exausta.
     - Ah. - Ele ficou ali parado um minuto, me espiando com aqueles olhos escuros, tristes. Jesse tem aquele tipo de olhos que uns caras tm, o tipo de olhos tristes 
que deixam a gente com vontade de fazer com que no fiquem to tristes.
     Por isso eu preciso fazer questo de ser to m com ele. Tenho quase certeza de que h uma regra contra isso. Quero dizer, segundo as diretrizes de mediao 
do padre Dom. Sobre mediadores e fantasmas se juntando e tentando... bem... botar o outro para cima.
     Se  que voc me entende.
     - Ento boa noite, Suzannah - disse Jesse naquela voz profunda e sedosa.
     - Boa noite. - Minha voz no  profunda nem sedosa.
     Naquele momento, de fato, ela saiu meio esganiada.
     Geralmente  assim quando estou falando com Jesse. Com mais ningum. S com o Jesse.
     O que  fantstico. No nico momento em que eu quero parecer sensual e sofisticada, fico esganiada. Fantstico.
     Rolei, puxando as cobertas sobre o rosto, que dava para perceber que estava ruborizado. Quando espiei por baixo delas um instante depois, vi que ele tinha sumido.
     Esse  o estilo do Jesse. Ele aparece quando eu menos espero e desaparece quando menos quero.  assim que os fantasmas agem.
     Veja o meu pai. Ele vem fazendo umas visitas sociais totalmente aleatrias desde que morreu h uma dcada. E aparece quando eu realmente preciso? Tipo quando 
mame me fez mudar para c, para uma costa completamente diferente, onde eu no conhecia ningum e fiquei totalmente solitria? Claro que no. Nenhum sinal do bom 
e velho papai. Ele sempre foi bastante irresponsvel, mas eu realmente achava que no momento em que eu precisasse...
     Mas no posso acusar Jesse de ser irresponsvel. Na verdade ele era um pouco responsvel demais. At havia salvado minha vida, no uma vez, mas duas. E eu s 
o conhecia h duas semanas. Acho que voc pode dizer que eu meio que lhe devia uma.
     Ento, quando o padre Dominic me perguntou, em sua sala, se tinha acontecido alguma coisa de fantasma, eu meio que menti e disse que no. Acho que  pecado 
mentir, especialmente para um padre, mas o negcio  o seguinte:
     Eu nunca contei exatamente ao padre Dom sobre Jesse.
     S achei que ele poderia ficar perturbado, voc sabe, sendo um padre e coisa e tal, ao saber que havia um cara morto no meu quarto. E o fato  que obviamente 
Jesse estava ali havia tanto tempo por algum motivo. Parte do servio de mediador  ajudar os fantasmas a deduzir que motivo  esse. Em geral, assim que o fantasma 
sabe, ele pode cuidar do que o est mantendo preso neste meio de caminho entre a vida e a morte e ir em frente.
     Mas algumas vezes - e eu suspeitava de que esse fosse o caso de Jesse - o cara morto no sabe por que continua por aqui. No faz a mnima idia.  quando eu 
tenho de usar o que o padre Dom chama de minhas habilidades intuitivas.
     O negcio  que eu sou meio carente nesse departamento porque no sou muito boa em intuio. Sou muito melhor quando eles - os mortos - sabem perfeitamente 
bem por que continuam por aqui, mas simplesmente no querem ir para onde devem porque o que os espera l provavelmente no  assim maravilhoso. Esses so os piores 
tipos de fantasmas, cujas bundas eu no tenho opo alm de chutar.
     Por acaso eles so minha especialidade.
     O padre Dominic, claro, acha que ns devemos tratar todos os fantasmas com dignidade e respeito, sem o uso dos punhos.
     Discordo. Alguns fantasmas simplesmente merecem levar um pau nas fuas. E eu no me sinto nem um pouco mal em fazer isso.
     Mas no a dona que apareceu no meu quarto. Ela parecia uma figura bem decente, s meio confusa. O motivo para eu no ter contado ao padre Dom sobre ela era 
que, na verdade, eu estava meio com vergonha do modo como a havia tratado. Jesse estava certo em ter gritado comigo. Eu tinha sido sacana com ela e, sabendo que 
ele estava certo, tinha sido sacana com ele tambm.
     Ento voc v, eu no podia contar ao padre Dom sobre Jesse nem sobre a dona que Red no tinha matado. Achava que, de qualquer modo, a dona seria atendida logo. 
E Jesse...
     Bem, com o Jesse eu no sabia o que fazer. Estava praticamente convencida de que no havia nada que pudesse fazer com relao ao Jesse.
     Alm disso, eu estava com um certo medo de estar me sentindo assim, porque na verdade no queria fazer nada com relao ao Jesse. Por mais que fosse um saco 
ter de trocar de roupa no banheiro e no no quarto - Jesse parecia sentir uma averso ao banheiro, que tinha sido construdo depois de ele ter morado na casa - e 
no poder usar camisolas difanas na cama, eu meio que gostava de ter Jesse por perto. E se contasse sobre ele ao padre Dom, o padre Dom ficaria todo alterado e 
incomodado e iria querer ajud-lo a ir para o outro lado.
     Mas que bem isso iria me fazer? A eu nunca mais iria v-lo.
     Isso era egosmo da minha parte? Quero dizer, eu meio achava que, se ele quisesse ir para o outro lado, teria feito alguma coisa a respeito. Ele no era um 
daqueles fantasmas do tipo "me ajuda que eu estou perdido", como a que tinha vindo com o recado para Red. De jeito nenhum. Jesse era um fantasma do tipo "no mexa 
comigo, eu sou misterioso demais". Voc sabe quais so. Aqueles com sotaque e abdominais de matar.
     De modo que admito. Eu menti. E da? Pode me processar.
     - No - falei. - No h nada a relatar, padre Dom. Nem sobrenatural nem de outro tipo.
     Seria minha imaginao ou o padre Dominic pareceu meio desapontado? Para dizer a verdade, acho que ele meio gostou quando eu arrebentei a escola inteira. Srio. 
Por mais que ele reclamasse disso, no acho que se incomode tanto com minhas tcnicas de mediao. Isso certamente lhe dava motivo para fazer sermes e, como diretor 
de uma minscula escola particular em Carmel, Califrnia, no posso imaginar que ele tenha realmente muito do que reclamar. Alm de mim, quero dizer.
     - Bem - disse ele, tentando no deixar que eu visse como estava frustrado com minha falta do que informar. - Tudo bem. - Em seguida se animou. - Eu soube que 
houve uma batida com trs carros em Sunnyvale. Talvez devssemos ir at l e ver se alguma daquelas pobres almas perdidas precisa da nossa ajuda.
     Olhei-o como se ele estivesse pirado.
     Padre Dom - falei chocada.
     Ele brincou com os culos.
     - , ns... quero dizer, eu s pensei...
     - Olha, padre - falei me levantando. - O senhor tem de lembrar uma coisa. Eu no sinto o mesmo que o senhor com relao a esse nosso dom. Nunca pedi e nunca 
gostei dele. S quero ser normal, sabe?
     O padre Dom pareceu abalado.
     - Normal? - repetiu ele. Como se dissesse: quem raios poderia querer ser normal?
     - , normal. Quero passar o tempo preocupada com coisas normais com as quais as garotas de dezesseis anos se preocupam. Tipo o dever de casa e por que nenhum 
garoto quer sair comigo e por que meus irmos adotivos tm de ser uns panacas to grandes. Eu no adoro exatamente esse negcio de caa-fantasmas, certo? Ento, 
se eles precisam de mim, que me achem. Mas com toda a certeza no vou procur-los.
     O padre Dominic no se levantou de sua cadeira. Na verdade no podia, por causa do gesso. Pelo menos no sem ajuda.
     - Nenhum garoto quer sair com voc? - perguntou, parecendo perplexo.
     Eu sei.  um dos grandes enigmas do mundo moderno. J que eu sou to linda e coisa e tal. Especialmente com isso aqui. - Levantei minhas mos soltando lquido.
     Mesmo assim, o padre Dominic ficou confuso.
     - Mas voc  terrivelmente popular, Suzannah. Quero dizer, afinal de contas voc foi eleita vice-presidente da turma do segundo ano na sua primeira semana na 
Academia da Misso. E eu julgava que Bryce Martinson gostava bastante de voc.
     - . Gostava.
     At que o fantasma de sua ex-namorada - que eu fui obrigada a exorcizar - quebrou a clavcula dele e ele teve de mudar de escola, e ento se esqueceu imediatamente 
de mim.
     - Bem, ento - disse o padre Dominic, como se isso resolvesse a coisa. - Voc no tem nada com que se preocupar nesse mbito. O mbito dos garotos, quero dizer.
     Eu s olhei para ele. Coitado do velho. Isso quase bastou para fazer com que eu sentisse pena.
     - Tenho de voltar para a aula - falei, pegando meus livros. - Ultimamente eu tenho passado muito tempo na sala do diretor, as pessoas vo pensar que eu tenho 
alguma ligao com o estabelecimento e pedir para eu me demitir do cargo.
     - Certamente. Claro. Aqui est o seu passe. E tente se lembrar do que ns discutimos, Suzannah. Um mediador  algum que ajuda os outros a resolver conflitos. 
E no algum que... bem... acerta os outros no rosto.
     Sorri para ele.
     - Vou lembrar disso.
     E lembraria mesmo. Logo depois de ter chutado a bunda de Red.
     Quem quer que ele fosse.
     
Captulo 3



     Por acaso descobri facilmente quem ele era. S precisei perguntar na hora do almoo se algum conhecia um cara chamado Red.
     Em geral no  to fcil assim. Nem vou contar sobre a quantidade de catlogos telefnicos que revirei, as horas que passei na internet. Para no falar das 
desculpas esfarrapadas que tive de dar  minha me, tentando explicar as contas de telefone que produzi tentando conseguir informaes.
     - Desculpe, mame. Eu realmente tinha de descobrir se havia alguma loja, num raio de oitenta quilmetros, que vendesse sapatos Manolo Blahnik...
     Mas dessa vez foi to fcil que quase me fez pensar: hei, talvez esse negcio de mediadora no seja to ruim.
     Isso, claro, naquela hora. Eu ainda no tinha achado Red.
     - Algum conhece um cara chamado Red? - perguntei ao pessoal com quem eu tinha comeado a almoar e com quem achava que continuaria almoando regularmente.
     -  claro - disse Adam. - O nosso velho amigo Rdia, a larva solitria.
     - No  Red de Rdia - eu disse. - Esse  s Red mesmo.
     - Talvez j seja adulto. Talvez more na rea.
     - Red Beaumont - disse Cee Cee. Ela estava comendo pudim num copo plstico. Uma gaivota grande e gorda se empoleirava a menos de trinta centmetros de distncia, 
olhando a colher a cada vez que Cee Cee a mergulhava no copo e depois levava aos lbios. A Academia da Misso no tem lanchonete. A gente come do lado de fora todo 
dia - at, aparentemente, em pleno inverno. Mas o inverno daqui no era como o de Nova York, claro. Aqui em Carmel fazia uma temperatura agradvel de vinte e um 
graus e havia sol do lado de fora. Na minha cidade, segundo o Canal do Tempo, tinha nevado quinze centmetros.
     Eu estava na Califrnia h quase trs semanas, mas at agora no tinha chovido nem uma vez. Eu ainda estava para descobrir onde a gente comeria se chovesse 
na hora do almoo.
     Eu j havia aprendido do modo mais difcil o que acontece se a gente alimenta as gaivotas.
     - Thaddeus Beaumont  um empreendedor imobilirio.
     - Cee Cee terminou o pudim e comeou a comer uma banana que tirou de um saco de papel que estava ao seu lado no banco. Cee Cee nunca compra lanches na escola. 
Ela tem uma coisa com comida industrializada.
     Cee Cee continuou, enquanto descascava a banana:
     - Os amigos o chamam de Red. No pergunte por que, j que ele no tem cabelos ruivos. Mas por que voc quer saber?
     Essa era sempre a parte complicada. Sabe, a parte do "por que voc quer saber". Porque o fato  que, afora o padre Dom, ningum sabe sobre mim. Quero dizer, 
sobre o negcio de mediadora. Nem Cee Cee, nem Adam. Nem mesmo minha me. Mestre, meu irmo adotivo mais novo, suspeita, mas no sabe. Nem tudo.
     Minha melhor amiga, Gina, l do Brooklyn, provavelmente foi quem chegou mais perto de deduzir e isso apenas porque, por acaso, estava presente quando madame 
Zara, uma tarloga que a Gina me obrigou a consultar, me olhou chocada e disse:
     - Voc fala com os mortos.
     Gina achou maneiro. S que nunca soube - no de verdade - o que isso significava. Porque o que isso significa, claro,  que eu nunca durmo o suficiente, tenho 
machucados que no posso explicar, provocados por pessoas que ningum mais pode ver e, ah, claro, no posso trocar de roupa no meu quarto porque o fantasma de um 
caubi morto h cento e cinqenta anos pode me ver nua.
     - Alguma pergunta?
     Para Cee Cee eu apenas disse:
     - Ah,  s uma coisa que eu ouvi na TV. - No era to difcil mentir aos amigos. Mas mentir para minha me, isso era meio brabo.
     - Esse no era o nome daquele cara com quem voc danou na festa da Kelly? - perguntou Adam. - Voc lembra, Suze. Tad, o corcunda com dentes faltando e um chul 
de matar? Depois voc me procurou, jogou os braos em volta de mim e implorou que eu me casasse com voc para ser protegida dele pelo resto da vida.
     - Ah,  - falei. - Ele mesmo.
     -  o pai dele - disse Cee Cee. Cee Cee sabe de tudo no mundo porque  editora (e redatora e fotgrafa) do Notcias da Misso, o jornal da escola. - Tad Beaumont 
 o filho nico de Red Beaumont.
     - Ah - falei. Ento fez um pouco mais de sentido. Quero dizer, por que a mulher morta me procurou. Obviamente ela sentiu uma ligao com Red atravs do filho 
dele.
     - Ah o qu? - Cee Cee ficou interessada. Mas Cee Cee sempre fica interessada. Ela  como uma esponja, s que em vez de gua absorve fatos. - No diga, voc 
ficou caidinha por aquele gato filho dele. Quero dizer, qual  a do cara? Ele nem perguntou o seu nome.
     Era verdade. Eu nem tinha notado, tambm. Mas Cee Cee estava certa. Tad nem perguntou meu nome. Ainda bem que eu no estava interessada nele.
     - Eu ouvi coisas ruins sobre Tad Beaumont - disse Adam, balanando a cabea. - Quero dizer, alm de andar por a carregando o gmeo no digerido nas entranhas,
bem, h aquele tique facial embaraoso, controlado somente por fortes doses de Prozac. E voc sabe o que o Prozac faz com a libido dos caras...
     - Como  a Sra. Beaumont? - perguntei.
     - No existe Sra. Beaumont - disse Cee Cee.
     Adam suspirou.
     - Produto do divrcio - disse ele. - Pobre Tad. No  de espantar que ele tenha tantos problemas para assumir compromissos. Ouvi dizer que ele costuma namorar 
trs, quatro garotas ao mesmo tempo. Mas talvez isso seja por causa do vcio sexual. Ouvi dizer que h um grupo de ajuda para isso.
     Cee Cee o ignorou.
     - Acho que ela morreu h alguns anos.
     - Ah. - Ser que o fantasma que tinha aparecido no meu quarto poderia ser a esposa falecida do Sr. Beaumont? Parecia valer uma tentativa. - Algum tem uma moeda 
de vinte e cinco centavos?
     - Por qu? - quis saber Adam.
     - Tenho de dar um telefonema.
     Quatro pessoas da nossa turma do almoo estenderam celulares. Srio. Eu escolhi o que tinha a quantidade menos intimidante de botes, depois disquei para Informaes 
e perguntei o nmero de Thaddeus Beaumont. A telefonista disse que o nico nmero que tinha era das Indstrias Beaumont. Eu falei:
     - Tudo bem.
     Caminhando at o trepa-trepa das crianas - a Academia da Misso tem turmas do jardim de infncia at o terceiro ano, e o playground onde a gente almoa tem 
at caixa de areia, se bem que eu seria incapaz de encostar nela, com as gaivotas e tudo - para ter um pouco de privacidade, falei  recepcionista que atendeu com 
um alegre "Indstrias Beaumont, em que posso ser til?" que precisava falar com o Sr. Beaumont.
     - Quem eu devo anunciar, por favor?
     Pensei nisso. Eu poderia ter dito "Algum que sabe o que realmente aconteceu com a mulher dele". Mas o negcio  que eu no sabia realmente. Nem sabia por que, 
exatamente, suspeitava que sua esposa - se aquela mulher fosse mesmo sua esposa - estava mentindo e que na verdade Red a tinha matado.  meio deprimente, se a gente 
pensa nisso. Quero dizer, eu sendo to nova e to cnica e cheia de suspeitas.
     Por isso falei:
     - Suzannah Simon. - E me senti na pior. - Por que um homem importante como Red Beaumont atenderia a um telefonema de Suzannah Simon? Ele nem me conhecia.
     Sem dvida, a recepcionista me tirou da espera um segundo depois e disse:
     - O Sr. Beaumont est atendendo a outro telefonema neste momento. Posso pegar um recado?
     - Ah... - falei, pensando rpido. - . Diga a ele... diga a ele que estou ligando do jornal da Academia da Misso Junipero Serra. Eu sou reprter, e ns estamos 
fazendo uma matria sobre... as dez pessoas mais influentes do Condado de Salinas. - Eu lhe dei o nmero da minha casa. - E pode dizer para no ligar antes das trs? 
Por que eu s saio da escola a essa hora.
     Assim que a recepcionista ficou sabendo que eu era uma garota, ficou ainda mais gentil.
     - Claro, querida - disse ela numa voz aucarada. - Vou dizer ao Sr. Beaumont. At loguinho.
     Desliguei. O at loguinho me irritou. O Sr. Beaumont ficaria bem surpreso quando ligasse para mim e entrasse em contato com a Rainha do Povo das Trevas, em 
vez de Lois Lane.
     Mas o negcio  que Thadeus "Red" Beaumont nem se incomodou em ligar de volta. Acho que, quando voc  zilionrio, ser considerado uma das dez pessoas mais 
influentes por um jornaleco de escola no  l grande coisa. Eu fiquei em casa o dia inteiro depois das aulas e ningum ligou. Pelo menos no para mim.
     No sei por que achei que seria to fcil. Acho que tinha sido levada a um falso sentimento de segurana por ter conseguido descobrir o nome dele com tanta 
facilidade.
     Estava sentada no meu quarto, admirando meu sumagre venenoso aos raios do sol poente, quando mame me chamou para o jantar.
     O jantar  um negcio muito importante no lar dos Ackerman. Basicamente minha me j havia me informado que me mataria se eu no aparecesse para o jantar toda 
noite, a no ser que tivesse combinado a ausncia antecipadamente com ela. Seu novo marido, Andy, alm de tremendo carpinteiro,  um cozinheiro muito bom e vinha 
fazendo grandes jantares toda noite para os filhos desde que eles ganharam dentes, ou sei l o qu. E cafs da manh com panquecas nos domingos tambm. Posso dizer 
que o cheiro de xarope de bordo de manh me d nsias de vmito? O que h de errado, pergunto eu, num pozinho simples com queijo cremoso, e talvez um salmozinho 
defumado com uma fatia de limo e umas alcaparras?
     - Aqui est ela - disse minha me quando eu entrei arrastando os ps na cozinha com as roupas ps-escola: jeans rasgados, camiseta de seda preta e botas de 
motociclista.
     So roupas assim que fizeram meus irmos adotivos suspeitarem que eu faa parte de uma gangue, apesar de minhas negativas insistentes.
     Mame fez um grande alarde vindo at mim e me beijando no topo da cabea. Isso  porque desde que mame conheceu Andy Ackerman - ou Andy Jeitoso, como ele  
conhecido no programa de trabalhos manuais que apresenta na TV a cabo - casou com ele, me obrigando a me mudar para a Califrnia para morar com ele e os trs filhos, 
ela est incrvel e nojentamente feliz.
     Vou lhe contar, entre isso e o xarope de bordo, eu no sei o que  mais repulsivo.
     - Ol, querida - disse mame, embolando todo o meu cabelo. - Como foi o seu dia?
     - Ah. timo.
     Ela no ouviu o sarcasmo na minha voz. O sarcasmo era completamente desperdiado com mame desde que ela conheceu Andy.
     - E como foi a reunio do diretrio estudantil?
     - Sacal.
     Isso foi Dunga, tentando ser engraado imitando minha voz.
     - O que quer dizer com sacal? - Andy, l no fogo, estava virando quesadillas que chiavam na grelha que ele havia posto sobre os queimadores. - O que exatamente 
foi sacal?
     - , Brad - falei. - O que foi sacal? Voc e Debbie Mancuso estavam brincando com os ps debaixo da mesa, ou algo do tipo?
     Dunga ficou todo vermelho. Ele faz luta-livre. Seu pescoo  grosso como minha coxa. Quando seu rosto fica vermelho, o pescoo fica mais vermelho ainda.  lindo 
de ver.
     - De que voc est falando? - perguntou Dunga. - Eu nem gosto de Debbie Mancuso.
     - Claro que no - falei. -  por isso que se sentou junto dela no almoo hoje.
     O pescoo de Dunga ficou cor de sangue.
     - David! - Andy, perto do fogo, comeou a berrar subitamente. - Jake! Andem, vocs dois. O jantar est pronto.
     Os outros dois filhos de Andy, Soneca e Mestre, vieram arrastando os ps. Bem, Soneca veio arrastando os ps. Mestre veio saltando. Mestre era o nico filho 
de Andy que eu conseguia me lembrar de chamar pelo nome de verdade. Isso porque, com seu cabelo ruivo e aquelas orelhas que se projetam de verdade da cabea, ele 
parecia um personagem de desenho animado. Alm disso, era muito inteligente e nele eu via um bocado de ajuda potencial para meu dever de casa, mesmo estando trs 
sries  sua frente.
     Soneca, por outro lado, no tem qualquer utilidade para mim, a no ser como um cara com quem eu posso pegar carona para ir e vir da escola. Aos dezoito anos 
Soneca estava em posse integral da carteira de motorista e de um veculo, um Rambler velho e esculhambado, com partida falha, mas a gente botava a vida nas mos 
dele ao pegar carona, porque ele quase nunca estava totalmente acordado, devido ao trabalho noturno como entregador de pizza. Ele vinha economizando, como gostava 
de nos lembrar nas poucas ocasies em que falava, para comprar um Camaro. E, pelo que dava para ver, aquele Camaro era a nica coisa em que ele pensava.
     Ela sentou perto de mim - gritou Dunga. - Eu no gosto de Debbie Mancuso.
     Abandone a mentira - aconselhei enquanto passava por ele. Minha me tinha me dado uma tigela de molho para levar  mesa. - Eu s espero - sussurrei em seu ouvido 
enquanto passava - que vocs dois tenham feito sexo seguro naquela noite na festa da piscina de Kelly. Eu ainda no estou preparada para ser tia adotiva.
     - Cala a boca - gritou Dunga. - Sua... sua... Mo de Micose!
     Pus uma das minhas mos de micose no corao e fingi que ele tinha me esfaqueado ali.
     - Nossa - falei. - Isso realmente di. Zombar das reaes alrgicas das pessoas  uma coisa to incrivelmente incisiva e inteligente!
     - , panaca - disse Soneca a Dunga, enquanto passava por ele. - O que h com voc e a gata selvagem, hein?
     Dunga, totalmente perdido, comeou a parecer desesperado.
     - Debbie Mancuso e eu no estamos transando! - gritou ele.
     Vi mame e papai trocarem um olhar rpido, perplexo.
     - Eu realmente espero que no - disse Mestre, o irmozinho de Dunga, quando passou lepidamente por ns. - Mas se esto, Brad, espero que voc esteja usando 
camisinha. Ainda que uma camisinha de ltex de boa qualidade tenha uma taxa de falhas de cerca de dois por cento quando usada segundo as recomendaes, tipicamente 
a mdia de problemas est mais prxima de doze por cento. Isso faz com que elas sejam apenas cerca de oitenta e cinco por cento eficazes para impedir a gravidez. 
Se for usada com espermicida, a eficcia aumenta dramaticamente. E as camisinhas so nossa melhor defesa (ainda que no to boa, claro, quanto  absteno) contra 
algumas DSTs, inclusive o HIV.
     Todo mundo na cozinha - mame, Andy, Dunga, Soneca e eu - encaramos Mestre, que, como eu mencionei antes, tem doze anos.
     - Voc tem tempo livre demais - falei, por fim.
     Mestre deu de ombros.
     -  bom ser informado. Ainda que eu no seja sexualmente ativo atualmente, espero me tornar num futuro prximo. - Ele assentiu para o fogo. - Papai, suas chimichangas, 
ou sei l o qu, esto pegando fogo.
     Enquanto Andy pulava para apagar o fogo do queijo, minha me ficou ali parada, aparentemente sem encontrar palavras pela primeira vez na vida.
     - Eu... - disse ela. - Eu... Ah. Minha.
     Dunga no deixaria Mestre ter a ltima palavra.
     - Eu no estou - repetiu ele - transando com...
     - Ah, Brad - disse Soneca. - Corta essa, t?
     Dunga no estava mentindo, claro. Eu mesma tinha visto que ele s tinha jogado hquei de lngua. A paixo feroz de Dunga e Debbie era a causa de eu estar cuidando 
da mo com creme de cortisona. Mas qual  a diverso de se ter irmos adotivos se a gente no pode tortur-los? No que eu fosse contar a algum o que tinha visto, 
claro. Eu sou muitas coisas, mas no sou dedo-duro. Mas no me entenda mal: eu gostaria que Dunga fosse apanhado saindo de casa durante o castigo. Quero dizer, no 
acho que ele tenha aprendido nada com a "punio". Ele provavelmente ainda iria se referir ao meu amigo Adam como veado, na prxima vez em que o visse.
     S que no faria isso na minha presena. Porque, mesmo ele sendo lutador de luta livre, eu chutaria a bunda de Dunga daqui at a avenida Clinton, minha rua 
l no Brooklyn.
     Mas no seria eu a dedur-lo. No era uma coisa de classe, sabe?
     - E voc - perguntou mame com um sorriso - achou que a reunio do diretrio foi to sacal quanto Brad, Suze?
     Sentei-me no meu lugar  mesa de jantar. Assim que fiz isso, Max, o cachorro dos Ackerman, veio farejando e ps a cabea no meu colo. Eu o empurrei. Ele ps 
a cabea de volta. Mesmo eu morando aqui h menos de um ms, Max j havia deduzido que eu sou a pessoa mais provvel de deixar restos no prato.
     Claro, as horas das refeies eram as nicas em que Max prestava ateno em mim. No resto do tempo me evitava como se eu fosse a peste. Evitava especialmente 
meu quarto. Os animais, diferentemente dos seres humanos, so muito perceptivos com relao aos fenmenos paranormais e Max sentia Jesse e por isso permanecia longe 
das partes da casa em que ele normalmente gostava de ficar.
     - Claro - falei, tomando um gole d'gua. - Foi sacal.
     - E o que foi decidido na reunio? - quis saber minha me.
     - Eu fiz uma moo para cancelar o baile da primavera - falei. - Desculpe, Brad. Sei como voc estava contando em acompanhar Debbie  festa.
     Dunga me lanou um olhar sujo do outro lado da mesa.
     - Mas por que voc iria querer cancelar o baile da primavera, Suze? - perguntou mame.
     - Porque  um desperdcio estpido de nossas verbas muito limitadas.
     - Mas um baile! - protestou minha me. - Eu adorava ir aos bailes de escola quando tinha sua idade.
     Isso, eu queria dizer,  porque voc sempre tinha um namorado, mame. Porque voc era bonita, legal, e os garotos gostavam de voc. No era uma esquisita patolgica 
como eu, com mos de micose e uma capacidade secreta de conversar com os mortos.
     Em vez disso falei:
     - Bem, a senhora estaria em minoria na minha turma.
     - Minha moo foi apoiada e aprovada por vinte e sete votos.
     - Bem - disse mame. - O que vocs vo fazer com o dinheiro, ento?
     - Gastar com cerveja - falei, lanando um olhar para Dunga.
     - Nem brinque com isso - disse mame, sria. - Eu me preocupo muito com a quantidade de bebida que os adolescentes consomem aqui. - Minha me  reprter de 
televiso. Ela faz o noticirio matutino de uma estao local perto de Monterey. Sua melhor qualidade  parecer sria enquanto l num teleprompter sobre acidentes 
medonhos.
     - Eu no gosto. No  como em Nova York. L, nenhum dos seus amigos dirigia, por isso eu no me importava tanto. Mas aqui... bem, todo mundo dirige.
     - Menos Suze - disse Dunga. Ele parecia achar que era seu dever jogar na minha cara o fato de que, mesmo tendo dezesseis anos, ainda no tenho carteira. Nem 
mesmo permisso para fazer aulas. Como se dirigir fosse a coisa mais importante do mundo. Como se meu tempo j no estivesse totalmente ocupado com a escola, minha 
recente nomeao como vice-presidente da turma do segundo ano na Academia da Misso e salvar as almas perdidas dos desmortos.
     - O que vocs vo fazer realmente com o dinheiro? - perguntou mame.
     Dei de ombros.
     - Ns temos de levantar dinheiro para substituir a esttua do fundador, o padre Junipero Serra, antes da visita do arcebispo no ms que vem.
     - Ah. Claro. A esttua que foi vandalizada.
     Vandalizada. , certo.  o que todo mundo dizia, claro.
     Mas aquela esttua no foi vandalizada. O que aconteceu foi que um fantasma que estava tentando me matar cortou a cabea da esttua e tentou us-la como bola 
de boliche.
     E eu devia ser o pino.
     - Quesadillas - disse Andy, vindo  mesa com um monte delas numa bandeja. - Aproveitem enquanto esto quentes.
     O que se seguiu foi um caos to grande que eu s pude ficar sentada, com a cabea de Max ainda no colo, e assistir em horror. Quando terminou, todas as quesadillas 
tinham sumido, mas meu prato e o da minha me ainda estavam vazios. Depois de um tempo Andy notou isso, pousou o garfo e disse, irritado:
     - Ei, pessoal! Vocs j pensaram em esperar para pegar a segunda poro depois de todo mundo na mesa pegar a primeira?
     Aparentemente no. Soneca, Dunga e Mestre olharam sem graa para seus pratos.
     - Desculpe - disse Mestre, estendendo o prato, com queijo e molho pingando, na direo de mame. - Pode pegar um pouco do meu.
     Minha me pareceu sentir um certo nojo.
     - No, obrigada, David. Vou ficar s com a salada, acho.
     - Suze - disse Andy, pondo seu guardanapo na mesa. -
     - Vou fazer a quesadilla com mais queijo que voc j...
     Empurrei a cabea de Max para fora do caminho e estava de p antes que Andy pudesse sair de sua cadeira.
     - Sabe de uma coisa? - falei. - No se incomode. Realmente acho que s vou comer um pouco de cereal.
     Andy ficou magoado.
     - Suze, no  problema...
     - No, srio - falei. - Eu ia treinar kickboxing com minha fita de vdeo depois e muito queijo ia acabar pesando.
     - Mas - disse Andy - eu vou fazer mais de qualquer modo...
     Ele estava to pattico que eu no tive opo alm de dizer:
     - Bem, vou experimentar uma. Mas por enquanto termine o que est no seu prato, e eu vou pegar um pouco de cereal.
     Enquanto eu estava falando, ia recuando da sala. Assim que cheguei em segurana  cozinha, com Max nos meus calcanhares - ele no era idiota, sabia que no 
conseguiria uma migalha daqueles caras na sala: eu era o ingresso de Max para comida de gente - peguei uma caixa de cereal e uma tigela, depois abri a geladeira 
para pegar um pouco de leite. Foi ento que ouvi uma voz suave sussurrar atrs de mim:
     - Suze.
     Girei. No precisei ver Max saindo de fininho da cozinha com o rabo entre as pernas para saber que estava na presena de outro membro daquele clube exclusivo 
conhecido como os Desmortos.
     
Captulo 4



     Quase morri de susto. - Meu Deus, papai. - Fechei a porta da geladeira com fora. - Eu j disse para no fazer isso.
     Meu pai - ou o fantasma do meu pai, devo dizer - estava encostado na bancada da cozinha, com os braos cruzados no peito. Parecia presunoso. Ele sempre parece 
presunoso quando consegue se materializar pelas minhas costas e me matar de susto.
     - Ento - disse ele, to casualmente como se estivssemos falando de sanduches numa lanchonete. - Como vo as coisas, moa?
     Olhei-o irritada. Meu pai continuava exatamente como quando fazia suas visitas-surpresa ao nosso apartamento no Brooklyn. Estava usando a roupa com a qual tinha 
morrido, cala de moletom cinza e uma camisa azul onde estava escrito Homeport, Menemsha, Frutos do Mar Frescos o Ano Inteiro.
     - Papai. Onde voc esteve? E o que est fazendo aqui?
     No deveria estar assombrando os novos inquilinos do nosso apartamento no Brooklyn?
     - Eles so uns chatos. Dois yuppies. Queijo de cabra e cabernet sauvignon,  s disso que falam. Pensei em ver como voc e sua me estavam se virando. - Ele
estava espiando pelo passa-pratos que Andy havia instalado ao atualizar a cozinha estilo 1850 quando tinha comprado a casa junto com mame.
     -  ele? - perguntou meu pai. - O cara com o... o que  aquilo, afinal?
     -  uma quesadilla. E sim,  ele. - Agarrei o brao do meu pai e o arrastei at a ilha de instrumentos no centro, de modo que no conseguisse v-los mais. Tinha 
de falar sussurrando para garantir que ningum entreouvisse. -  por isso que voc est aqui? Para espionar mame e o novo marido dela?
     - No - disse meu pai, parecendo indignado. - Eu tenho um recado para voc. Mas admito que queria dar uma passada e verificar como so as coisas, garantir que 
ele  suficientemente bom para ela. Esse tal de Andy.
     Olhei-o zangada.
     - Papai, acho que a gente j falou isso. Voc deveria ir em frente, lembra?
     Ele balanou a cabea, tentando fazer sua cara de cachorrinho triste, achando que isso poderia me fazer recuar.
     - Eu tentei, Suze - falou pesaroso. - Tentei mesmo. Mas no posso.
     Encarei-o ctica. Ser que j mencionei que, na vida, meu pai tinha sido advogado criminologista, como sua me? Ele era um ator quase to bom quanto Lassie. 
Podia fazer cara de cachorrinho triste como ningum.
     - Por que, papai? O que est segurando voc? Mame est feliz. Juro que est. Isto basta para dar vontade de vomitar, mas est feliz demais. E eu estou indo 
bem, verdade.
     - Ento o que est segurando voc aqui?
     Ele deu um suspiro triste.
     - Voc diz que est bem, Suze. Mas no est feliz.
     - Ah, pelo amor de Deus. No vem com essa de novo.
     - Sabe o que me deixaria feliz, papai? Voc ir em frente. Isso me faria feliz. Voc no pode passar sua ps-vida me seguindo e se preocupando comigo.
     - Por qu?
     Porque - sibilei com os dentes trincados - voc vai me deixar maluca.
     Ele piscou tristonho.
     - Voc no me ama mais,  isso, moa? Certo. Captei a dica. Talvez eu v assombrar vov um tempo. Ela no  to divertida porque no pode me ver, mas talvez 
se eu chacoalhar algumas portas...
     - Papai! - Olhei por cima do ombro para garantir que ningum estivesse ouvindo. - Olha. Qual  o recado?
     - Recado? - Ele piscou, depois disse: - Ah, . O recado. - De repente ele ficou srio. - Eu soube que voc tentou contatar um homem hoje.
     Olhei-o de soslaio, cheia de suspeitas.
     - Red Beaumont. , tentei. E da?
     - Esse no  um cara com quem voc queira mexer, Suze.
     - H-h. E por qu?
     - No posso dizer por qu. S tenha cuidado.
     Encarei-o. Puxa, realmente. At que ponto uma pessoa pode ser irritante?
     - Obrigada pelo aviso enigmtico, papai. Isso realmente ajuda.
     - Desculpe, Suze. De verdade. Mas voc sabe como essas coisas so. Eu no tenho a histria toda, s... sensaes. E minha sensao com relao a esse Beaumont 
 que voc deveria ficar longe. Muito longe.
     - Bem, no posso fazer isso. Sinto muito. 
     - Suze, este no  um caso que voc deva enfrentar sozinha.
     - Mas eu no estou sozinha, papai. Eu tenho... Hesitei. Quase tinha dito Jesse.
     Voc pode pensar que meu pai j soubesse dele. Quero dizer, se ele sabia sobre Red Beaumont, por que no saberia sobre Jesse?
     Mas aparentemente no sabia. Sobre Jesse, quero dizer. Porque se soubesse, pode apostar que eu ficaria sabendo. Quero dizer, qual , um cara que no sai do 
meu quarto? Os pais odeiam isso.
     Ento falei:
     - Olha, eu tenho o padre Dominic.
     - No. Ele tambm no  bom o bastante.
     Encarei-o, irritada.
     - Ei. O que voc sabe sobre o padre Dom? Papai, voc andou me espionando?
     Meu pai ficou sem jeito.
     - A palavra espionar tem conotaes muito negativas.
     - Eu s estava dando uma conferida em voc, s isso. Voc pode culpar um homem por querer ver como sua filhinha est?
     - Ver como eu estou? Papai, at que ponto voc anda vendo como eu estou?
     - Bem, vou lhe dizer uma coisa. Eu no estou empolgado com esse tal de Jesse.
     - Papai!
     - Bem, o que voc quer que eu diga? - Meu pai abriu os braos num gesto do tipo "ento me processe". - O sujeito est praticamente morando com voc. No  certo.
Quero dizer, voc  uma garota muito nova.
     - Ele  falecido, papai, lembra? Minha virtude no corre perigo.
     Infelizmente.
     - Mas como voc vai trocar de roupa com um rapaz no quarto? - Meu pai, como sempre, tinha ido direto ao ponto. - No gosto disso. E vou trocar uma ou duas palavrinhas 
com ele. Enquanto isso voc vai ficar longe desse tal de Sr. Red. Entendeu?
     Balancei a cabea.
     - Papai, voc no entende. Jesse e eu pensamos em tudo.
     - Eu no...
     - Eu falei srio, Suzannah.
     Quando meu pai me chamava de Suzannah, estava pegando pesado. Revirei os olhos.
     - Certo, pai. Mas quanto ao Jesse... Por favor, no diga nada a ele. Ele passou muito aperto, sabe? Quero dizer, ele praticamente morreu antes de realmente 
ter chance de viver.
     - Ei - disse meu pai, dando um dos seus grandes sorrisos inocentes. - Eu j deixei voc na mo algum dia, querida?
     J, eu quis dizer. Muitas vezes. Onde ele estava, por exemplo, no ms passado quando eu fiquei to nervosa por estar me mudando para outro estado, comeando 
numa escola nova, vivendo com um monte de gente que eu mal conhecia? Onde ele estava na semana passada, quando um dos seus colegas tentou me matar? E onde estava 
na noite de sbado quando eu esbarrei naquele sumagre venenoso?
     Mas no falei o que queria. Em vez disso falei o que achei que devia.  isso que a gente faz com membros da famlia.
     - No, papai. Voc nunca me deixou na mo.
     Ele me deu um grande abrao e desapareceu to abruptamente quanto havia surgido. Eu estava calmamente colocando cereal numa tigela quando mame entrou na cozinha 
e acendeu a luz.
     - Querida? - disse ela parecendo preocupada. - Voc est bem?
     - Claro, mame. - Enfiei um pouco de cereal na boca. -
     - Por qu?
     - Eu achei... - Mame estava me espiando curiosamente. - Querida, eu pensei ter ouvido voc dizer... hmm... Bem, eu pensei ter ouvido voc falando com... voc 
disse a palavra pai?
     Mastiguei. Eu estava totalmente acostumada a esse tipo de coisa.
     - Eu falei "ai". Fui provar o leite e tomei um susto, acho que ele est azedo.
     Minha me pareceu imensamente aliviada. O negcio  que ela me pegou falando com papai mais vezes do que eu consigo contar. Ela provavelmente me acha um caso 
de hospcio. L em Nova York ela costumava me mandar ao seu terapeuta, que lhe disse que eu no era um caso de hospcio, s uma adolescente. Cara, eu dei trabalho 
ao velho doutor Mendelsohn, vou te contar.
     Mas tinha de sentir pena de mame, de certa forma. Quero dizer, ela  uma figura legal e no merece ter uma filha mediadora. Eu sei que sempre fui meio um desapontamento 
para ela. Quando fiz quatorze anos ela me deu minha prpria linha telefnica, achando que tantos garotos iriam ligar para mim que seus amigos nunca poderiam fazer 
contato. D para imaginar como ficou frustrada quando ningum, a no ser minha melhor amiga Gina, ligava para a linha particular, e geralmente s para me contar 
sobre os encontros que ela vinha tendo. Os garotos do meu antigo bairro nunca se interessavam muito em me convidar para sair.
     - Bem - disse mame, animada. - Se o leite est azedo, acho que voc no tem opo alm de experimentar uma quesadilla de Andy.
     - Fantstico - gemi. - Mame, voc sabe que aqui  maio o ano inteiro. A gente no pode virar uma porca no inverno como fazia l em casa.
     Minha me suspirou, meio triste.
     - Voc realmente odeia tanto isso aqui, querida?
     Olhei-a como se ela fosse maluca, para variar.
     - O que voc quer dizer? Por que acha que eu odeio isso aqui?
     - Voc. Voc acabou de falar do Brooklyn como "l em casa".
     - Bem - falei, sem graa. - Isso no significa que eu odeie este lugar. S no me sinto em casa ainda.
     - De que voc precisa para se sentir? - Minha me empurrou meu cabelo para longe dos olhos. - O que eu posso fazer para que voc se sinta em casa?
     Meu Deus, mame - falei, saindo de baixo dos dedos dela. - Nada, tudo bem. Eu vou me acostumar. S me d uma chance.
     Mas mame no estava engolindo.
     - Voc sente falta de Gina, no ? Voc no fez nenhum amigo realmente ntimo aqui, eu notei. Pelo menos no como Gina. Voc gostaria, se ela viesse fazer uma 
visita?
     Eu no podia imaginar Gina, com suas calas de couro, piercing na lngua e trancinhas de aplique em Carmel, Califrnia, onde usar conjunto de bermuda caqui 
e suter  praticamente uma lei obrigatria.
     - Acho que seria legal - falei.
     Mas no parecia muito provvel. Os pais de Gina no tm muito dinheiro, de modo que no teriam como mand-la para a Califrnia assim, de uma hora para a outra. 
Mas eu gostaria de ver Gina diante de Kelly Prescott. Tinha certeza de que os apliques de cabelo iriam voar.
     Mais tarde, depois do jantar, do kickboxing e do dever de casa, com uma quesadilla coagulando no estmago, decidi, apesar dos avisos de meu pai, abordar o problema 
do Red uma ltima vez antes de ir dormir. Eu tinha conseguido o telefone da casa de Tad Beaumont - que no constava da lista, claro - do modo mais desonesto possvel: 
no celular de Kelly Prescott, que eu tinha pedido emprestado durante a reunio do diretrio fingindo que ia ligar para saber sobre os consertos na esttua do padre 
Serra. O celular de Kelly tinha agenda e eu peguei o nmero de Tad antes de devolver a ela.
     Ei,  um servio sujo, mas algum tem de faz-lo.
     Eu tinha esquecido de levar em conta, claro, o fato de que Tad, e no seu pai, poderia atender. O que aconteceu depois do segundo toque.
     - Al? - disse ele.
     Reconheci a voz instantaneamente. Era a mesma voz macia que tinha acariciado meu rosto na festa da piscina.
     Certo, vou admitir. Entrei em pnico. Fiz o que qualquer garota americana com sangue nas veias faria na mesma situao.
     Desliguei.
     Claro, no pensei que ele tinha um identificador de chamadas. Assim, quando o telefone tocou alguns segundos depois, presumi que era Cee Cee, que tinha prometido 
ligar com as respostas do nosso dever de geometria - eu tinha ficado meio atrasada, com todo o negcio de mediao que vinha fazendo... no que essa fosse a desculpa 
que dei a Cee Cee, claro - por isso atendi.
     - Al? - disse aquela mesma voz macia em meu ouvido.
     - Voc ligou para mim agorinha mesmo?
     Um monte de palavres me passou em alta velocidade pela cabea. Em voz alta, entretanto, s disse:
     Ah. Talvez. Mas por engano. Desculpe.
     - Espera. - No sei como ele sabia que eu estava para desligar. - Sua voz parece familiar. Eu conheo voc? Meu nome  Tad. Tad Beaumont.
     - No - falei. - No fao idia. Tenho de ir, desculpe.
     Desliguei e falei mais um monte de palavres, dessa vez em voz alta. Por que no pedi para falar com o pai dele? Por que eu fui uma idiota to grande? O padre 
Dom estava certo. Eu era um fracasso como mediadora. Um fracasso enorme. Era capaz de exorcizar espritos malignos sem problema. Mas quando se tratava de lidar com 
os vivos, era o pior malogro do mundo.
     Esse fato penetrou ainda mais fundo na minha cabea quando, umas quatro horas depois, fui acordada de novo por um grito de gelar o sangue.1
     
Captulo 5



      Sentei-me totalmente desperta. Ela estava de volta. Ainda mais alterada do que na noite anterior. Eu tive de esperar um tempo enorme antes que a mulher se
acalmasse o bastante para falar comigo.
     Por qu? - perguntou ela, quando parou de gritar. - Por que voc no disse a ele?
     Olha - falei, tentando usar uma voz tranqilizadora, como o padre Dom quereria que eu fizesse. - Eu tentei, certo? O cara no  a pessoa mais fcil de achar.
Vou contat-lo amanh, prometo.
     Ela tinha meio que tombado de joelhos.
     - Ele se culpa. Ele se culpa pela minha morte. Mas no foi culpa dele. Voc tem de dizer. Por favor.
     Sua voz embargou horrivelmente no por favor. A mulher estava um trapo. Quero dizer, eu j vi um bocado de fantasmas na pior, mas essa ganhava o prmio, vou 
te contar. Juro, era como Meryl Streep fazendo aquela tremenda cena de choro de A escolha de Sofia ao vivo no tapete do seu quarto.
     - Olha, dona - falei. Em voz tranqilizadora, lembrei a mim mesma. Tranqilizadora.
     Mas no h nada realmente tranqilizador em chamar algum de dona. Assim, lembrando-me de como Jesse tinha ficado meio furioso comigo por no ter perguntado 
o nome dela, falei:
     Ei. Por sinal, qual  o seu nome?
     Fungando, ela s dizia:
     Por favor. Voc tem de contar a ele.
     Eu disse que vou contar. - Minha nossa, o que ela achava que eu estava fazendo aqui. Algum tipo de servio amador? - Me d uma chance, certo? Essas coisas so 
meio delicadas, a senhora sabe. Eu no posso ir simplesmente abrindo a boca e falando. A senhora quer isso?
     Ah, meu Deus, no - disse ela, levando a mo fecha da  boca e mordendo-a. - No, por favor...
     - Ento certo. Esfrie um pouco. Agora diga...
     Mas ela j tinha ido embora.
     Uma frao de segundo depois Jesse apareceu. Estava aplaudindo baixinho como se estivesse assistindo a um teleteatro.
     - Esse foi o seu melhor desempenho at hoje - disse ele, baixando as mos. -Voc parecia envolvida, ainda que enojada.
     Olhei-o furiosa.
     - Voc no tem umas correntes para chacoalhar por a? - perguntei mal-humorada.
     Ele veio at minha cama e se sentou. Eu tive de puxar os ps rapidamente para no serem esmagados.
     - E voc no tem algo que queira me contar?
     Balancei a cabea.
     - No. So duas da manh, Jesse. A nica coisa que eu tenho na cabea agora  dormir. Voc se lembra do que  dormir, no ?
     Jesse me ignorou. Ele faz isso um bocado.
     - Eu tambm recebi uma visita h pouco tempo. Acho que voc conhece. Um certo Sr. Peter Simon.
     - Ah.
     E ento - no sei por que - ca deitada de novo e puxei um travesseiro sobre a cabea.
     - No quero saber disso - falei, com a voz abafada debaixo do travesseiro.
     A prxima coisa que vi foi que o travesseiro tinha voado das minhas mos - mesmo que eu o estivesse segurando com fora - e cado com violncia no cho. Com 
o mximo de violncia que um travesseiro pode cair, o que no  muito.
     Fiquei ali, piscando no escuro. Jesse no tinha se mexido um centmetro. Esse  o negcio com os fantasmas, veja s. Eles so capazes de mover coisas - praticamente 
qualquer coisa que queiram - sem levantar um dedo. Fazem isso com a mente.  bem assustador.
     - O que ? - perguntei irritada, com a voz mais esganiada do que nunca.
     Quero saber por que voc disse ao seu pai que h um homem morando no seu quarto.
     Jesse parecia furioso. Para um fantasma, at que ele tem um temperamento bem tranqilo, de modo que quando fica furioso  bem bvio. Para comear, a cicatriz 
na sobrancelha fica branca.
     As coisas no estavam se sacudindo naquela hora, mas a cicatriz praticamente luzia no escuro.
     - Ahn - falei. - Na verdade, Jesse, h um cara morando no meu quarto, lembra?
     - , mas... - Jesse se levantou da cama e comeou a andar de um lado para o outro. Mas eu no estou realmente morando aqui.
     - Bem. S porque, tecnicamente, Jesse, voc est morto.
     - Eu sei disso. - Jesse passou a mo pelo cabelo, de um jeito meio frustrado. Eu j contei que Jesse tem um cabelo bem legal?  preto, curto e parece meio eriado, 
se  que voc me entende. - O que eu no compreendo  por que voc falou com ele sobre mim. Eu no sabia que incomodava tanto a voc eu estar aqui.
     A verdade  que no. No incomoda, quero dizer. Incomodava, mas antes de Jesse salvar minha vida umas duas vezes. Depois disso eu meio que superei.
     S que me incomoda quando ele pega meus CDs emprestados e no coloca de novo na ordem certa quando acabou de ouvir.
     - No - falei.
     - No o qu?
     - No me incomoda voc morar aqui. - Eu me encolhi.
     M escolha de palavras. - Bem, no que voc more aqui, j que... quero dizer, no me incomoda que voc fique aqui.
     - S que...
     - S que o qu?
     Falei rapidamente antes de perder a coragem:
     - S que eu no consigo deixar de ficar pensando em por qu.
     - Por que o qu?
     - Por que voc est aqui h tanto tempo.
     Ele s me olhou. Jesse nunca me contou nada sobre sua morte. Na verdade nunca me contou nada sobre sua vida antes da morte. Jesse no  o que voc pode chamar 
de comunicativo, mesmo para um cara. Quero dizer, se voc levar em considerao que ele nasceu cento e cinqenta anos antes do programa da Oprah e no sabe chongas 
sobre as vantagens de compartilhar os sentimentos - que  bom no manter as coisas trancadas por dentro -, isso meio que faz sentido.
     Por outro lado, eu no podia deixar de suspeitar de que Jesse estava perfeitamente em contato com suas emoes, e que simplesmente no tinha vontade de me falar 
delas. O pouco que eu havia descoberto sobre ele - como seu nome completo, por exemplo - fora a partir de um velho livro que Mestre conseguiu, sobre a histria do 
norte da Califrnia. Eu nunca tive coragem realmente de perguntar a Jesse isso. Sabe, sobre a histria de que ele deveria se casar com a prima, que por acaso amava 
outro, e de como Jesse desapareceu misteriosamente a caminho da cerimnia... No  o tipo de assunto que a gente possa puxar.
     - Claro - falei, depois de um curto silncio, durante o qual ficou claro que Jesse no ia me dizer chongas -, se voc no quiser conversar sobre isso, tudo 
bem. Eu esperava que a gente pudesse ter, voc sabe, um relacionamento aberto e honesto, mas se  pedir demais...
     - E quanto a voc, Suzannah? - disparou ele de volta. - Voc tem sido aberta e honesta comigo? Acho que no.
     - Caso contrrio, por que seu pai viria atrs de mim daquele jeito?
     Chocada, sentei-me um pouco mais ereta.
     - Meu pai foi atrs de voc?
     - Nombre de Dios, Suzannah - disse Jesse irritado. - O que voc esperava que ele fizesse? Que tipo de pai ele seria se no tentasse se livrar de mim?
     - Ah, meu Deus - falei completamente sem graa. - Jesse, eu nunca disse uma palavra sobre voc com ele. Juro. Foi ele quem puxou o assunto. Acho que ele anda 
me espionando, ou sei l o qu. - Essa era uma coisa humilhante de admitir. - Ento... o que voc fez? Quando ele foi atrs de voc?
     Jesse deu de ombros.
     - O que eu poderia fazer? Tentei me explicar do melhor modo possvel. Afinal de contas, minhas intenes so as melhores possveis.
     Droga! Mas espera um minuto.
     - Voc tem intenes?
     Sei que  pattico, mas neste ponto da vida, at mesmo ouvir dizer que o fantasma de um cara pode ter intenes - ainda que sejam as melhores possveis - era 
meio legal. Bem, o que voc esperava? Eu tenho dezesseis anos e nunca ningum me convidou para sair. D um tempo, certo?
     Alm disso, Jesse era gato demais, para um morto.
     Mas infelizmente suas intenes para comigo pareciam ser apenas platnicas, se o fato de que ele pegou o travesseiro que tinha jogado no cho - dessa vez com 
as mos - e atirou na minha cara servisse de indicao.
     Isso no parecia o tipo de coisa que um cara loucamente apaixonado por mim faria.
     Ento o que meu pai disse? - perguntei quando tinha afastado o travesseiro. - Quero dizer, depois de voc garantir que suas intenes eram as melhores possveis?
     Ah - disse Jesse, sentando-se de novo na cama. - Depois de um tempo ele se acalmou. Eu gosto dele, Suzannah.
     Funguei.
     Todo mundo gosta. Ou gostava, quando ele era vivo.
     Ele se preocupa com voc, voc sabe.
     Ele tem coisas muito maiores com que se preocupar - murmurei.
     Jesse piscou, curioso.
     Como o qu?
     Ah, no sei. Que tal o motivo para ele estar aqui em vez de no lugar aonde as pessoas devem ir depois de mortas? Essa pode ser uma sugesto, no acha?
     Jesse falou em voz baixa:
     - Como voc tem certeza de que no  aqui que ele deve estar, Suzannah? Ou eu, por sinal?
     Encarei-o.
     Porque a coisa no funciona assim, Jesse. Talvez eu no saiba muito sobre esse negcio de mediao, mas disso eu sei. Esta  a terra dos vivos. Voc, meu pai 
e aquela dona que esteve aqui h um minuto no pertencem a este lugar.
     O motivo para estarem presos aqui  porque h alguma coisa errada.
     Ah. Sei.
     Mas ele no sabia. Eu sabia que ele no sabia.
     Voc no pode dizer que est feliz aqui - falei. - Voc no pode dizer que gosta de estar preso neste quarto por cento e cinqenta anos.
     No foi muito ruim - disse ele com um sorriso. - As coisas melhoraram recentemente.
     Eu no tinha certeza do que ele queria dizer com isso. E como tinha medo de minha voz ficar esganiada de novo se perguntasse, preferi dizer:
     Bem, sinto muito o meu pai ter ido atrs de voc. Juro que eu no contei a ele.
     Tudo bem, Suzannah - disse Jesse baixinho. - Eu gosto do seu pai. E ele s faz isso porque se preocupa com voc.
     Voc acha? - Puxei a colcha. - Eu tenho minhas dvidas. Acho que ele faz isso porque sabe que me chateia.
     Jesse, que estivera me olhando puxar a colcha de chenile, subitamente estendeu a mo e segurou meus dedos.
     Ele no deveria fazer isso. Bem, pelo menos eu vinha tentando lhe dizer que ele no deveria fazer isso. Talvez tenha me escapado da mente. Mas, de qualquer 
modo, ele no deveria fazer isso. Quero dizer, me tocar.
     Veja bem, apesar de Jesse ser um fantasma e ser capaz de atravessar paredes e desaparecer e reaparecer  vontade, ele ainda est... bem, ali. Pelo menos para 
mim.  isso que me torna - e ao padre Dom - diferente de todo mundo. Ns no somente podemos ver os fantasmas e falar com eles, tambm podemos senti-los - como se 
eles fossem qualquer pessoa. Qualquer pessoa viva, quero dizer. Porque para mim e para o padre Dom os fantasmas so como qualquer pessoa, com sangue, entranhas, 
suor, mau hlito e sei l o qu mais. A nica diferena real  que eles meio que tm um brilho em volta - uma aura, acho que  como se chama.
     Ah, e eu j falei que um monte deles tem fora sobre-humana? Em geral eu esqueo de dizer isso.  por isso que, na minha linha de trabalho, freqentemente eu 
levo umas porradas feias. E tambm  por isso que fico meio pirada quando um deles - como Jesse estava fazendo naquela hora - me toca, ainda que de modo no agressivo.
     E quero dizer, srio, s porque, para mim, os fantasmas so to reais quanto, digamos, Tad Beaumont, isso no significa que eu queira danar agarradinha com 
eles nem nada.
     Bem, certo, no caso de Jesse, eu ia querer, s que voc no acha que seria bem estranho danar agarradinha com um fantasma? Qual ! Ningum alm de mim iria 
poder v-lo. Eu iria falar: "Ah, deixe-me apresentar meu namorado", e no haveria ningum ali. Que mico! Todo mundo ia achar que eu estava inventando o cara, que 
nem aquela dona naquele filme que eu vi no canal Lifetime, que inventou um filho extra.
     Alm disso, eu tenho quase certeza de que Jesse no gosta de mim desse modo. Sabe, do modo de danar agarradinho.
     O que infelizmente ele provou virando minhas mos e segurando-as ao luar.
     - O que h de errado com os seus dedos?
     Olhei para eles. A erupo estava pior do que nunca. Ao luar eu parecia deformada, como se tivesse mos de monstro.
     Sumagre venenoso - falei amarga. - Voc tem sorte de estar morto e no poder encostar nisto. Queima. Ningum me falou disso, voc sabe. Sobre o sumagre venenoso. 
Sobre palmeiras, claro, todo mundo disse que havia palmeiras, mas...
     Voc deveria tentar pr um ungento de folhas de grindlia - interrompeu ele.
     Ah, certo - falei conseguindo no parecer sarcstica demais.
     Ele franziu a testa para mim.
      uma planta com flores amarelas pequenas. Cresce no campo, Tem propriedades curativas, voc sabe. H algumas naquele morro atrs da casa.
     Ah. Quer dizer aquele morro onde ficam todos os ps de sumagre venenoso?
     Dizem que plvora tambm funciona.
     Ah. Sabe, Jesse, talvez voc fique surpreso em saber que a medicina avanou alm dos ungentos de plantas e plvora no ltimo sculo e meio.
     timo - disse ele, largando minhas mos. - Foi s uma sugesto.
     Bem. Obrigada. Mas vou colocar a f na hidrocortisona.
     Ele me olhou durante um tempo. Acho que provavelmente estava pensando em como eu sou esquisita. Eu estava pensando em como era estranho o fato de que aquele 
cara tinha segurado minhas mos escamosas, sumagrentas-venenosas. Ningum mais aceitaria toc-las, nem minha me. Mas Jesse no se incomodou.
     Mas afinal de contas, ele no iria pegar a doena.
     Suzannah - disse ele finalmente.
     O qu?
     V com cuidado com essa mulher. A mulher que esteve aqui.
     Dei de ombros.
     Certo.
     Estou falando srio. Ela no ... ela no  quem voc acha.
     Eu sei quem ela .
     Ele ficou surpreso. To surpreso que foi meio insultuoso.
     Voc sabe? Ela contou?
     Bem, no exatamente. Mas voc no precisa se preocupar. Eu estou com as coisas sob controle.
     No. - Ele se levantou da cama. - No est, Suzannah.
     Voc deve ter cuidado. Desta vez deve ouvir o seu pai.
     Ah, certo - falei muito sarcstica. - Obrigada. Voc acha que poderia ser mais assustador com isso? Tipo ser que voc podia babar sangue ou alguma coisa assim?
     Acho que talvez eu tenha sido um pouco sarcstica demais, porque em vez de responder ele simplesmente desapareceu.
     Fantasmas. No agentam uma brincadeira.
     
Captulo 6



     Voc quer que eu o que! - S me deixe l. Na ida para o trabalho. No fica longe do seu caminho.
     Soneca me olhou como se eu tivesse sugerido que ele comesse vidro ou sei l o qu.
     No sei - disse ele devagar, parado na porta, com as chaves do Rambler na mo. - Como voc vai voltar para casa?
     Um amigo vai me pegar - falei toda animada.
     Era a maior mentira, claro. Eu no tinha como voltar para casa. Mas num instante pensei que poderia chamar Adam. Ele tinha acabado de conseguir a carteira de 
motorista, alm de um Novo Fusca. Estava to doido para dirigir que me pegaria em Albuquerque, se eu ligasse para ele de l. No acho que se importaria muito se 
eu ligasse para ele da manso de Thaddeus Beaumont na Seventeen Mile Drive.
     Soneca ainda estava em dvida.
     - No sei... - disse lentamente.
     Dava para ver que ele pensava que eu estava indo para uma reunio de gangue, ou alguma coisa assim. Soneca nunca pareceu muito empolgado comigo, especialmente 
depois do casamento dos nossos pais, quando ele me pegou fumando do lado de fora do salo de recepo. O que  totalmente injusto, j que desde ento eu nunca toquei 
num cigarro.
     Mas acho que o fato de ele ter sido recentemente obrigado a me resgatar no meio da noite quando um fantasma fez um prdio desmoronar em cima de mim no ajudou 
exatamente a formar algum lao de confiana calorosa entre ns. Especialmente porque eu no podia contar a ele a parte sobre o fantasma. Acho que ele pensa que eu 
sou o tipo de garota em cima de quem os prdios caem o tempo todo.
     No  de espantar que no me queira no seu carro.
     - Qual  - falei, abrindo meu casaco comprido, cor de camelo. - Que tipo de encrenca eu posso arranjar com esta roupa?
     Soneca me olhou de cima a baixo. At ele tinha de admitir que eu era o exemplo mximo da inocncia com o suter de tric branco, saia pregueada vermelha e sapatos 
baratos. At coloquei um cordo com uma cruz de ouro, que ganhei num concurso de redaes sobre a Guerra de 1812 na aula do Sr. Walden. Achei que era o tipo de roupa 
que um cara velho como o Sr. Beaumont apreciaria: voc sabe, esse negcio de colegial atrevida.
     Alm disso - falei -,  para a escola.
     Certo - disse Soneca enfim, parecendo que realmente queria estar em outro lugar. - Entre no carro.
     Fui direto para o Rambler antes que ele tivesse chance de mudar de idia.
     Soneca entrou um minuto depois, sonolento como sempre. Seu trabalho numa pizzaria parecia exigente demais. Ou isso ou ele fazia um monte de hora extra. Dava 
para pensar que ele j teria economizado o bastante para aquele Camaro. Falei isso enquanto a gente ia deixando a entrada de veculos.
     -  - disse Soneca. - Mas eu quero botar ela nos trinques, sabe? Som Alpine, caixas Bose. A coisa toda.
     Eu tenho um negcio com relao aos caras que chamam seus carros de "ela", mas no achei que valeria a pena pegar no p de quem me dava carona. Em vez disso, 
falei:
     - Uau. Maneiro.
     Ns moramos nas colinas de Carmel, virados para o vale e a baa.  um lugar lindo, mas como estava escuro, eu s podia ver o interior das casas pelas quais 
amos passando. As pessoas na Califrnia tm umas janelas bem grandes para deixar o sol entrar e,  noite, quando as luzes esto acesas, voc pode ver praticamente
tudo que elas esto fazendo, como no Brooklyn, onde ningum fechava as cortinas.  meio familiar, na verdade.
     - Para que aula  isso? - perguntou Soneca, me fazendo dar um pulo. Ele falava to raramente, em especial quando estava fazendo alguma coisa de que gostava, 
como comer ou dirigir, que eu meio esqueci que ele estava ali.
     O qu?
     O trabalho que voc est fazendo. - Ele afastou os olhos da estrada por um segundo e me espiou. - Voc disse que era para a escola, no disse?
     Ah. Claro. . ... hmm... uma matria que eu estou fazendo para o jornal da escola. Minha amiga Cee Cee  a editora. Ela me designou para fazer.
     Ah, meu Deus, eu sou to mentirosa! E no posso parar numa mentira s. Ah, no. Tenho de ir empilhando. Sou doente, vou te contar. Doente.
     - Cee Cee - disse Soneca. -  aquela mina com quem voc fica no almoo, a albina, certo?
     Cee Cee teria uma embolia se ouvisse algum chamando-a de "mina", mas como tecnicamente o resto da frase estava correto, falei:
     - .
     Soneca grunhiu e no disse mais nada durante um tempo. Seguimos em silncio, com as grandes casas com janelas cheias de luzes passando pela Seventeen Mile Drive, 
no trecho que deveria ser tipo a estrada mais linda do mundo, algo assim. O famoso campo de golfe de Pebble Beach fica na Seventeen Mile Drive, junto com uns cinco 
outros clubes de golfe e um punhado de locais tursticos, como o Cipreste Solitrio, que  um tipo de rvore crescendo numa pedra, e a Pedra da Foca, onde h - voc 
adivinhou - um monte de focas.
     A Seventeen Mile Drive tambm  onde voc pode verificar as correntes do que chamam de Mar Inquieto, j que o oceano ao longo dessa parte da costa  cheio demais 
de ondas cruzadas e correntes submarinas para algum poder nadar.  todo feito de ondas gigantescas se chocando e minsculos trechos de areia entre grandes pedras 
em que as gaivotas vivem largando mexilhes e outras coisas, esperando rachar as conchas. Algumas vezes surfistas tambm so rachados ao meio ali, se forem estpidos 
a ponto de pensar que agentam as ondas.
     E, se voc quiser, pode comprar uma manso realmente grande num penhasco dando para toda essa beleza natural, por meros, ah, um zilho de dlares, mais ou menos.
     O que aparentemente era o que Thaddeus "Red" Beaumont tinha feito. Ele havia conseguido uma daquelas manses. Realmente grande, vi quando Soneca finalmente 
parou na frente dela. To grande, na verdade, que tinha uma pequena guarita junto ao enorme porto de lanas diante de um caminho comprido, comprido, com um guarda 
dentro assistindo  TV.
     Olhando o porto, Soneca falou:
     - Tem certeza de que  aqui?
     Engoli em seco. Pelo que Cee Cee tinha dito, eu sabia que o Sr. Beaumont era rico. Mas no achava que fosse to rico.
     E pense s, o filho dele me chamou para danar agarradinho!
     Hmm - falei. - Talvez eu devesse s ver se ele est em casa, antes de voc sair.
     , acho que sim.
     Sa do carro e fui at a pequena guarita. No me importo em dizer que me sentia uma idiota. O dia inteiro estivera tentando falar com o Sr. Beaumont, e sempre 
diziam que ele estava numa reunio ou atendendo a outro telefonema. Por algum motivo eu tinha achado que um toque pessoal poderia funcionar. No sei o que estava 
pensando, mas acho que isso envolvia tocar a campainha e depois olhar simptica a cara dele quando ele fosse atender  porta.
     Isso dava para ver agora, no ia acontecer.
     - Hmm, com licena - falei no pequeno microfone na guarita.  prova de bala, notei. Ou o pai de Tad tinha gente que no gostava dele ou era simplesmente um 
pouco paranico.
     O guarda ergueu os olhos da TV. Deu uma sacada em mim. Eu o vi dar uma sacada em mim. Eu tinha mantido o casaco aberto para garantir que ele visse a saia pregueada 
e os sapatos. Depois ele olhou para alm de mim, para o Rambler. Isso no era bom. Eu no queria ser julgada por meu irmo adotivo e seu carro cado.
     Bati de novo no vidro para atrair a ateno do guarda.
     - Ol - falei ao microfone. - Meu nome  Suzannah
     Simon, e eu estamos no segundo ano na Academia da Misso. Estou fazendo uma matria para o jornal da escola sobre as dez pessoas mais influentes de Carmel e 
gostaria de entrevistar o Sr. Beaumont, mas infelizmente ele no respondeu aos meus telefonemas, e a matria tem de ser entregue amanh, por isso imaginei se ele 
estaria em casa e se me receberia.
     O guarda me olhou com expresso perplexa.
     - Eu sou amiga de Tad, Tad Beaumont, o filho do Sr. Beaumont. Ele me conhece, de modo que, se o senhor quiser... sabe... que ele me veja pela cmera de segurana 
ou algo parecido, tenho certeza de que ele poderia, sabe, verificar minha identidade. Quero dizer, se minha identidade precisar ser verificada.
     O guarda continuou me encarando. Era de pensar que um sujeito rico como o Sr. Beaumont poderia pagar guardas mais inteligentes.
     - Mas se for uma hora ruim - falei, comeando a recuar -, acho que posso voltar depois.
     Ento o guarda fez uma coisa extraordinria. Inclinou-se para frente, apertou um boto e disse, pelo alto-falante:
     - Querida, voc fala mais depressa do que qualquer pessoa que j ouvi na vida. Poderia repetir tudo isso? Devagar, dessa vez?
     Falei de novo meu pequeno discurso, mais devagar dessa vez, enquanto atrs de mim Soneca estava sentado ao volante com o motor ligado. Pude ouvir o rdio berrando 
dentro do carro, e Soneca cantando junto. Ele devia achar que o carro era  prova de som com as janelas levantadas.
     Cara, ele estava muito errado!
     Depois de eu fazer o discurso pela segunda vez, o guarda, com uma espcie de sorriso no rosto, falou:
     - Espere a, moa - em seguida pegou um telefone branco e comeou a dizer coisas que eu no pude ouvir. Fiquei ali parada, querendo estar usando uma malha, 
em vez de meia cala, porque minhas pernas estavam congelando no vento frio que vinha do oceano, e imaginando como podia ter pensado que essa era uma boa idia. 
Ento o microfone estalou.
     - Certo, moa - disse o guarda. - O Sr. Beaumont vai receber voc.
     E ento, para minha perplexidade, o grande porto duplo, cheio de lanas, comeou a se abrir.
     - Ah - falei. - Ah, meu Deus! Obrigada! Obrigada...
     Ento notei que o guarda no podia me ouvir, porque eu no estava falando ao microfone. Por isso voltei correndo ao carro e abri a porta.
     Soneca, no meio de uma sesso concentradssima tocando air guitar, parou e ficou sem graa.
     - E? - perguntou ele.
     E - falei batendo a porta do carona depois de entrar. - Estamos dentro. S me deixe na casa, certo?
     Claro, Cinderela.
     Demoramos cinco minutos para ir at o fim da entrada de veculos. Eu nem estou brincando. Era longe. De cada lado havia umas rvores enormes formando uma espcie 
de alameda. Uma alameda de rvores. Era bem legal. Fiquei pensando que durante o dia provavelmente era linda. Haveria alguma coisa que Tad Beaumont no tinha? Beleza, 
dinheiro, um lugar lindo para morar...
     S precisava de euzinha toda bonitinha.
     Soneca parou o carro na frente de uma entrada pavimentada, com palmeiras enormes de cada lado, meio tipo o hotel Polynesian na Disney World. De fato, todo o 
lugar tinha um jeito meio Disney. Sabe, realmente grande e tipo moderno e falso. Havia um monte de luzes acesas, e no fim de todas as pedras do pavimento eu pude 
ver uma gigantesca porta de vidro com algum espreitando atrs. Virei-me para Soneca e disse:
     Certo, estou numa boa. Obrigada pela carona.
     Soneca olhou todas as luzes, palmeiras e coisa e tal.
     Tem certeza de que voc tem como voltar para casa?
     Tenho.
     - Certo. - Enquanto saa do carro, ouvi quando ele murmurou: - Nunca tinha entregue torta aqui antes.
     Subi rapidamente a entrada pavimentada, consciente, enquanto Soneca ia embora com o carro, de que podia ouvir o oceano em algum lugar, ainda que, na escurido 
do outro lado da casa, no pudesse v-lo. Quando cheguei  porta, ela se abriu antes que eu pudesse procurar uma campainha e um japons de calas pretas e um negcio 
branco parecendo roupo fez uma reverncia e disse:
     - Por aqui, senhorita.
     Eu nunca tinha ido a uma casa onde um empregado atendia  porta - quanto mais sendo chamada de senhorita -, por isso no sabia como agir. Segui-o at uma sala 
gigantesca onde as paredes eram feitas de pedras de verdade, sobre as quais gua de verdade pingava em riachos minsculos, que eu supus que eram para ser cachoeiras.
     - Posso pegar seu casaco? - perguntou o japons, por isso eu o tirei, mas fiquei com a bolsa de onde o caderno de anotaes estava espiando para fora. Queria 
ter a aparncia do personagem, voc sabe.
     Ento o japons fez outra reverncia e disse:
     - Por aqui, senhorita.
     Ele me levou at uma porta dupla de vidro, deslizante, que dava num comprido ptio aberto onde havia uma enorme piscina iluminada de turquesa no escuro. Subia 
vapor da superfcie. Acho que era aquecida. Havia uma fonte no meio dela, e uma formao rochosa de onde a gua jorrava, e em toda volta havia plantas, rvores e 
arbustos de hibisco. Um lugar muito legal, pensei, para eu ficar depois da escola com meu maio Calvin Klein e minha canga.
     Ento estvamos dentro de novo, num corredor de aparncia surpreendentemente comum. Foi nesse ponto que meu guia fez uma terceira reverncia e disse:
     - Espere aqui, por favor - e desapareceu numa das trs portas que havia no corredor.
     Ento eu fiz o que ele disse, mas no pude deixar de me perguntar que horas seriam. No uso relgio, j que todos os que eu tinha acabavam sendo despedaados 
por algum esprito maligno. Mas no havia planejado gastar mais do que alguns minutos do meu tempo com esse cara. Meu plano era entrar, dar a mensagem da morta e 
depois sair. Falei  minha me que estaria em casa por volta das nove, e j devia ser quase oito.
     Gente rica. Simplesmente no se importa com o toque de recolher dos outros.
     Ento o japons reapareceu, fez uma reverncia e disse:
     - Ele vai receb-la agora.
     Epa. Eu imaginei se deveria me ajoelhar.
     Contive-me. Em vez disso, passei pela porta - e me vi num elevador. Um elevador minsculo com uma cadeira e uma mesinha de canto. Havia at uma planta na mesa. 
O japons tinha fechado a porta atrs de mim, e agora eu estava sozinha num cmodo minsculo que definitivamente se movia. Eu no tinha como saber se estava subindo 
ou descendo. No havia nmeros na porta para indicar a direo que a coisa estava tomando. E s havia um boto...
     O cmodo parou de se mexer. Quanto estendi a mo para a maaneta, ela girou. E, quando sa do elevador, me peguei numa sala escura com grandes cortinas de veludo 
sobre as janelas, contendo apenas uma escrivaninha enorme, um aqurio ainda maior e uma nica poltrona de visita, evidentemente para mim, diante daquela escrivaninha. 
Atrs da escrivaninha estava sentado um homem. O homem, ao me ver, sorriu.
     - Ah - disse ele. - Voc deve ser a Srta. Simon.
     
Captulo 7



      Ahn -  falei. - .
      Era difcil dizer, porque estava escuro demais no cmodo, mas o homem atrs da mesa parecia ter mais ou menos a idade do meu padrasto. Uns quarenta e cinco. 
Estava usando suter sobre uma camisa abotoada, meio como Bill Gates sempre usa. Tinha cabelos castanhos obviamente ficando ralos. Cee Cee estava certa: sem dvida 
ele no era ruivo.
     E nem de longe to bonito quanto o filho.
     - Sente-se - disse o Sr. Beaumont. - Sente-se.  um prazer enorme v-la. Tad me falou muito sobre voc.
     , certo. Imaginei o que ele diria se eu observasse que Tad nem sabia o meu nome. Mas como eu ainda estava fazendo o papel da reprter concentrada, sorri enquanto 
me acomodava na confortvel poltrona de couro diante de sua mesa.
     - Gostaria de tomar alguma coisa? - perguntou o Sr. Beaumont. - Ch? Limonada?
     Ah, no, obrigada. - Era difcil no olhar para o aqurio atrs dele. Era montado na parede, quase preenchendo-a inteiramente, e estava cheio de todo tipo de 
peixe colorido que se possa imaginar. Havia luzes engastadas na areia do fundo, que lanavam um brilho estranho, aqutico, na sala. O rosto do Sr. Beaumont, com 
aquela luz ondulada, parecia meio tipo Grand Moff Tarkin. Voc sabe, na cena final da batalha pela Estrela da Morte.
     No quero dar trabalho para o senhor - falei em resposta  pergunta sobre a bebida.
     Ah, no  problema. Yoshi pode trazer para voc. - O Sr. Beaumont pegou o telefone no centro de sua gigantesca mesa de aparncia vitoriana. - Posso pedir que 
ele traga alguma coisa?
     Srio - falei. - Eu estou bem. - E ento cruzei as pernas porque ainda estava congelando de quando tinha ficado l fora perto da guarita.
     Ah, mas voc est com frio - disse o Sr. Beaumont. - Aqui, deixe-me acender a lareira.
     -No. Srio. Est tudo... bem...
     Minha voz ficou no ar. O Sr. Beaumont no tinha se levantado, como Andy teria feito, ido at a lareira, enfiado pedaos de jornal debaixo de alguns pedaos 
de lenha, acendido a coisa e depois passado a meia hora seguinte soprando e xingando.
     Em vez disso levantou um controle remoto, apertou um boto e de repente havia um fogo gostoso aceso na lareira de mrmore preto. Eu senti o calor imediatamente.
     Uau - falei. - Sem dvida isso ... conveniente.
     No  mesmo? - O Sr. Beaumont sorriu para mim. Por algum motivo ficou olhando a cruz no meu pescoo. - Eu nunca gostei de acender lareiras.  uma baguna. Nunca 
fui um bom escoteiro.
     - Ha, ha - falei. O nico modo de isso ficar mais esquisito, pensei, seria ele ter a cabea da dona morta no gelo em algum lugar do poro, pronta para ser transplantada 
no corpo de Cindy Crawford assim que ele se tornar disponvel.
     Bem, se  que posso ir direto ao ponto, Sr. Beaumont...
     Claro. As dez pessoas mais influentes em Carmel, no ? E qual  o meu nmero? O um, espero.
     Ele sorriu ainda mais para mim. Eu sorri de volta. Odeio admitir, mas esta  sempre minha parte predileta. H definitivamente alguma coisa errada comigo.
     - Na verdade, Sr. Beaumont, eu no estou aqui realmente para fazer uma matria para o jornal da escola. Estou porque algum pediu para eu lhe dar uma mensagem, 
e esse foi o nico modo em que eu consegui pensar. O senhor  uma pessoa muito difcil de contatar, sabe?
     Seu sorriso no tinha hesitado enquanto eu disse que estava ali usando argumentos falsos. Talvez ele tivesse apertado algum boto secreto debaixo da mesa, chamando 
a segurana. Mas se fez isso, eu no vi. Ele cruzou os dedos debaixo do queixo e, ainda olhando minha cruz de ouro, falou cheio de expectativa: - Sim?
     - A mensagem - falei me empertigando -  de uma mulher (desculpe, eu no peguei o nome dela) que por acaso est morta.
     No houve absolutamente qualquer mudana na expresso dele. Obviamente, decidi, era um mestre em esconder as emoes.
     - Ela pediu para eu dizer - continuei - que o senhor no a matou. Ela no o culpa. E quer que o senhor pare de se culpar.
     Isso provocou uma reao. Ele descruzou rapidamente os dedos, depois ps as mos chapadas sobre a mesa e me encarou com um olhar de fascnio absoluto.
     - Ela disse isso? - perguntou ele ansioso. - Uma morta?
     Encarei-o inquieta. Essa no era bem a reao  qual eu estava acostumada quando dava mensagens como a que tinha acabado de dar. Algumas lgrimas seriam uma 
coisa boa. Um ofegar de perplexidade. Mas no esse - vamos encarar os fatos - tipo de interesse doentio.
     -  - falei me levantando.
     No era s que o Sr. Beaumont e seu olhar amedrontador estivessem me deixando pirada. E no era o aviso de papai ressoando nos ouvidos. Meus instintos de mediadora 
estavam dizendo para dar no p. Agora. E quando meus instintos dizem para fazer alguma coisa, em geral eu obedeo. Por longa experincia, sei que isso  benfico 
para a minha sade.
     - Certo - falei. - Tchau.
     Virei-me e voltei para o elevador. Mas quando puxei a maaneta, ela no se mexeu.
     Onde voc viu essa mulher? - a voz do Sr. Beaumont, atrs de mim, estava cheia de curiosidade. - Essa defunta.
     Eu tive um sonho com ela, certo? - falei, continuando a puxar inutilmente a porta. - Ela apareceu num sonho. Para ela era realmente importante que o senhor 
soubesse que ela no o considera responsvel por nada. E agora que cumpri com meu dever, o senhor se incomodaria se eu fosse embora?
     Falei com minha me que estaria em casa por volta das nove.
     Mas o Sr. Beaumont no soltou a porta do elevador. Em vez disso falou numa voz meditativa:
     - Voc sonhou com ela? Os mortos falam com voc nos sonhos? Voc  paranormal?
     Droga, falei comigo mesma. Eu deveria saber.
     Esse cara era um daqueles da Nova Era. Provavelmente tinha um tanque de privao sensorial no quarto e queimava velas de aromaterapia no banheiro e tinha um 
pequeno cmodo secreto dedicado ao estudo de extraterrestres em algum lugar da casa.
     -  - falei, uma vez que j tinha cavado o buraco. Achei que podia muito bem entrar nele agora. - , eu sou paranormal.
     Faa com que ele continue falando, disse a mim mesma. Faa com que ele continue falando enquanto voc acha outra sada. Comecei a ir para uma das janelas escondidas 
atrs das vastas cortinas de veludo.
     - Mas olha, eu no posso dizer mais nada, certo? Eu s tive um sonho. Com algum que parece ter sido uma dona muito boa.  uma pena ela estar morta e coisa
e tal. Quem ela era, afinal de contas? Sua... hmm... mulher?
     Na palavra mulher eu abri a cortina, esperando achar uma janela atravs da qual eu pudesse passar o p e depois pular para a segurana. No  grande coisa.
Tinha feito isso cem vezes antes.
     E havia uma janela, certo. Uma janela de trs metros e meio com montes de painis de vidro, recuados uns trinta centmetros, pelo menos, num belo caixilho trabalhado.
     Mas algum tinha fechado os postigos - voc sabe, os que ficam do lado de fora da casa e que em geral so principalmente decorativos. Bem fechado. Nem um raio 
de sol poderia penetrar naquelas coisas.
     Deve ser tremendamente empolgante - estava dizendo o Sr. Beaumont atrs de mim enquanto eu olhava para os postigos, imaginando se iriam se abrir caso eu os 
chutasse com fora. Mas quem sabia que tipo de queda haveria abaixo deles? Poderiam ser uns quinze metros, sei l. Eu tinha dado alguns saltos perigosos na vida, 
mas em geral sabia onde estava pulando antes de ir com tudo.
     Ser paranormal, quero dizer - continuou o pai de Tad.
     - Ser que voc se incomodaria em fazer contato com outras pessoas falecidas que eu conheo? H alguns indivduos com quem eu gostaria muito de falar.
     A coisa no funciona assim. - Soltei aquelas cortinas e fui at a prxima janela.
     A mesma coisa. A janela tinha postigos completamente fechados. Nem mesmo uma fresta por onde a luz do sol pudesse passar. De fato eles pareciam quase pregados.
     Mas isso era ridculo. Quem pregaria postigos sobre as janelas? Especialmente com o tipo de vista para o mar que eu tinha certeza que a casa do Sr. Beaumont 
possua.
     - Ah, mas sem dvida, se voc se concentrasse de verdade - a voz agradvel do Sr. Beaumont me acompanhou enquanto eu ia at a prxima janela - poderia se comunicar 
s com mais alguns. Quero dizer, voc j teve sucesso com uma. O que so mais alguns? Eu pagaria, claro.
     No pude acreditar. Cada uma das janelas estava com os postigos fechados.
     - Hmm - falei enquanto chegava  ltima janela e descobria que tambm tinha postigos fechados. - O senhor tem um pouco de agorafobia?
     Finalmente o Sr. Beaumont pareceu ter notado o que eu estava fazendo, porque disse casualmente.
     - Ah, isso. . Eu sou sensvel  luz do sol.  ruim para a pele.
     Ah, tudo bem. O cara era pirado mesmo.
     S havia uma outra porta na sala e ficava atrs do Sr. Beaumont, perto do aqurio. Eu no me sentia exatamente empolgada com a idia de chegar perto do cara, 
por isso voltei  porta do elevador.
     - Olha, por favor pode destrancar isso para eu ir para casa? - Puxei a maaneta, tentando no deixar o medo transparecer. - Minha me  muito rgida e, se eu 
perder o toque de recolher ela... ela pode bater em mim.
     Sei que isso era pegar meio pesado - especialmente se por acaso ele assistisse ao noticirio local e visse mame fazendo uma de suas apresentaes. Ela no 
 do tipo agressivo. Mas o negcio  que havia alguma coisa esquisita nele, eu realmente s queria dar no p e no me importava como. Teria dito qualquer coisa para 
sair.
     Voc acha que, se eu ficasse muito quieto - quis saber o Sr. Beaumont -, poderia invocar de novo o esprito dessa mulher para eu trocar uma palavra com ela?
     No. Por favor, pode abrir esta porta?
     Voc no imagina o que ela quis dizer? Bem, ela pediu para voc me dizer para no me culpar pela sua morte.
     Como se, de algum modo, eu fosse responsvel por mat-la. Isso no faz voc pensar um pouco, Srta. Simon? Quero dizer, sobre se eu poderia ou no ser um...
     Nesse momento, para meu absoluto alvio, a maaneta do elevador girou na minha mo. Mas no porque o Sr. Beaumont a tivesse liberado. No, por acaso que algum
estava saindo do elevador.
     Ol - disse um homem louro, muito mais novo do que o Sr. Beaumont e vestido com terno e gravata. - O que temos aqui?
     Esta  a Srta. Simon, Marcus - disse o Sr. Beaumont, todo animado. - Ela  paranormal.
     Por algum motivo Marcus tambm ficou olhando para o meu colar. No tanto para o colar, mas para toda a rea do pescoo.
     - Paranormal, hein? - disse ele, com o olhar examinando a gola do meu suter. -  isso que vocs dois estavam discutindo aqui? Yoshi disse alguma coisa sobre 
uma matria de jornal...
     Ah, no. - O Sr. Beaumont balanou a mo como se quisesse descartar toda a coisa do jornal. - Isso foi s uma coisa que ela inventou para que eu a recebesse 
e ela pudesse contar sobre o sonho. Um sonho bastante extraordinrio, Marcus.
     Ela disse que sonhou que uma mulher lhe disse que eu no a matei. No a matei, Marcus. No  interessante?
     Certamente. - Marcus segurou meu brao. - Bem, fico feliz por vocs dois terem tido uma conversinha agradvel.
     Agora acho que a Srta. Simon tem de ir.
     Ah, no - pela primeira vez o Sr. Beaumont se levantou atrs de sua mesa. Notei que ele era bem alto. E estava usando cala de veludo cotel verde. Verde!
     Realmente, se voc me perguntar, essa foi a coisa mais esquisita de todas.
     - Ns s estvamos nos conhecendo - disse o Sr.Beaumont, em tom lamentoso.
     - Eu disse a mame que chegaria em casa antes das nove - falei rapidamente a Marcus.
     Marcus no era idiota. Guiou-me direto para o elevador, dizendo ao Sr. Beaumont:
     Teremos a Srta. Simon de volta em breve.
     Espere. - O Sr. Beaumont comeou a rodear sua mesa.
     - Eu no tive chance de...
     Mas Marcus pulou no elevador comigo e, me soltando, bateu a porta.
     
Captulo 8



     Um segundo depois estvamos em movimento. Eu ainda no sabia se descendo ou subindo. Mas realmente no importava. O fato era que estvamos em movimento, indo 
para longe do Sr. Beaumont, e esta era a nica coisa que me importava.
     - Nossa - no pude deixar de falar assim que soube que estava em segurana. - O que h com aquele cara?
     Marcus me olhou.
     - O Sr. Beaumont machucou voc de algum modo, Srta.Simon?
     Pisquei os olhos, surpresa. - No.
     - Fico muito feliz em saber. - Marcus pareceu um pouco aliviado, mas tentou disfarar isso por trs de uma aparncia profissional. - O Sr. Beaumont est um 
pouco cansado esta noite. Ele  um homem muito importante, muito ocupado.
     - Odeio ser eu a lhe dizer, mas aquele cara no est somente cansado.
     - Pode ser. O Sr. Beaumont no tem tempo para garotinhas que gostam de pregar peas.
     - Peas? - ecoei, ligeiramente ofendida. - Escuta, moo, eu realmente... - O que eu estava dizendo? - Eu realmente...... tive aquele sonho, e no gosto... 
Marcus me olhou, cansado.
     - Srta. Simon - disse ele em voz entediada. - Eu realmente no quero ter de ligar para os seus pais. E se voc prometer que no vai incomodar o Sr. Beaumont 
nunca mais com essa coisa de sonhos paranormais, eu no ligo.
     Quase ri disso em voz alta. Meus pais? Eu estava preocupada com a hiptese de ele chamar a polcia. De meus pais eu podia cuidar. A polcia era uma coisa totalmente 
diferente.
     Ah - falei quando o elevador parou e Marcus abriu a porta e deixou que eu recuasse para o pequeno corredor que saa do ptio onde havia a piscina. - Certo. 
- Tentei colocar um bocado de desapontamento petulante na voz.
     - Prometo.
     Obrigado.
     Marcus assentiu, depois comeou a andar comigo at a porta da frente.
     Ele provavelmente teria me chutado para fora sem pensar duas vezes, no fosse o fato de que estvamos passando pela piscina e por acaso eu notei algum nadando 
nela. A princpio no dava para ver quem era. Estava realmente escuro, o cu noturno sem lua e sem estrelas por causa de uma grossa camada de nuvens, e as nicas 
luzes eram as grandes e redondas debaixo d'gua. Elas faziam a pessoa na piscina parecer toda distorcida - meio tipo o rosto do Sr. Beaumont com a luz do aqurio.
     Mas ento o nadador chegou ao fim da piscina, aparentemente tendo terminado os exerccios, saiu dela e pegou uma toalha que tinha jogado numa cadeira.
     Congelei.
     E no somente porque o tinha reconhecido. Congelei porque, realmente, no  todo dia que voc v um deus grego bem aqui na terra.
     Srio. Tad Beaumont de calo de banho era uma coisa linda de se ver.  luz azul da piscina parecia um Adnis, com gua brilhando em todo o plo escuro que 
cobria o peito e as pernas. E ainda que seus msculos abdominais no fossem to impressionantes quanto os de Jesse, bem, pelo menos ele tinha um conjunto de bceps 
que compensava muito bem.
     - Oi, Tad - falei.
     Tad ergueu a cabea. Estava se enxugando com a toalha. Agora parou e me olhou.
     - Ah, ei - disse ele, me reconhecendo. Um grande sorriso se abriu em seu rosto. -  voc.
     Cee Cee estava certa. Ele nem sabia o meu nome.
     . Suze Simon. Da festa de Kelly Prescott.
     Claro, eu lembro. - Tad veio andando at ns, com a toalha pendurada casualmente nos ombros. - Como vai?
     Seu sorriso era digno de se ver, vou te contar. Seu pai provavelmente havia pago uma bela grana a algum ortodontista, mas valia cada centavo.
     Voc conhece esta jovem, Tad? - disse Marcus, com a descrena evidente no tom de voz.
     Ah, claro. - Tad parou perto de mim, com a gua ainda pingando como diamantes dos plos escuros. - A gente se conhece h um tempo.
     Bem - disse Marcus. E evidentemente no conseguiu pensar em algo para acrescentar, j que falou de novo. - Bem.
     E ento, depois de um silncio incmodo, falou isso uma terceira vez, mas acrescentou:
     Ento acho que vou deixar vocs dois a ss. Tad, voc mostra a sada  Srta. Simon?
     Claro - disse Tad. E quando Marcus tinha desaparecido pela porta de vidro deslizante para dentro da casa, ele sussurrou: - Desculpe. Marcus  um cara fantstico, 
mas vive preocupado demais.
     Tendo conhecido o chefe dele, eu no exatamente culparia Marcus por se preocupar. Mas como no podia dizer isso a Tad, s falei:
     - Tenho certeza de que ele  bem legal.
     E ento falei da matria que estava fazendo para o jornal da escola. Achei que, mesmo que eles discutissem o assunto depois, seu pai no iria dizer: "Ah, no, 
no foi por isso que ela veio aqui. Ela veio para contar um sonho que teve."
     E mesmo que contasse, o sujeito era to estranho que duvido que at mesmo o filho acreditasse.
     Ahn - disse Tad quando terminei de descrever o artigo sobre as dez pessoas mais influentes de Carmel. - Legal.
     . Eu nem sabia que ele era seu pai. - Meu Deus, como eu cascateio quando entro numa. - Quero dizer, eu nem sabia o seu sobrenome. De modo que foi uma tremenda 
surpresa. Ei, escuta, posso dar um telefonema? Tenho de armar uma carona para casa.
     Tad me olhou cheio de surpresa.
     - Precisa de uma carona? No esquenta. Eu te levo.
     No consegui deixar de olh-lo de cima a baixo. Quero dizer, ele estava praticamente nu, e coisa e tal. Certo, bem, no exatamente nu, j que estava usando 
um calo que ia praticamente at os joelhos. Mas para mim estava suficientemente nu a ponto de eu no conseguir olhar para o outro lado.
     - Hmm. Obrigada.
     Ele acompanhou meu olhar, e olhou para o short pingando.
     - Ah - disse ele, com o sorriso lindo ficando maravilhosamente sem graa. - Deixa eu botar uma coisa rapidinho.
     Voc me espera aqui?
     E ele tirou a toalha do pescoo e comeou a voltar para a casa...
     Mas se imobilizou quando eu ofeguei e disse:
     - Ah, meu Deus! O que h de errado com o seu pescoo?
     No mesmo instante ele encolheu os ombros e girou para me encarar de novo.
     Nada - disse rpido demais.
     Certamente h alguma coisa tremendamente errada com ele - falei dando um passo em sua direo. - Voc est com alguma horrvel...
     E ento, deixando a frase no ar, olhei para minhas mos.
     Olha - disse Tad em tom desconfortvel. -  s sumagre venenoso. Sei que  nojento. Eu estou com isso h uns dois dias. Parece pior do que . No sei como peguei 
isso, especialmente na nuca, mas...
     Eu sei.
     Levantei as duas mos. No brilho azul das luzes da piscina, a erupo nelas parecia particularmente grotesca - exatamente como a erupo no pescoo dele.
     - Eu tropecei e ca em cima de umas plantas na festa de Kelly. E logo depois disso voc me convidou para danar...
     Tad olhou minhas mos. Ento comeou a rir.
     - Desculpe - falei. Eu realmente me sentia mal. Quero dizer, eu tinha desfigurado o cara. - Srio, voc no sabe...
     Mas Tad s continuou rindo. E depois de um tempo eu comecei a rir com ele.2
     
Captulo 9



     Postigos fechados - repetiu o padre Dominic. - As janelas estavam com os postigos fechados? - Bem, no todas. - Eu estava sentada na cadeira diante da mesa
dele, cutucando minha erupo de Sumagre venenoso. A hidrocortisona estava secando a erupo. Agora, em vez de soltar lquido, ela estava apenas escamosa. - S as 
do escritrio dele, ou sei l o que era aquilo. Ele disse que era sensvel  luz.
     E voc disse que ele ficava olhando o seu pescoo?
     O meu cordo. Foi o secretrio dele que ficou olhando meu pescoo como se esperasse ver um dispositivo gigantesco ali, ou sei l o qu. Mas o senhor no est 
entendendo, padre Dom.
     Eu tinha decidido abrir o jogo com o bom padre. Bem, pelo menos com relao  defunta que vinha me acordando no meio da noite ultimamente. Ainda no estava 
preparada para contar sobre Jesse - especialmente considerando o que tinha acontecido quando Tad me deixou na noite anterior - mas achei que, se Thaddeus Beaumont, 
pai, era realmente o assassino assustador que eu no podia deixar de suspeitar de que fosse, eu precisaria da ajuda do padre Dom para lev-lo  justia.
     - O ponto - falei -  que ele ficou surpreso pelo motivo errado. Ficou surpreso porque a mulher disse que ele no tinha matado. O que implica - pelo menos para 
mim - que ele realmente matou. Matou a mulher, quero dizer.
     Quando eu tinha entrado, o padre Dominic estava enfiando um arame de cabide desamassado debaixo do gesso. Aparentemente estava com coceira. Tinha parado de 
coar, mas no conseguia largar o pedao de arame. Ficava mexendo nele pensativamente. Mas pelo menos ainda no havia tirado os cigarros do mao.
     Sensvel  luz - ficou murmurando. - Olhando para o seu pescoo.
     O ponto - falei de novo -  que parece que ele realmente matou a tal dona. Quero dizer, ele praticamente admitiu. O problema : como ns podemos provar? Ns 
nem sabemos o nome dela, quanto mais onde ela foi enterrada, se  que algum se incomodou em enterrar. Ns nem temos um cadver para apontar. Mesmo que ns fssemos 
procurar a polcia, o que iramos dizer?
     Mas o padre Dom estava profundamente absorvido em seus pensamentos, revirando o arame nas mos. Achei que, se ele ia entrar num devaneio, bem, ento eu tambm 
iria.
     Recostei-me na cadeira, coando a erupo e pensando no que tinha acontecido depois de Tad e eu termos parado de rir da erupo horrorosa um do outro - a nica 
parte da noite que eu no tinha descrito ao padre Dom.
     Tad tinha ido trocar de roupa. Eu esperei perto da piscina, enquanto o vapor que subia dela esquentava minhas pernas com a meia cala. Ningum me incomodou 
e at foi relaxante ficar ouvindo a cascata. Depois de um tempo Tad apareceu de novo, com o cabelo ainda molhado, mas vestindo um jeans e, infelizmente, outra camisa 
de seda preta. At estava usando um cordo de ouro, se bem que duvido de que ele o tenha ganhado escrevendo uma bela redao sobre James Madison.
     Eu tive de me esforar para no dizer que o ouro provavelmente estava irritando sua erupo, e que a seda preta com jeans num homem  tremendamente cafona.
     Mas consegui me conter, e Tad me levou para dentro, onde Yoshi reapareceu como magia com o meu casaco. Depois fomos at o carro de Tad, que, para meu horror 
completo, era uma coisa preta e esguia que, juro por Deus, David Hasselhoff dirigia naquele seriado que ele fez antes de SOS Malibu3. Tinha bancos de couro fundos 
e o tipo de aparelhagem de som pela qual Soneca seria capaz de matar e, quando pus o cinto de segurana, rezei para que Tad fosse bom motorista, j que eu morreria 
de vergonha se algum tivesse de usar um daqueles alicates gigantescos para me arrancar de um carro assim.
     Mas Tad parecia achar o carro maneiro e tambm que ficava maneiro dentro dele. E tenho certeza de que na Polnia, ou sei l onde,  considerado maneiro andar 
de Porsche, usar cordo de ouro e camisa de seda preta, mas pelo menos l no Brooklyn, se voc fizesse essas coisas, ou era traficante de drogas ou morava em Nova 
Jersey.
     Mas aparentemente Tad no sabia disso. Engrenou o carro e um instante depois estvamos na Drive, pegando as curvas fechadas ao longo do litoral com tanta facilidade 
quanto se estivssemos num tapete mgico. Enquanto dirigia, Tad perguntou se eu queria ir a algum lugar, talvez tomar um caf. Acho que agora que tnhamos a ligao 
comum do sumagre venenoso, ele queria ficar um tempo comigo.
     Falei que sim, claro, mesmo odiando caf, e ele me deixou usar o celular para ligar para mame e dizer que ia chegar tarde. Mame ficou to empolgada em saber 
que eu estava indo a algum lugar com um garoto que nem fez as coisas que geralmente as mes fazem quando suas filhas saem com um cara que elas no conhecem, tipo 
exigir o nome da me dele e o nmero do telefone de sua casa.
     Desliguei e ns fomos ao Coffee Clutch, um lugar onde a garotada da Academia da Misso adora ir. Acabou que Cee Cee e Adam estavam l, mas quando me viram entrando 
com um garoto tiveram o tato de fingir que no me conheciam. Pelo menos Cee Cee fez isso. Adam ficou me olhando e fazendo caretas sempre que as costas de Tad estavam 
viradas para ele. No sei se as caretas se deviam ao fato de a erupo de Tad estar claramente visvel mesmo  luz fraca do Coffee Clutch ou se Adam estava apenas 
expressando seu sentimento com relao a Tad Beaumont em geral.
     De qualquer modo, depois de dois capucinos - para ele - e duas cidras quentes para mim, ns samos, e Tad me levou para casa. Descobri que ele no era um cara 
particularmente brilhante. Falava um bocado sobre basquete. Quando no estava falando de basquete, falava de velejar e quando no estava falando de velejar falava 
de jet-ski.
     E basta dizer que eu no sei nada de basquete, vela ou jet-ski.
     Mas ele parecia um cara bem decente. E, diferentemente do pai, sem dvida no era pirado, sempre positivo. E, claro, era devastadoramente bonito, de modo que, 
no total, eu teria dado nota sete ou oito para a noite, numa escala de um a dez, um sendo abominvel, dez sendo sublime.
     E ento, quando eu estava tirando o cinto de segurana depois de nos despedirmos, de repente Tad se inclinou para frente, pegou meu queixo, virou meu rosto 
para ele e me beijou.
     Meu primeiro beijo. Primeirssimo.
     Sei que  difcil acreditar. Eu sou to vibrante, expansiva e coisa e tal, que voc pensaria que os garotos me cercam como abelhas em volta do mel durante toda 
a minha vida.
     S digamos que no foi exatamente isso que aconteceu. Eu gosto de pr a culpa no fato de que sou uma aberrao biolgica - capaz de me comunicar com os mortos 
e essas coisas - para nunca ter sado com um cara, mas sei que no  realmente isso. S no sou o tipo de garota que os caras pensam em convidar para sair. Bem, 
talvez pensem, mas sempre parecem conseguir se convencer do contrrio. No sei se  porque acham que eu posso mandar o punho na garganta deles se tentarem alguma 
coisa, ou se s ficam intimidados por minha inteligncia superior e minha aparncia fantstica (ha ha). No fim das contas, eles simplesmente no se interessam.
     Isto , at Tad. Tad ficou interessado. Tad ficou muito interessado.
     Tad estava exprimindo seu interesse aprofundando nosso beijo, saindo de um beijinho de despedida para um de lngua em pique total - que eu estava curtindo imensamente, 
a propsito, apesar do cordo e da camisa de seda -, quando por acaso notei - , tudo bem. Vou admitir. Meus olhos estavam abertos. Ei, era o meu primeiro beijo, 
eu no queria perder nada, certo? - que havia algum sentado no minsculo banco de trs do Porsche.
     Virei a cabea para trs e soltei um gritinho.
     Tad piscou para mim, confuso.
     O que h de errado? - perguntou ele.
     Ah, por favor - disse a pessoa no banco de trs, em tom agradvel. - No parem por minha causa.
     Olhei para Tad.
     - Eu tenho de ir - falei. - Desculpe.
     E praticamente sa correndo do carro.
     Estava disparando pela entrada de casa, com as bochechas pegando fogo, de tanta vergonha, quando Jesse me alcanou. Ele nem estava andando depressa. S caminhando.
     E ainda teve a cara de pau de me dizer:
     A culpa  sua.
     Como a culpa  minha? - perguntei irritada enquanto Tad, depois de hesitar um momento, comeou a dar a marcha r, saindo de nossa entrada de veculos.
     Voc no deveria ter deixado ele avanar tanto - disse Jesse.
     - Avanar? O que voc est falando? Avanar? O que isso significa?
     - Voc nem o conhece direito. E estava deixando...
     Girei para encar-lo. Felizmente, nessa hora, Tad tinha sumido. Caso contrrio teria me visto, sob a luz dos faris, girando e gritando para a lua que finalmente 
havia atravessado as nuvens.
     - Ah, no - falei em voz alta. - Nem vem com isso, Jesse.
     Bem - ao luar dava para ver que a expresso de Jesse era de determinao teimosa. A teimosia no era mistrio:
     Jesse talvez fosse a pessoa mais teimosa que eu j conheci. Mas eu no podia deduzir o que ele estava to decidido a fazer, a no ser, talvez, arruinar minha 
vida. - Vocs estavam.
     A gente s estava se despedindo - sibilei para ele.
     Eu posso estar morto h cento e cinqenta anos, Suzannah, mas isso no significa que no saiba como as pessoas se despedem. E em geral quando as pessoas se 
despedem cada um fica com a lngua na prpria boca.
     Ah, meu Deus. - Virei de costas para ele e comecei a voltar para a casa. - Ah, meu Deus. Ele no disse isso.
     , eu disse isso. - Jesse foi atrs de mim. - Eu sei o que vi, Suzannah.
     Sabe o que voc est parecendo? - perguntei virando-me embaixo da escada que dava na varanda, para encar-lo.
     - Parece um namorado com cime.
     Nombre de Dios. No - disse Jesse com um riso. - Cime daquele...
     Ah, ? Ento de onde vem toda essa hostilidade? Tad nunca fez nada contra voc.
     -Tad  um...
     E ento ele disse uma palavra que eu no pude entender, porque era em espanhol. Encarei-o.
     - Um o qu?
     Ele repetiu a palavra.
     Olha - disse eu. - Fale em ingls.
     No existe traduo em ingls para essa palavra.
     Bem, ento no precisa falar.
     Ele no serve para voc - disse Jesse, como se isso resolvesse o assunto.
     Voc nem o conhece.
     Conheo o bastante. Sei que voc no me ouviu nem ouviu o seu pai quando saiu esta noite sozinha para a casa daquele homem.
     Certo. E vou admitir, a coisa foi muito, muito assustadora. Mas Tad me trouxe para casa. Tad no  o problema l. O pai dele  que  maluco, e no o Tad.
     - O problema aqui - disse Jesse, balanando a cabea -  voc, Suzannah. Voc acha que no precisa de ningum, que pode cuidar de tudo sozinha.
     Eu odeio lhe dar a notcia, Jesse, mas eu posso cuidar de tudo sozinha. - Depois me lembrei de Heather, o fantasma da garota que quase tinha me matado h duas 
semanas.
     - Bem, quase tudo - corrigi.
     Ah. Est vendo? Voc admite. Suzannah, esse caso...voc precisa pedir ajuda ao padre.
     timo. Vou pedir.
     timo.  melhor pedir mesmo.
     Estvamos to furiosos um com o outro e tnhamos ficado ali gritando tanto que nossos rostos terminaram separados por centmetros. Por uma frao de segundo 
eu olhei para Jesse, e mesmo estando totalmente furiosa com ele, no estava pensando em como ele  um babaca metido a certinho.
     Em vez disso estava pensando num filme que vi uma vez, em que o heri pegava a herona beijando outro homem, por isso agarrou-a, olhou-a de modo passional e 
disse: "Se eram beijos que voc estava querendo, sua tolinha, por que no veio me procurar?"
     E ento ele deu aquele riso maligno e comeou a beij-la.
     Eu no consegui deixar de pensar que talvez Jesse fosse fazer isso, s que iria me chamar de hermosa, em espanhol, como faz algumas vezes quando no est totalmente 
furioso comigo por ter dado beijos de lnguas em outros caras num carro.
     Assim eu meio que fechei os olhos e deixei a boca ficar toda relaxada, voc sabe, para o caso de ele decidir enfiar a lngua ali.
     Mas tudo que aconteceu foi que a porta de tela bateu, e quando abri os olhos Jesse tinha sumido.
     Em vez disso Mestre estava parado na varanda, me olhando, comendo um sanduche de sorvete.
     - Ei - disse Mestre entre lambidas. - O que voc est fazendo aqui fora? E com quem voc estava gritando? Eu podia ouvir voc l de dentro. Estou tentando assistir 
a Nova, sabe?
     Furiosa, mais comigo mesma do que com algum, falei:
     - Ningum - e subi mal-humorada e entrei em casa.
     Por isso no dia seguinte tinha vindo  sala do padre Dom logo cedo e contado tudo. De jeito nenhum Jesse ia ficar me acusando de que eu no precisava de ningum. 
Eu preciso de um monte de gente.
     E um namorado seria o nmero um dessa lista, muito obrigada.
     Sensvel  luz - disse o padre Dominic, saindo de seu devaneio. - O apelido dele  Red, mas ele no  ruivo. Ele estava olhando o seu pescoo. - O padre Dom 
abriu a gaveta de cima de sua mesa e pegou o mao de cigarros amassado, ainda sem abrir. - Voc no v, Suzannah?
     Claro. Ele  pirado.
     No creio - disse o padre Dom. - Acho que ele  um vampiro.
     
Captulo 10



     Encarei-o boquiaberta. - H, padre Dom - falei depois de um tempo. - Sem ofensa, mas o senhor andou tomando analgsico demais, ou alguma coisa assim? Porque 
odeio ser eu a dar a notcia, mas esse negcio de vampiro no existe.
     O padre Dom estava mais perto do que nunca de abrir aquele mao e enfiar um dos cigarros na boca. Mas se conteve.
     Como voc sabe?
     Como eu sei o qu? Que esse negcio de vampiro no existe? Bem, do mesmo modo que eu sei que no existe o Coelhinho da Pscoa nem Papai Noel.
     Ah, mas as pessoas falam isso com relao aos fantasmas. E voc e eu sabemos que isso no  verdade.
     , mas eu vi fantasmas. Nunca vi um vampiro. E j estive num monte de cemitrios.
     Bem, para no dizer o bvio, Suzannah, eu estou por a h muito mais tempo do que voc e, mesmo no tendo encontrado pessoalmente um vampiro, pelo menos estou 
disposto a admitir a possibilidade da existncia dessa criatura.
     . Certo, padre Dom. Vamos s nos arriscar um pouco e dizer que o cara  um vampiro. Red Beaumont  um sujeito muito conhecido. Se ele andasse por a depois 
do escuro mordendo pessoas no pescoo, algum iria notar, no acha?
     - No se, como voc disse, ele tiver empregados ansiosos por proteg-lo. Isso era demais.
     - Certo. Isso aqui ficou um pouco Stephen King demais para mim. Eu tenho de voltar para a aula, se no o Sr. Walden vai achar que eu desertei. Mas se eu receber 
um bilhete seu mais tarde dizendo que terei de enfiar uma estaca no corao do cara, nem pensar. Tad Beaumont de jeito nenhum vai me convidar ao baile de formatura 
se eu matar o pai dele.
     O padre Dominic ps os cigarros de lado.
     - Isso vai exigir alguma pesquisa...
     Deixei o padre Dominic fazendo o que ele mais gostava: surfar na internet. S recentemente a administrao da Academia tinha comprado computadores e ningum 
ali sabia us-los muito bem. O padre Dominic em particular no tinha idia de como um mouse funcionava e vivia arrastando-o de uma ponta da mesa  outra, no importando 
quantas vezes eu lhe dissesse que s precisava mant-lo em cima do mouse pad. Seria uma gracinha se no fosse to frustrante.
     Decidi, enquanto seguia pela passagem coberta, que teria de colocar Cee Cee no trabalho. Ela era um pouco mais apta para surfar a Internet do que o padre Dominic.
     Enquanto me aproximava da sala do Sr. Walden - que na semana passada infelizmente tinha recebido o grosso dos danos do que todo mundo havia presumido que foi 
um terremoto no explicado, mas que na verdade foi um exorcismo que no deu certo - eu notei um garotinho parado ao lado da pilha de entulho do que tinha sido um 
arco decorativo.
     No era incomum ver garotinhos nos corredores da Academia da Misso, j que a escola tinha turmas desde o jardim de infncia at o terceiro ano. Mas o incomum 
naquele garoto era que ele estava brilhando um pouco.
     Ele me olhou enquanto eu me aproximava, como se estivesse me esperando. O que era verdade.
     - Oi - disse ele.
     - Oi.
     Os trabalhadores estavam escutando rdio bem alto e felizmente nenhum deles notou a garota estranha ali parada, falando sozinha.
     Voc  a mediadora? - perguntou o garoto.
     Uma delas.
     Bom. Eu tenho um problema.
     Olhei para ele. No podia ter mais de nove ou dez anos. Depois lembrei que no outro dia, no almoo, os sinos da misso tinham tocado nove vezes, e Cee Cee explicou 
que era porque um menino da terceira srie tinha morrido depois de uma longa batalha contra o cncer. Olhando para o garoto no dava para notar isso - os mortos 
que eu encontro nunca mostram sinais externos da causa da morte, em vez disso assumem a forma em que viviam antes da doena ou do acidente que tirou sua vida - mas 
aparentemente aquele sujeitinho tivera um caso brabo de leucemia. Timothy, acho que foi o nome que Cee Cee disse.
     Voc  Timothy - falei.
     Tim - corrigiu ele, fazendo uma careta.
     Desculpe. O que posso fazer por voc?
     Todo eficiente, Timothy falou:
      o meu gato.
     Assenti.
     Claro. O que  que tem o seu gato?
     Mame no quer ficar com ele. - Para um garoto morto, Timothy era surpreendentemente direto. - Sempre que ela o v, lembra de mim e comea a chorar.
     Sei. Voc quer que eu ache outra casa para o seu gato?
     Essa  a idia.
     Eu estava pensando que a ltima coisa que eu queria fazer agora era achar uma casa nova para algum gato velho, mas sorri e disse:
     Sem problema.
     Fantstico. S tem uma coisa...
     E foi por isso que, depois da escola naquele dia, eu me peguei num campo atrs do shopping Carmel Valley gritando:
     - Aqui, gatinho, aqui, gatinho!
     Adam, cuja ajuda - e carro - eu havia requisitado, era quem estava batendo no capim alto e amarelo, j que eu tinha lhe mostrado minhas mos de sumagre venenoso 
e explicado que no podia me aventurar perto de nenhuma vegetao. Ele se empertigou, levantou a mo para enxugar o suor da testa - o sol estava batendo com fora 
suficiente para me fazer desejar a praia com as brisas frias do oceano e, mais importante, salva-vidas totalmente gostosos - e disse:
     Certo. Eu entendo que  importante a gente achar o gato do garoto morto. Mas por que estamos procurando num campo? No seria mais inteligente procurar na casa
do garoto?
     No. O pai de Timothy no suportava mais a mulher chorando sempre que via o gato, por isso colocou o bicho no carro e largou aqui.
     Sujeito legal - disse Adam. - Um verdadeiro amante dos bichos. Acho que teria sido problema demais levar o gato ao abrigo de animais onde algum poderia adot-lo.
     Parece que no h muita chance de algum adotar esse gato. - Pigarreei. - Poderia ser uma boa idia a gente cham-lo pelo nome. Talvez ento ele venha.
     Certo. - Adam levantou a bainha da cala. - Qual  o nome dele?
     Ahn. Spike.
     Spike. - Adam olhou para o cu. - Um gato chamado Spike. Isso eu mal posso esperar para ver. Aqui, Spike. Aqui, Spikey, Spikey, Spikey...
     - Ei, vocs a. - Cee Cee veio na nossa direo balanando seu lap top no ar.
     Eu tinha reivindicado a ajuda de Cee Cee, alm da de Adam, s que para um projeto de natureza diferente. Todos os meus novos amigos, pelo que eu havia descoberto, 
possuam talentos e habilidades especficas. A de Adam estava principalmente no fato de ter um carro, mas o ponto forte de Cee Cee estava em suas capacidades superlativas 
de pesquisa... e mais, no fato de que ela gostava de procurar coisas. Eu tinha pedido que ela procurasse o que fosse possvel sobre Thaddeus Beaumont, pai, e ela
havia concordado. Ficou sentada no carro surfando a Internet com a ajuda do modem remoto que tinha ganho de aniversrio - eu j mencionei que todo mundo em Carmel,
com a minha exceo,  podre de rico? - enquanto Adam e eu procurvamos o gato de Timothy.
     Ei - disse Cee Cee. - D uma olhada nisso. - Ela mostrou alguma coisa que tinha baixado da rede. - Eu pus o nome Thaddeus Beaumont num mecanismo de busca e 
recebi dzias de respostas. Thaddeus Beaumont  citado como presidente, scio ou investidor em mais de trinta projetos imobilirios s na pennsula de Monterey - 
a maioria, a propsito, so empreendimentos comerciais, como multiplexes, shoppings ou spas.
     O que isso significa? - perguntou Adam.
     Significa que se voc somar os hectares de propriedade das empresas que citam Thaddeus Beaumont como investidor ou scio, ele se torna praticamente o maior 
dono de terras do norte da Califrnia.
     - Uau - falei.
     Estava pensando no baile de formatura. Aposto que um cara que tem tantas terras pode alugar para o filho uma limusine para a noite.  cafona, eu sei, mas sempre 
quis andar numa.
     Mas ele realmente no  dono de toda essa terra - observou Adam. - E sim as empresas.
     Exato - disse Cee Cee.
     Exatamente o que voc quer dizer com exato?
     Bem - disse Cee Cee. - S isso explica por que o sujeito no foi levado ao tribunal por suspeita de assassinato.
     Assassinato? - de repente esqueci o baile de formatura. - Que assassinato  esse?
     No  um assassinato? - Cee Cee girou o laptop para que ns pudssemos ver a tela. - Estamos falando de mltiplos assassinatos. Ainda que, tecnicamente, todas 
as vtimas tenham sido citadas apenas como desaparecidas.
     De que voc est falando?
     Bem, depois de eu ter feito uma lista de todas as empresas ligadas a Thaddeus Beaumont, coloquei o nome de cada empresa num mecanismo de busca e descobri algumas 
coisas bem perturbadoras. Olha aqui. - Cee Cee tinha baixado um mapa do Vale de Carmel. Ela foi marcando as reas enquanto falava. - Est vendo esta propriedade 
aqui?
     Hotel e Spa. Est vendo como fica perto da gua? Era proibido construir nesta rea. Eroso demais. Mas a RedCo -  o nome da corporao que comprou a terra, 
RedCo, sacou? - fez presso na prefeitura e conseguiu uma permisso. Mesmo assim, um ambientalista avisou  RedCo que qualquer construo feita ali no apenas seria 
perigosamente instvel, mas colocaria em perigo a populao de focas que fica na praia abaixo. Bem, d s uma olhada nisso.
     Os dedos de Cee Cee voaram sobre o teclado. Um segundo depois, a foto de um cara esquisito, de cavanhaque, encheu a tela, junto com o que parecia uma matria 
de jornal.
     - O ambientalista que estava fazendo alarde sobre as focas desapareceu h quatro anos, e desde ento ningum o viu.
     Olhei a tela do computador. Era difcil enxergar  luz do sol.
     O que voc quer dizer com desapareceu? - perguntei.
     - Tipo morreu?
     Talvez. Ningum sabe. O corpo dele nunca foi achado, se ele foi morto - disse Cee Cee. - Mas olha s isso. - Os dedos dela batucaram rapidamente. - Outro projeto, 
esse shopping de estrada aqui, estava colocando em perigo o habitat de um camundongo raro, encontrado s nesta rea. E essa dona aqui - outra foto apareceu na tela 
- tentou impedir e salvar os camundongos, e puf. Desapareceu tambm.
     Desapareceu - ecoei. - Simplesmente desapareceu?
     Simplesmente desapareceu. Problema resolvido para a Mount Beau, esse era o nome da empresa dona do projeto.
     Mont Beau. Beaumont. Sacaram?
     A gente sacou - disse Adam. - Mas se todos esses ambientalistas ligados s empresas de Red Beaumont esto desaparecendo, por que ningum investigou?
     Bem, para comear, as Indstrias Beaumont fizeram uma das maiores doaes de campanha no estado para o nosso governador recm-eleito. Alm disso, deram contribuies 
considerveis para o sujeito que foi eleito xerife.
     Um disfarce? - Adam fez uma careta. - Qual .
     Voc est presumindo que todo mundo suspeita de tudo. Essas pessoas no esto mortas, lembre-se. S desapareceram. Pelo que sei, a atitude parece ser: bem, 
os ambientalistas vivem pulando de um lado para o outro, ento quem diz que esse pessoal simplesmente no foi atrs de uma outra ameaa maior? Todos menos esta. 
- Cee Cee apertou outro boto, e uma terceira foto encheu a pgina. - Esta dona no pertence a nenhum grupo de "salve as focas". Ela era dona de umas terras em que 
as Indstrias Beaumont estavam de olho. Eles queriam expandir um dos multiplexes.
     S que ela no queria vender.
     No diga - falei. - Ela desapareceu.
     Sem dvida. E sete anos depois, exatamente no mesmo dia (sete anos  o tempo depois do qual voc pode considerar que uma pessoa desaparecida est morta) as 
Indstrias Beaumont fizeram uma oferta aos filhos dela, que aceitaram na hora.
     - Traidores - falei, referindo-me aos filhos da dona. Inclinei-me para frente para olhar melhor a foto.
     E tive um choque: eu estava olhando uma foto do fantasma que vinha me fazendo quelas charmosas visitas sociais.
     Certo, bem, talvez ela no parecesse exatamente a mesma. Mas era branca, magricela e tinha o mesmo corte de cabelo. Sem dvida havia semelhana suficiente para 
que eu dissesse:
     -  ela! - e apontasse.
     O que, claro, foi a pior coisa que eu poderia ter feito. Porque Cee Cee e Adam se viraram para me olhar.
     -  ela o qu? - perguntou Adam.
     E Cee Cee disse:
     - Suze, voc no pode conhecer essa mulher. Ela desapareceu h mais de sete anos, e voc s se mudou para c no ms passado.
     Eu sou uma imbecil.
     E no consegui pensar numa boa desculpa. S repeti a que eu tinha gaguejado para o pai de Tad.
     - Ah, ... eu tive um sonho em que ela estava.
     O que havia de errado comigo?
     Claro que eu no tinha explicado a Cee Cee o motivo pelo qual queria que ela procurasse coisas sobre Red Beaumont, assim como no tinha dito a Adam como  que 
eu sabia tantas coisas sobre o gato do pequeno Timothy Mahern. Tinha simplesmente mencionado que o Sr. Beaumont dissera alguma coisa estranha durante meu breve encontro 
com ele na noite anterior. E que o padre Dom tinha pedido para eu procurar o gato, presumivelmente porque, na confisso semanal, o pai de Timothy tinha admitido 
que o havia abandonado - s que, com o juramento de sigilo, o padre Dom no poderia dizer isso. Falei a Adam que s estava supondo...
     - Um sonho? - ecoou Adam. - Com uma mulher que est morta h sete anos? Isso  esquisito.
     Provavelmente no era ela - falei rapidamente, recuando depressa. - De fato, tenho certeza de que no era ela. A mulher que eu vi era muito mais... alta. - 
Como se eu pudesse saber a altura desta mulher olhando a foto dela que algum tinha posto na Internet.
     Sabe - disse Adam - Cee Cee tem uma tia que sonha com gente morta o tempo todo. Ela diz que  visitada pelos mortos.
     Lancei um olhar espantado para Cee Cee. Ser que poderamos estar falando de outra mediadora? O qu, ser que havia alguma superabundncia de gente como eu 
na rea da pennsula? Eu sabia que Carmel era um lugar popular para aposentados, mas isso estava ficando ridculo.
     Ela no sonha com mortos - disse Cee Cee, e eu no achei que estivesse imaginando o nvel de repulsa em sua voz. - Tia Pru invoca os espritos dos mortos e 
diz  gente o que eles falaram. Em troca de um pequeno pagamento.
     Tia Pru? - Eu ri. - Uau, Cee Cee. Eu no sabia que voc tinha uma mdium na famlia.
     Ela no  mdium. - O nojo de Cee Cee aumentou. -  uma fraude completa. Eu sinto vergonha de ser parente dela. Falar com os mortos. Certo!
     No recue, Cee Cee. Diga como voc se sente de verdade.
     Bem. Desculpe. Mas...
     Ei - interrompeu Adam todo animado. - Talvez tia Pru possa ajudar a nos dizer por que - ele se abaixou para olhar mais de perto a foto da morta na tela do computador 
de Cee Cee - a Sra. Dierdre Fiske aqui est aparecendo nos sonhos de Suze.
     Horrorizada, eu me inclinei para a frente e fechei o laptop de Cee Cee.
     - No, obrigada - falei.
     Abrindo o computador de novo, Cee Cee disse cheia de irritao:
     Ningum acaricia o equipamento alm de mim, Suze Simon.
     Ah, qual  - disse Adam. - Vai ser divertido. Suze no conhece Pru. Ela vai se divertir. Sua tia  um barato.
     , voc sabe como os doentes mentais podem ser engraados - murmurou Cee Cee.
     Esperando trazer o assunto de volta aos trilhos, falei:
     Ahn, talvez outra hora. Voc conseguiu mais alguma coisa sobre o Sr. Beaumont, Cee Cee?
     Quer dizer, alm do fato de ele talvez estar matando qualquer um que fique no caminho de sua fortuna amealhada estuprando nossas florestas e praias? - Cee Cee, 
que estava usando um chapu de pano caqui para proteger a pele sensvel, alm de seus culos de lentes violetas, me olhou.
     - Ainda no est satisfeita, Suze? Ns no vetamos totalmente os parentes mais prximos de seu amado?
      - disse Adam. - Deve ser tranqilizador saber que ontem  noite voc ficou com um cara que vem de uma famlia to boa e to estvel, Suze.
     Epa - falei com uma indignao que estava longe de sentir. - No h prova de que o pai de Tad  o responsvel pelo desaparecimento desses ambientalistas. E, 
alm disso, a gente s tomou um caf, certo? A gente no "ficou". Cee Cee piscou para mim.
     Voc saiu com ele, Suze.  s isso que Adam quis dizer com ficou.
     Ah. - No lugar de onde eu vim, ficar significa uma coisa totalmente diferente. - Desculpe, eu...
     Nesse momento Adam soltou um grito.
     - Spike!
     Eu girei, seguindo seu dedo que apontava. Ali, espiando por baixo do mato seco, estava sentado o gato maior e de aparncia mais maligna que eu j tinha visto. 
Era do mesmo amarelo do capim, motivo pelo qual eu provavelmente tinha deixado de ver. Tinha listas laranja, uma orelha arrancada a mordidas e um ar extremamente 
maligno.
     - Spike? - perguntei em voz baixa.
     O gato virou a cabea na minha direo e me encarou malvolo.
     - Ah, meu Deus - falei. - No  de espantar que o pai de Tim no o tenha levado para o abrigo de animais.
     Foi preciso algum esforo - e o sacrifcio definitivo de minha bolsa de livros Kate Spade, que eu s tinha conseguido comprar  custa de grande risco numa liquidao 
no SoHo - mas finalmente conseguimos capturar Spike. Assim que estava fechado dentro da minha bolsa, ele pareceu se resignar ao cativeiro, se bem que durante toda 
a viagem at o Safeway, onde compramos areia e comida para ele, eu podia ouvi-lo trabalhando metodicamente com as garras no forro da bolsa. Decidi que Timothy me
devia um bocado.
     Especialmente quando, em vez de entrar na rua em direo  minha casa, Adam virou na direo oposta, subindo mais nas colinas de Carmel at que a grande cpula 
vermelha que cobre a baslica da Misso abaixo de ns ficou do tamanho de uma unha.
     - No - disse Cee Cee imediatamente com uma firmeza que eu nunca tinha visto antes. - Absolutamente no. Vire o carro. Vire o carro agora.
     S que, rindo diabolicamente, Adam apenas acelerou. Segurando a bolsa Kate Spade no colo, eu disse:
     ... Adam. No sei exatamente onde voc acha que ns vamos, mas eu gostaria pelo menos de me livrar deste... ... animal, antes...
     S um minuto - disse Adam. - O gato vai ficar bem.
     Qual , Cee. Pare de ser to estraga prazeres.
     Cee Cee estava furiosa como eu nunca tinha visto.
     - Eu disse que no! - gritou ela.
     Mas era tarde demais. Adam parou na frente de um pequeno bangal de estuque que tinha sinos de vento pendurados em toda parte, tilintando  brisa da baa e 
flores gigantes de hibisco viradas para o sol do fim de tarde. Ele estacionou seu fusca e desligou.
     - S vamos dar uma entrada para dizer ol - disse ele a Cee Cee. E ento soltou o cinto de segurana e saiu do carro.
     Cee Cee e eu no nos movemos. Ela estava no banco de trs. Eu estava na frente, com o gato. Da minha bolsa vinha um rosnado agourento.
     - No sei se devo perguntar - falei depois de um tempo ali sentada ouvindo os sinos de vento e o rosnado constante de Spike. - Mas onde ns estamos?
     A pergunta foi respondida quando, um segundo depois, a porta do bangal se abriu bruscamente e uma mulher com cabelos do mesmo amarelo esbranquiado de Cee 
Cee - s que to comprido que ela poderia se sentar em cima - gritou um "iuu-huu" para ns.
     - Entrem - gritou Pru, a tia de Cee Cee. - Por favor, entrem! Eu estava esperando vocs!
     Cee Cee, sem nem mesmo olhar na direo da tia, murmurou.
     - Aposto que sim, sua maluca paranormal.
     Lembrem-me de nunca contar a Cee Cee sobre o negcio de ser mediadora.
     
Captulo 11



     Minha nossa - disse Pru. - A est de novo. O arcano nove. Isso  estranho demais. Cee Cee e eu trocamos olhares. Estranho no era exatamente a palavra.
     No que fosse desagradvel. Longe disso. Pelo menos na minha opinio. Pru Webb, a tia de Cee Cee, era meio estranha. Isso certamente era verdade.
     Mas sua casa era muito aromtica com todas as velas perfumadas que mantinha acesas em toda parte. E ela havia se mostrado uma anfitri muito solcita, dando 
a cada um de ns um copo de limonada feita em casa. Era uma pena, claro, que tivesse esquecido de pr acar, mas esse tipo de esquecimento parece no ser incomum 
para algum to em contato com o mundo dos espritos. Tia Pru havia nos informado que seu mentor, o paranormal mais poderoso da Costa Oeste, freqentemente no conseguia 
lembrar do prprio nome, porque estava canalizando muitas outras almas.
     Mesmo assim, at ento nossa visitinha no fora particularmente esclarecedora. Eu fiquei sabendo, por exemplo, que, segundo as linhas na palma da minha mo, 
ia crescer e ter um trabalho desafiador no campo da pesquisa mdica (! Nem no dia de So Nunca). Cee Cee, enquanto isso, ia ser estrela de cinema, e Adam astronauta.
     Srio. Astronauta.
     Admito que fiquei meio ciumenta com a carreira deles, que eram muito mais empolgantes do que a minha, mas tentei controlar a inveja.
     O que eu tinha parado de tentar controlar - e Cee Cee aparentemente tambm - era Adam. Ele contou  tia Pru, antes que eu pudesse impedi-lo, sobre o meu "sonho", 
e agora a pobre mulher estava tentando - de graa, veja bem - invocar o esprito de Deirdre Fiske usando cartas de tar e cnticos entoados baixinho.
     S que no parecia estar funcionando, porque cada vez que ela comeava a virar as cartas, recebia a mesma.
     O arcano nove.
     Aparentemente isso a estava perturbando. Sacudindo a cabea, tia Pru - foi como ela disse para eu cham-la - juntou todas as cartas de novo numa pilha, embaralhou 
e, fechando os olhos, puxou uma do meio e colocou virada para cima, para ns vermos.
     Ento abriu os olhos, olhou para ela e disse:
     - De novo! Isso no faz o menor sentido.
     Ela no estava brincando. A idia de algum invocar um fantasma com um baralho no fazia qualquer sentido... pelo menos para mim. Eu no podia invoc-los nem 
mesmo se ficasse parada gritando o nome deles - coisa que eu tinha tentado, acredite - e eu sou mediadora. Meu servio  me comunicar com os mortos.
     Mas os fantasmas no so cachorros. No vm quando voc chama. Veja o meu pai, por exemplo. Quantas vezes eu quis que ele aparecesse - at precisei dele? Ele 
aparecia, certo: trs, quatro semanas depois. Os fantasmas so muito irresponsveis na maior parte das vezes.
     Mas eu no podia explicar exatamente  tia de Cee Cee que o que ela estava fazendo era uma enorme perda de tempo... e que enquanto ela estava ali sentada fazendo 
isso, havia um gato tentando comer minha bolsa no carro de Adam.
     Ah, e aquele cara que podia ou no ser um vampiro - mas que certamente era responsvel pelo desaparecimento de um bocado de gente - estava solto por a. Eu 
s podia ficar ali sentada com um grande sorriso estpido na cara, fingindo que me divertia, enquanto na verdade estava doida para ir para casa e telefonar ao padre 
Dom, para a gente deduzir o que faria com Red Beaumont.
     - Minha nossa - disse tia Pru. A tia de Cee Cee era muito bonita. Albina como a sobrinha, seus olhos eram violetas. Usava um vestido florido da mesma cor. 
O
contraste que o cabelo comprido e branco fazia com o roxo do vestido era espantoso - e legal. Eu sabia que Cee Cee provavelmente iria ficar igual  tia Pru algum
dia, isto , assim que se livrasse do aparelho dos dentes e da gordurinha infantil.
     Motivo pelo qual Cee Cee provavelmente no a suportava.
     - O que isso pode significar? - murmurou tia Pru consigo mesma. - O eremita. O eremita.
     Pelo que pude ver, parecia haver um eremita na carta que tia Pru ficava virando e revirando. E no era um caranguejo eremita, e sim do tipo velho-morando-numa-caverna. 
Eu no sabia o que um eremita teria a ver com a Sra. Fiske, mas uma coisa eu sabia: estava de saco cheio.
     Mais uma vez - disse tia Pru, lanando um olhar cauteloso na direo de Cee Cee. Cee Cee havia deixado claro que a gente no tinha o dia inteiro. Era eu que 
mais precisava ir para casa, bvio. Tinha de estar presente num jantar dos Ackerman. Noite de frango kung pao. Se me atrasasse, mame iria me matar.
     Hmm - falei. - Sra. Webb?
     Tia Pru, querida.
     Certo. Tia Pru. Posso usar o seu telefone?
     Claro. - Tia Pru nem olhou para mim. Estava ocupada demais canalizando.
     Sa da sala meio escura e fui para o corredor. Havia um telefone de disco, antiquado, numa mesinha. Disquei meu nmero - depois de uma breve luta para lembr-lo, 
j que s o tinha h algumas semanas - e quando Dunga atendeu, pedi para ele dizer a mame que no tinha esquecido do jantar e que estava indo para casa.
     Dunga informou, no muito gentilmente, que estava na outra linha, e que como no era meu secretrio social, no tinha inteno de dar nenhum recado meu, que 
eu deveria ligar depois de novo.
     - Com quem voc pensa que est falando? - perguntei.
     - Com Debbie, sua escrava sexual?
     Dunga respondeu desligando na minha cara. Algumas pessoas no tm senso de humor.
     Desliguei o telefone e estava ali parada, olhando um calendrio zodiacal e imaginando se estaria em algum tipo de zona celestial da sorte - considerando o que 
tinha acontecido com Tad e coisa e tal - quando algum parado junto de mim falou numa voz irritada:
     - Bem? O que voc quer?
     Pulei quase meio metro. Juro, eu fao isso desde que nasci, mas no consigo me acostumar. Preferia ter outro poder secreto - tipo a capacidade de fazer divises 
compridas na cabea - do que essa droga de mediao, juro.
     Girei, e ali estava ela, parada junto  porta de tia Pru, mal ajambrada com um chapu de jardinagem e luvas.
     No era a mesma mulher que vinha me acordando  noite. Tinham corpos semelhantes, eram pequenas e magras, com o mesmo corte de cabelo de gnomo, mas essa mulher 
tinha facilmente uns sessenta anos.
     - Bem? - Ela me encarou. - Eu no tenho o dia inteiro.
     Por que voc me chamou?
     Encarei a mulher, espantada. A verdade  que eu no a tinha chamado. No tinha feito nada, a no ser ficar ali parada imaginando se Tad ainda iria gostar de 
mim quando Mercrio retrocedesse para Aqurio.
     Sra. Fiske? - sussurrei.
     , sou eu. - A velha me olhou de cima a baixo. - Foi voc que me chamou, no foi?
     Hmm... - Eu olhei para a sala onde ainda podia ouvir tia Pru dizendo, aparentemente para si mesma, j que nem Cee Cee nem Adam poderiam ter entendido do que 
ela estava falando:
     Mas o arcano nove no tem orientao...
     Virei-me de volta para a Sra. Fiske.
     Acho que sim - falei.
     A Sra. Fiske me olhou de cima a baixo. Estava claro que no gostava muito do que via.
     - Bem? - disse ela. - O que ?
     Por onde comear? Aqui estava a mulher que tinha desaparecido e fora considerada morta h quase tanto tempo quanto eu estava viva. Olhei de novo para tia Pru 
e os outros, s para garantir que no estivessem espiando na minha direo, e sussurrei:
     - Eu s precisava saber, Sra. Fiske... O Sr. Beaumont. Ele matou a senhora, no foi?
     De repente a Sra. Fiske no estava mais to irritada. Seus olhos, que eram muito azuis, se fixaram nos meus. Ela disse chocada:
     - Meu Deus. Meu Deus, finalmente... algum sabe. Algum finalmente sabe.
     Estendi a mo para encost-la de um jeito tranqilizador no brao dela.
     - Sim, Sra. Fiske. Eu sei. E vou impedir que ele machuque mais algum. A Sra. Fiske afastou minha mo e me olhou de soslaio.
     - Voc? - Ela ainda estava perplexa, mas agora de um modo diferente. Percebi que modo era esse na hora em que ela explodiu numa gargalhada. Voc vai impedi-lo? 
- Ela continuou rindo. - Voc ... voc  uma garotinha!
     No sou uma garotinha. Sou uma mediadora.
     Mediadora? - Para minha surpresa, a Sra. Fiske jogou a cabea para trs e riu mais ainda. - Uma mediadora. Ah, bom, isso melhora tudo, no ?
     Queria dizer que no me importava com seu tom de voz, mas a Sra. Fiske no deu chance.
     - E voc acha que pode impedir Beaumont? Querida, voc tem muito a aprender.
     No achei isso exatamente gentil. Falei: 
     Olha, moa, eu posso ser nova, mas sei o que estou fazendo. Agora s diga onde ele escondeu o seu corpo e...
     Voc  maluca? - A Sra. Fiske finalmente parou de rir.
     Agora balanou a cabea. - No resta nada de mim. Beaumont no  amador, voc sabe. Ele se certificou de que no houvesse erros. E no houve. Voc no vai achar 
nem um fiapo de prova para implic-lo. Acredite. O sujeito  um monstro. Um verdadeiro bebedor de sangue. - Ento suas feies endureceram. - Ainda que no seja 
pior do que os meus filhos. Vender minha terra para aquele sanguessuga! Escute, voc. Voc  uma mediadora. D aos meus filhos o seguinte recado: diga que eu espero 
que eles queimem no...
     - Ei, Suze. - Cee Cee apareceu de repente no corredor. - A bruxa desistiu. Ela tem de consultar o guru, porque continua sem conseguir nada.
     Lancei um olhar frentico para a Sra. Fiske. Espera! Eu ainda no tinha tido chance de perguntar como ela havia morrido! Red Beaumont era mesmo um vampiro?
Tinha sugado toda a vida dela? Ela queria dizer que ele era literalmente um bebedor de sangue?
     Mas era tarde demais. Cee Cee, ainda vindo na minha direo, atravessou direto o que me parecia uma senhora pequenina e velha com chapu e luvas de jardinagem. 
E a velhinha estremeceu indignada.
     No!, eu quis gritar, no v!
     - Argh - disse Cee Cee com um ligeiro tremor enquanto se livrava do resto da aura da Sra. Fiske. - Anda. Vamos sair daqui. Este lugar me d arrepios.
     Eu no fiquei sabendo qual era o recado da Sra. Fiske para os filhos, mas tinha uma idia. A velha, com um ltimo olhar enojado para mim, desapareceu. No momento 
em que tia Pru chegava ao corredor, com ar de quem se desculpava.
     - Sinto muito, Suze. Eu tentei mesmo, mas a corrente Santa Ana esteve particularmente forte este ano, de modo que houve muita interferncia nos caminhos espirituais 
que eu utilizo normalmente.
     Talvez isso explicasse por que eu tinha conseguido invocar o esprito da Sra. Fiske. Ser que eu poderia fazer isso de novo, imaginei, e dessa vez me lembrar 
de perguntar exatamente como Red Beaumont a havia matado?
     Enquanto voltvamos ao carro, Adam pareceu imensamente satisfeito consigo mesmo.
     - E ento, Suze? - perguntou ele enquanto mantinha aberta a porta do carona para ns duas. - J conheceu algum assim antes?
     Claro que sim. Sendo um m para almas dos mortos infelizes, eu tinha conhecido gente de todo tipo, inclusive sacerdotes incas, vrios curandeiros e at uma 
colonizadora que fora queimada como bruxa.
     Mas como isso parecia to importante para ele, sorri e disse:
     - No exatamente. - O que era verdade, de certa forma.
     Cee Cee no pareceu to empolgada com o fato de um dos membros de sua famlia ter conseguido dar tanta diverso ao garoto por quem ela - vamos encarar os fatos 
- tinha uma paixonite enorme. Ela se arrastou para o banco de trs e ficou carrancuda. Cee Cee era uma aluna que s tirava nota mxima e no acreditava em nada que 
no pudesse ser provado cientificamente, especialmente nada que tivesse a ver com outra vida... o que tornava meio problemtico o fato de seus pais a terem posto 
numa escola catlica.
     Mas, para mim, mais problemtico do que a falta de f de Cee Cee ou minha recm-descoberta capacidade de invocar espritos  vontade era o que eu iria fazer 
com aquele gato. Enquanto estvamos na casa de tia Pru o bicho tinha conseguido abrir um buraco no canto da bolsa e agora estava enfiando uma pata por ele, golpeando 
s cegas com garras totalmente esticadas qualquer coisa que chegasse ao seu alcance - principalmente eu, j que era eu que estava segurando a bolsa. Adam, no importando 
o quanto eu tenha implorado, no quis levar o gato para casa e Cee Cee apenas riu quando eu pedi. Eu sabia que de jeito nenhum ia convencer o padre Dominic a deix-lo
viver na reitoria: a irm Ernestine nunca iria permitir.
     O que me deixava apenas uma alternativa. E eu realmente, realmente no estava satisfeita com ela. Alm do que o gato tinha feito no interior de minha bolsa 
- S Deus sabe o que faria no meu quarto -, havia o fato de que eu tinha quase certeza de que os felinos eram proibidos no lar dos Ackerman devido  sensibilidade 
delicada de Dunga ao plo deles.
     De modo que eu ainda tinha o gato estpido, alm de uma bolsa do Safeway contendo uma caixa de areia, a areia em si e umas vinte latas de Fancy Feast, quando 
Adam parou na minha casa para me deixar.
     - Ei - disse ele em tom de apreciao enquanto eu lutava para sair do carro. - Quem est visitando vocs? O papa?
     Olhei para onde ele estava apontando... e meu queixo caiu.
     Estacionada em nossa entrada de veculos havia uma enorme limusine preta, do tipo que estivera em minha fantasia de ir ao baile de formatura com Tad.
     - Ahn - falei, batendo a porta do fusca de Adam. - Vejo vocs, pessoal.
     Subi correndo a entrada de veculos levando Spike, decidido a no ser esquecido s porque tinha sido fechado numa sacola de livros, rosnando e cuspindo o tempo 
todo. Enquanto eu subia os degraus da varanda, ouvi o barulho de vozes na sala de estar.
     E quando passei pela porta da frente e vi a quem as vozes pertenciam... bem, Spike chegou bem perto de virar panqueca de gatinho, tamanha a fora com que espremi 
a bolsa contra o peito.
     Porque sentado ali, batendo papo amigavelmente com minha me e segurando uma xcara de ch, estava ningum menos do que Thaddeus "Red" Beaumont.
     
Captulo 12



     Ah, Suze - disse mame, virando-se quando entrei na casa. - Ol, querida. Olha quem parou , para ver voc. O Sr. Beaumont e o filho dele. S ento notei que 
Tad tambm estava ali. Estava parado perto da parede onde ficavam todas as nossas fotos de famlia - que no eram muitas, j que ramos uma famlia s h algumas 
semanas. Eram principalmente fotos de escola, minhas e dos meus irmos adotivos, e fotos do casamento de Andy e mame.
     Tad riu para mim, depois apontou uma foto minha aos dez anos - em que faltavam os dois dentes da frente - disse:
     - Belo sorriso.
     Consegui dar-lhe uma repetio razovel daquele sorriso, sem os dentes faltando.
     Oi - falei.
     Tad e o Sr. Beaumont estavam indo para casa - disse mame - e pensaram em dar uma parada e ver se voc queria jantar com eles esta noite. Eu disse que achava 
que voc no tinha outros planos. Voc no tem, no , Suze?
     Dava para ver que mame estava praticamente babando com a idia de eu jantar com aquele cara e o filho dele. Mame teria babado com a idia de eu jantar com 
Darth Vader e seu filho, de tanto que queria me ver com um namorado. Tudo que mame sempre quis foi que eu fosse uma adolescente normal.
     Mas se achava que Red Beaumont era uma boa opo de sogro, cara, ela estava latindo para a rvore errada.
     E por falar em latir, de repente eu me tornei objeto de considervel interesse da parte de Max, que tinha comeado a farejar minha bolsa e a gemer.
     - Hmm - falei. - Vocs se importariam se eu subisse e...hum... deixasse minhas coisas?
     - De jeito nenhum - disse o Sr. Beaumont. - De jeito nenhum. Demore quanto quiser. Eu s estava contando  sua me sobre o seu artigo. O que voc est escrevendo 
para o jornal da escola.
     , Suze. - Mame girou em sua poltrona com um sorriso gigantesco. - Voc no disse que estava trabalhando para o jornal da escola. Que empolgante!
     Olhei para o Sr. Beaumont. Ele me deu um sorriso afvel.
     E de repente eu tive uma sensao muito ruim.
     No que o Sr. Beaumont fosse se levantar, chegar perto e me morder no pescoo. Calma. Isso no.
     Mas de repente eu tive uma sensao muito ruim de que ele contaria a mame o verdadeiro motivo para eu ter ido visit-lo na vspera. No o negcio da matria 
do jornal, mas o negcio do meu sonho.
     E mame suspeitaria instantaneamente voc sabe do qu. Se ela soubesse que eu vinha jogando papo de sonhos para-normais para magnatas imobilirios, eu ficaria 
de castigo daqui at a formatura.
     E o pior era que, considerando a quantidade de encrenca em que eu me metia o tempo todo em Nova York, eu no estava muito ansiosa para deixar minha me saber 
que eu estava metida em mais coisas estranhas ainda deste lado do pas. Quero dizer, ela realmente no fazia idia. Mame achava que tudo aqui - o fato de eu constantemente 
chegar depois da hora marcada, meus entreveros com a polcia, minhas suspenses, as notas ruins - tinham ficado para trs, acabado, kaput, fim. Estvamos em outra 
costa, comeando de novo.
     E mame estava to feliz com isso!
     Portanto falei:
     - Ah, , o artigo que eu estou escrevendo - e dei ao Sr. Beaumont um olhar significativo. Pelo menos esperava que fosse significativo. E esperava que isso significasse 
para ele: no abra o bico, meu chapa, ou vai pagar bem caro.
     Se bem que no sei at que ponto um cara como Red Beaumont ficaria amedrontado com uma garota de dezesseis anos.
     No ficou. Ele lanou um olhar direto de volta para mim. Um olhar que dizia, se  que eu no estava enganada: no vou abrir o bico, irm, se voc bancar a boa 
menininha.
     Assenti para que ele soubesse que tinha recebido a mensagem, girei e subi correndo a escada.
     Bem, pelo menos Tad estava com ele, pensei enquanto subia com Max pulando nos meus calcanhares, ainda tentando alcanar minha bolsa. O Sr. Beaumont certamente 
no iria me morder no pescoo tendo seu prprio filho na sala. Eu tinha bastante certeza de que Tad no era vampiro. E ele no parecia o tipo de cara que ficaria 
parado vendo o pai matar a garota com quem estava saindo.
     E, com sorte, o tal de Marcus estaria l. Marcus certamente no deixaria o patro enfiar os caninos em mim.
     No fiquei muito surpresa quando, ao chegarmos  porta do meu quarto, Max subitamente deu meia-volta e, com um ganido, correu na direo oposta. Ele no ficava 
muito empolgado na presena de Jesse.
     E nem Spike ficaria, pensei. Mas Spike no tinha opo.
     Entrei no quarto, tirei a caixa de areia da enorme sacola do Safeway e enfiei debaixo da pia do meu banheiro, depois enchi de areia. Do centro do meu quarto, 
onde tinha deixado a bolsa de livros, vinham uns uivos fantasmagricos. Aquela pata ficava saindo do buraco que Spike tinha aberto a mordidas, tateando em volta 
procurando algo para gadanhar.
     - Eu estou indo o mais rpido possvel - resmunguei enquanto colocava gua numa tigela e depois abria uma lata de comida e deixava num prato no cho, junto 
da gua.
     Depois, me certificando de que puxava o zper para longe de mim, abri a bolsa.
     Spike saiu rasgando tudo como... bem... mais como o Diabo da Tasmnia do que como qualquer gato que eu j tinha visto. Girou pelo quarto trs vezes antes de 
ver a comida, parar escorregando subitamente e comear a comer.
     - O que  isso? - ouvi Jesse dizer.
     Ergui os olhos. No via Jesse desde a briga da noite anterior. Ele estava encostado no balastre da cama - mame tinha viajado na maionese quando decorou meu
quarto, pondo a penteadeira cheia de frescuras, a cama com dossel, a coisa toda - olhando para o gato como se fosse algum tipo de vida aliengena.
     -  um gato - falei. - No tive muita opo.  s at eu achar uma casa para ele.
     Jesse olhou Spike cheio de suspeitas.
     Tem certeza de que  um gato? No parece com nenhum gato que eu tenha visto. Parece mais... como  que chamam? Aqueles cavalos pequenos. Ah, sim, um pnei.
     Tenho certeza de que  um gato. Escute Jesse, eu estou meio encrencada.
     Ele assentiu para Spike.
     Posso ver.
     No tem a ver com o gato - falei rapidamente. - Tem a ver com Tad.
     A expresso de Jesse, que tinha sido bastante agradvel, provocadora, ficou subitamente sombria. Se eu no tivesse certeza de que ele no dava a mnima para 
mim, a no ser como amiga, juraria que estava com cime.
     - Ele est l embaixo - falei rapidamente, antes que Jesse comeasse a gritar comigo de novo por ter sido fcil demais num primeiro encontro. - Com o pai dele. 
Os dois querem que eu v jantar com eles. E no vou conseguir me livrar dessa.
     Jesse murmurou alguma coisa em espanhol. A julgar por sua expresso, o que quer que ele tenha dito no foi exatamente um lamento por no ter sido convidado 
tambm.
     - O negcio - continuei -  que eu descobri umas coisas sobre o Sr. Beaumont, coisas que meio me deixaram... bem, nervosa. De modo que voc poderia... hmm... 
fazer um favor?
     Jesse se empertigou. Pareceu bem surpreso. Realmente eu no costumo pedir favores com freqncia a ele.
     - Claro, hermosa - disse ele, e meu corao deu um ligeiro salto mortal dentro do peito diante do tom carinhoso que ele sempre dava a essa palavra em espanhol. 
Eu nem sabia o que ela significava.
     Por que  que sou to pattica?
     - Olha - falei, com a voz mais esganiada do que nunca, infelizmente. - Se eu no voltar at a meia-noite, ser que voc pode dizer ao padre Dominic que ele 
talvez devesse chamar a polcia?
     Enquanto estivera falando eu havia apanhado uma bolsa nova, uma sacola Kate Spade, e estava colocando dentro as coisas que normalmente uso no trabalho de caa-fantasmas. 
Voc sabe, minha lanterna, torqus, luvas, o rolo de moedas que sempre mantenho no punho desde que mame achou e confiscou meu soco ingls, spray de pimenta, faca 
de caa, e, ah, , um lpis. Era o melhor que eu tinha conseguido no lugar de uma estaca de madeira. Eu no acredito em vampiros, mas acredito em estar preparada.
     - Voc quer que eu fale com o padre?
     Jesse pareceu chocado. Acho que no pude culp-lo. Ainda que eu nunca o tenha proibido exatamente de falar com o padre Dom, tambm nunca encorajei. Certamente 
no lhe tinha dito por que era to relutante em apresentar os dois (certamente o padre Dom teria uma embolia ao saber que morvamos no mesmo quarto), mas eu exatamente 
no lhe tinha dado sinal verde para entrar na sala do padre Dominic.
     - . Quero.
     Jesse ficou confuso.
     - Mas Suzannah... Se ele  to perigoso, esse homem, por que voc...
     Algum bateu na porta do quarto.
     - Suze? - chamou mame. - Voc est vestida?
     Peguei minha bolsa.
     - Estou, mame.
     Ento lancei um ltimo olhar implorante a Jesse e sa correndo do quarto, com cuidado para no deixar Spike sair, agora que tinha acabado de comer e estava 
fuando seriamente o quarto em busca de mais comida.
     No corredor mame me olhou cheia de curiosidade.
     - Est tudo bem, Suze? Voc ficou aqui em cima tanto tempo...
     - Ah, est. Escuta mame...
     Suze, eu no sabia que as coisas estavam to srias com esse garoto. - Mame pegou meu brao e comeou a me guiar escada abaixo. - Ele  to bonito! E um doce! 
 uma coisa linda ele querer que voc jante com ele e com o pai.
     Imaginei como ela teria achado doce se soubesse sobre a Sra. Fiske. Mame era jornalista de televiso h mais de vinte anos. Tinha ganhado uns dois prmios 
nacionais por algumas de suas investigaes e quando comeou a procurar emprego na costa oeste praticamente pde escolher onde trabalharia.
     E uma albina de dezesseis anos com um laptop e um modem sabia muito mais sobre Red Beaumont do que ela.
     Isso  para mostrar que as pessoas s sabem o que querem.
     -  - falei. - Quanto ao Sr. Beaumont, mame. No acho que eu realmente...
     - E que negcio  esse de voc estar escrevendo uma matria para o jornal da escola? Suze, eu no sabia que voc se interessava por jornalismo.
     Minha me pareceu quase to feliz como no dia em que ela e Andy finalmente se casaram. E considerando que isso foi o mais feliz que eu j a vi (pelo menos desde 
que meu pai morreu), era felicidade de monto.
     - Suze, sinto muito orgulho de voc. Voc realmente est se encontrando aqui. Voc sabe como eu me preocupava em Nova York. Voc sempre parecia estar arranjando 
encrenca. Mas parece que as coisas esto realmente mudando... para ns duas.
     Era ento que eu deveria ter dito: "Escute, mame, sabe o Red Beaumont? Certo, definitivamente ele no presta, ele pode ser um vampiro. Pronto, j disse. Agora, 
ser que pode falar a ele que eu estou com enxaqueca e no posso ir jantar?"
     Mas no disse. No podia. S fiquei lembrando aquele olhar do Sr. Beaumont. Ele ia contar  minha me. Ia contar a verdade. Sobre como eu tinha entrado em sua 
casa com motivos falsos, sobre aquele sonho que eu disse que tive.
     Sobre como eu falo com os mortos.
     No. No, isso no ia acontecer. Eu finalmente tinha chegado a um ponto da vida em que mame estava comeando a sentir orgulho de mim, at mesmo a confiar em 
mim. Era meio como se Nova York tivesse sido um pesadelo muito ruim, do qual ela e eu tivssemos finalmente acordado. Aqui na Califrnia eu era popular. Era normal. 
Era maneira. Era o tipo de filha que mame sempre quis, em vez do fardo social que constantemente era arrastada para casa pela polcia por ter invadido lugares e 
criado problemas. Eu no era mais obrigada a mentir para um terapeuta duas vezes por semana. No estava cumprindo deteno permanente. No precisava ouvir mame 
chorando no travesseiro  noite, nem ver que ela comeava a pegar pesado no Valium, escondida,  claro, sempre que chegava a poca das reunies de pais e professores.
     Ei, com a exceo do sumagre venenoso, at minha pele havia melhorado. Eu era uma garota totalmente diferente.
     Respirei fundo.
     - Claro, mame. Claro, as coisas esto mudando para ns.
     
Captulo 13



     Ele no comeu. Ele me convidou para jantar, mas no comeu. Tad comeu. Tad comeu um bocado.
     Bem, os garotos sempre comem. Quero dizer, olha s a hora das refeies no lar Ackerman. Era como uma coisa sada de um romance de Jack London. S que em vez 
de Caninos Brancos e do resto dos ces de tren, voc tinha Soneca, Dunga e at Mestre esganados como se fosse a ltima refeio.
     Pelo menos Tad tinha bons modos. Segurou a cadeira para mim enquanto eu me sentava. At usou guardanapo, em vez de simplesmente enxugar as mos nas calas, 
um dos truques prediletos de Dunga. E se certificou de que eu fosse servida antes, de modo que havia bastante coisa para ns.
     Especialmente porque seu pai no estava comendo.
     Mas ele se sentou conosco. Sentou-se  cabeceira da mesa com uma taa de vinho tinto - pelo menos parecia vinho - e sorria para mim sempre que cada prato era 
apresentado. Voc leu certo. Eu nunca tinha comido uma refeio com vrios pratos. Quero dizer, Andy era um bom cozinheiro e tal, mas em geral servia tudo ao mesmo 
tempo - voc sabe, entrada, salada, croquetes, tudo ao mesmo tempo.
     Na casa de Red Beaumont os pratos vinham individualmente, servidos por garons com grandes floreios; dois garons, de modo que os nossos pratos - quero dizer, 
de Tad e meu - eram servidos ao mesmo tempo, e a comida de ningum ficava fria enquanto estava esperando que todos fossem servidos.
     O primeiro prato foi um consom, que por acaso tinha pedacinhos de lagosta flutuando dentro. Foi muito bom. Depois veio um tipo de escalope chique de peixe 
num molho verde picante. Depois veio carneiro acompanhado de pur de batata com alho, depois salada - uma mistura de ervas com vinagre balsmico em cima - seguida 
por uma bandeja em que havia um monte de tipos de queijos fedorentos.
     E o Sr. Beaumont no tocou em nada. Disse que estava numa dieta especial e que j tinha jantado.
     E mesmo eu no acreditando em vampiros, s fiquei ali sentada, imaginando em que consistiria sua dieta especial e se a Sra. Fiske e aqueles ecologistas desaparecidos 
tinham proporcionado alguma parte dela.
     Eu sei. Eu sei. Mas no podia evitar. Estava me assustando o modo como ele s ficava ali sentado bebendo vinho e sorrindo enquanto Tad falava de basquete. Pelo 
que pude perceber - e eu estava tendo dificuldade para me concentrar, pensando em por que o padre Dom no tinha me dado uma garrafa de gua benta quando percebeu 
que poderia haver a chance de estarmos lidando com um vampiro - Tad era o astro principal de Robert Louis Stevenson.
     Enquanto eu estava ali sentada ouvindo Tad falar de todas as cestas de trs pontos que tinha marcado, percebi com o corao oprimido que no somente ele podia 
ser descendente de um vampiro, mas tambm que, a no ser pelo beijo, eu e ele no tnhamos interesses mtuos. Quero dizer, eu no tenho l muito tempo para hobbies, 
com o dever de casa e o negcio de mediadora, mas estava certa de que, se tivesse algum interesse, no seria por perseguir uma bola de um lado para o outro numa 
quadra com piso de madeira.
     Mas talvez beijar bastasse. Talvez beijar fosse a nica coisa que importasse, de qualquer modo. Talvez beijar suplantasse todo o negcio de vampiro/basquete.
     Porque quando nos levantamos da mesa para ir  sala de estar, onde fiquei sabendo que a sobremesa seria servida, Tad pegou minha mo - que, a propsito, ainda 
estava meio atacada pelo sumagre venenoso, mas ele evidentemente no se importava, pois ainda havia uma bela quantidade daquilo na sua nuca, afinal de contas - e 
a apertou.
     E de repente fiquei convencida de que tinha reagido com exagero l em casa quando pedi a Jesse que mandasse o padre Dom chamar os canas se eu no estivesse 
em casa  meia-noite. Quero dizer, , havia gente que poderia pensar que Red Beaumont era vampiro, e ele certamente podia ter feito fortuna de um modo assustador.
     Mas isso no o tornava necessariamente um mau sujeito. E ns no tnhamos prova de que ele realmente havia matado aquelas pessoas. E quanto  mulher morta que 
ficava aparecendo no meu quarto? Ela estava convencida de que Red no a havia matado. Tinha se esforado bastante para me garantir que ele era inocente da morte, 
pelo menos. Talvez o Sr. Beaumont no fosse to mau assim.
     - Eu pensei que voc estava com raiva de mim - sussurrou Tad enquanto seguamos Yoshi, que estava carregando uma bandeja de caf - mais ch de ervas para mim 
- at a sala de estar.
     - Por que eu estaria com raiva de voc?
     - Bem, ontem  noite - sussurrou Tad - quando eu estava beijando voc...
     De repente me lembrei de como tinha visto Jesse sentado ali, e de como tinha berrado feito uma doida. Ruborizando, falei, incapaz de encarar Tad:
     - Ah, aquilo. Foi s que... eu pensei... que tinha visto uma aranha.
     - Uma aranha? - Tad me puxou para um sof de couro preto ao lado dele. Na frente do sof havia uma grande mesa de centro que parecia feita de plexiglas. - No 
meu carro?
     Eu tenho uma coisa com aranhas.
     Ah. - Tad me espiou com seus olhos castanhos sonolentos. - Eu pensei que voc tinha achado que eu... bem, avancei um pouco demais. Beijando voc assim.
     Ah, no - falei com um riso que esperei que parecesse sofisticado, como se os caras vivessem enfiando a lngua na minha boca o tempo todo.
     - Bom - disse Tad, e ps o brao em volta do meu pescoo e comeou a me puxar...
     Mas ento seu pai entrou e disse:
     - Bom, onde  que ns estvamos? Ah, sim. Suzannah, voc ia contar como sua turma est tentando levantar dinheiro para restaurar a esttua do padre Serra que 
infelizmente foi vandalizada na semana passada...
     Tad e eu nos separamos rapidamente.
     Ah, claro - falei. E comecei a contar uma histria longa e chata, que na verdade era uma tremenda cascata. Enquanto estava contando, Tad estendeu a mo para 
a enorme mesa de vidro  sua frente e pegou uma xcara de caf. Ps creme e acar dentro e tomou um gole.
     - E ento - falei, realmente convencida de que a coisa toda tinha sido um enorme mal-entendido (quero dizer, a coisa sobre o pai de Tad). - Ns descobrimos 
que  mais barato fundir uma esttua inteira nova do que consertar a antiga, mas a no seria uma obra autntica de... bem, sei l quem  o artista, esqueci. Ento 
ns ainda estamos tentando decidir. Se consertarmos a antiga, haver uma emenda aparecendo no pescoo, mas a gente poderia esconder a emenda se levantasse a gola 
da batina do padre Serra. De modo que est havendo uma disputa entre preciso histrica e uma batina de gola alta, e...
     Foi nesse ponto da minha narrativa que de repente Tad se lanou para frente e caiu de cara no meu colo.
     Olhei-o assustada. Ser que eu era to chata assim? Meu Deus, no era de espantar que ningum tivesse me convidado para sair antes.
     Foi ento que percebi que Tad no estava dormindo. Estava inconsciente.
     Olhei para o Sr. Beaumont, que ficou observando tristonho o filho, sentado no sof de couro diante de mim.
     - Ah, meu Deus - falei.
     O Sr. Beaumont suspirou.
     - Age rpido, no ? - disse ele.
     Horrorizada, exclamei:
     - Meu Deus, envenenar o prprio filho!
     - Ele no foi envenenado - disse o Sr. Beaumont, parecendo perplexo. - Voc acha que eu faria uma coisa assim com meu prprio garoto? Ele est meramente drogado,
apenas. Dentro de algumas horas vai acordar e no se lembrar de nada. S vai se sentir muito descansado.
     Eu estava lutando para tirar Tad de cima de mim. O cara no era enorme nem nada, mas era um peso morto, e no estava sendo fcil tirar sua cabea do meu colo.
     - Escute - falei ao Sr. Beaumont enquanto lutava para me espremer de baixo de seu filho -  melhor no tentar nada.
     Com uma das mos eu empurrei Tad e com a outra abri escondido minha bolsa. No a havia deixado longe da minha vista desde que entrei na casa, apesar de Yoshi 
ter tentado peg-la e guardar junto com o casaco. Alguns borrifos de spray de pimenta, decidi, serviriam muito bem ao Sr. Beaumont no caso de ele tentar alguma coisa 
fsica.
     - Estou falando srio - garanti, enquanto enfiava a mo na bolsa e remexia dentro procurando o spray de pimenta.
     - Seria m idia mexer comigo, Sr. Beaumont. Eu no sou quem o senhor pensa.
     O  Sr. Beaumont s me olhou mais triste ao ouvir isso. Falou com outro grande suspiro:
     - Nem eu.
     - No - falei. Eu tinha achado o spray de pimenta e agora, com uma das mos, tirei a tampinha plstica. - O senhor acha que eu no passo de uma garota estpida 
que seu filho trouxe para jantar em casa. Mas no sou.
     - Claro que no  - disse o Sr. Beaumont. - Por isso era to importante que eu falasse com voc de novo. Voc fala com os mortos e eu, veja bem...
     Encarei-o cheia de suspeitas.
     - O senhor o qu?
     - Bem. - Ele pareceu embaraado. - Eu os deixo desse jeito.
     O que aquela dona idiota no meu quarto quis dizer quando insistiu que ele no tinha tentado mat-la? Claro que tinha! Assim como tinha matado a Sra. Fiske!
     Exatamente como estava se preparando para me matar.
     - No pense que eu no aprecio o seu senso de humor, Sr. Beaumont. Porque aprecio. Realmente. Acho o senhor um sujeito muito engraado. De modo que espero que 
no leve para o lado pessoal...
     E dei uma borrifada nele, bem na cara.
     Ou pelo menos tentei. Segurei a lata na direo dele e apertei o boto. S que tudo que saiu foi um barulho tipo spliff.
     Mas nada de spray de pimenta paralisante. Nenhum.
     E ento me lembrei daquele frasco de fixador Paul Michel que tinha vazado no fundo da minha bolsa na ltima vez em que estive na praia. Aquela coisa, misturada 
com a areia, tinha melado praticamente tudo que eu possua. E agora parecia que tinha coberto o buraco por onde o spray de pimenta deveria sair.
     - Ah - disse o Sr. Beaumont. Ele parecia muito desapontado comigo. - Spray de pimenta? Isso  justo, Suzannah?
     Eu sabia o que tinha de fazer. Larguei a lata intil e comecei a correr...
     Mas era tarde demais. Ele saltou - to de repente que eu nem tive tempo de me mexer - e segurou meu pulso num aperto que, vou lhe contar, doeu um bocado.
     -  melhor me soltar - alertei. - Estou falando srio. O senhor vai se arrepender.
     Mas ele me ignorou e falou, com um mnimo de animosidade, quase como se eu no tivesse tentado paralisar as suas mucosas:
     - Lamento se eu pareci petulante - falou em tom de desculpas. - Mas fui sincero. Infelizmente cometi alguns erros de julgamento muito srios que resultaram 
em vrias pessoas perderem a vida, e nas minhas mos...  imperativo que voc me ajude a falar com elas, para garantir que eu lamento muito, lamento muito o que 
fiz.
     Olhei de soslaio para ele.
     - Certo. Chega. Vou embora daqui.
     Mas no importando com que fora eu puxasse meu brao, no podia me soltar daquele torno. O sujeito era surpreendentemente forte para o pai de algum.
     - Eu sei que para voc eu pareo horrvel - continuou ele.
     - At mesmo um monstro. Mas no sou. Realmente no sou.
     - Diga isso  Sra. Fiske - grunhi enquanto puxava o brao. O Sr. Beaumont no pareceu ter ouvido.
     - Voc no imagina como . As horas que passei me torturando com relao ao que fiz...
     Com a mo livre eu estava remexendo na bolsa de novo. Bem, eu sempre soube que uma boa receita para a culpa  confessar. - Meus dedos se fecharam sobre o rolo 
de moedas. No. No adiantava. Ele estava segurando meu brao bom de soco. - Por que no me deixa dar um telefonema e ns podemos chamar a polcia, e o senhor pode 
contar tudo. Que tal?
     No - disse o Sr. Beaumont, solene. - No serve. Eu duvido muito que a polcia teria algum respeito por algum com minhas necessidades um tanto... bem, especiais.
     E ento o Sr. Beaumont fez uma coisa totalmente inesperada. Sorriu para mim. Um sorriso triste, mas ainda assim um sorriso.
     Ele havia sorrido para mim antes, claro, mas eu sempre estivera do outro lado da sala, ou pelo menos do outro lado de uma mesa de centro. Agora eu estava bem 
ali, bem na sua cara.
     E quando ele sorriu eu recebi aquele vislumbre especial de uma coisa que certamente nunca esperava ver em toda a vida.
     Os incisivos mais pontudos da histria.
     Certo, vou admitir: eu pirei. Posso ter lutado contra fantasmas a vida inteira, mas isso no significava que estivesse preparada para encontrar um vampiro ao 
vivo. Quero dizer, os fantasmas, eu sabia por experincia prpria, eram verdadeiros.
     Mas vampiros? Vampiros eram coisa de pesadelo, criaturas mitolgicas como o P-Grande e o monstro do Lago Ness. Quero dizer, qual ?
     Mas ali, bem na minha frente, dando um sorriso completamente doentio do tipo "meu filho  um aluno modelo", estava um vampiro de verdade, em carne e osso.
     Agora eu sabia por que, quando Marcus tinha aparecido naquele dia na sala do Sr. Beaumont, ficou olhando meu pescoo. Estivera verificando se seu chefe no 
tinha tentado partir para cima da minha jugular.
     Acho que por isso, considerando que minha mo livre ainda estava dentro da bolsa a tiracolo, eu fiz o que fiz em seguida.
     Peguei o lpis que tinha posto ali no ltimo minuto, peguei e mergulhei, com toda a fora, no centro do suter do Sr. Beaumont.
     Por um segundo ns dois nos imobilizamos. O Sr. Beaumont e eu ficamos olhando o lpis que se projetava de seu peito.
     Ento o Sr. Beaumont falou, numa voz muito surpresa:
     - Minha nossa.
     Ao que eu respondi:
     - V se catar.
     E ento ele tombou para frente, errando a mesa de vidro apenas por alguns centmetros, e terminou no cho entre o sof e a lareira.
     Onde ficou imvel por longos instantes, durante os quais eu s fiz massagear o pulso que ele havia agarrado com tanta fora.
     Depois de um tempo notei que ele no se encolheu virando cinzas como os vampiros faziam na TV. Nem explodiu em chamas como os vampiros do cinema costumam fazer. 
Em vez disso s ficou ali.
     E ento, pouco a pouco, a realidade do que eu tinha feito baixou sobre mim.
     Eu tinha acabado de matar o pai do meu namorado.

Captulo 14



     Bem, em certo Tad no era exatamente meu namorado e eu tinha acreditado honestamente que seu pai era um vampiro.
     Mas sabe de uma coisa? No era. E eu tinha matado o cara.
     At que ponto isso me tornaria impopular?
     E uma pequena bolha de histeria comeou a subir na minha garganta. Dava para ver que eu ia gritar. Realmente no queria. Mas ali estava eu, numa sala com um
garoto inconsciente e seu pai psicopata, cujo corao eu tinha acabado de atravessar com um lpis n 2. Eu no conseguia deixar de ficar pensando: sabe, eles vo 
me chutar direitinho do diretrio estudantil...
     Qual . Voc tambm teria comeado a gritar.
     Mas nem bem enchi o pulmo de ar e estava me preparando para solt-lo num berro que com toda a certeza traria correndo Yoshi e todos aqueles garons que tinham 
servido o jantar e algum parado atrs de mim perguntou incisivo:
     - O que aconteceu aqui?
     Girei. E ali, parecendo perplexo, estava Marcus, o secretrio de Red Beaumont.
     Falei a primeira coisa que me veio  cabea, que foi:
     - Eu no queria fazer isso, juro. S que ele estava me apavorando, por isso eu enfiei o lpis nele.
     Marcus, vestido como da ltima vez em que eu o tinha visto, de terno e gravata, veio rapidamente para mim. No para o chefe, que estava esparramado no cho. 
Mas para mim.
     - Voc est bem? - perguntou, me agarrando pelos ombros e olhando meu corpo de cima a baixo... mas principalmente meu pescoo. - Ele machucou voc?
     O rosto de Marcus estava branco de ansiedade.
     - Eu estou bem - falei. Estava comeando a sentir um n na garganta. -  com o seu chefe que voc deveria estar preocupado... - Meu olhar foi na direo de 
Tad, ainda de cara para baixo no sof. - Ah, e o filho dele. Ele envenenou o filho.
     Marcus foi at Tad e abriu uma das plpebras. Depois se curvou e ouviu a respirao dele.
     - No - falou quase para si mesmo. - No envenenou.
     - S drogou.
     - Ah - falei com um riso nervoso. - Ah, ento tudo bem.
     Que diabo estava acontecendo aqui? Esse cara era de verdade?
     Parecia. Obviamente estava muito preocupado. Empurrou a mesa de centro para fora do caminho, depois se curvou e virou o chefe.
     Tive de desviar o olhar. Achei que no suportaria ver aquele lpis se projetando do peito do Sr. Beaumont. Quero dizer, eu tinha acertado fantasmas no peito 
com todo tipo de coisas - picaretas, facas de aougueiro, paus de barraca, qualquer coisa que estivesse  mo. Mas o negcio com os fantasmas  que... bem, eles 
j esto mortos. O pai de Tad estava vivo quando eu cravei o lpis nele.
     Ah, meu Deus, por que eu deixei o padre Dom colocar aquela estpida idia de vampiro na minha cabea? Que tipo de idiota acredita em vampiros? Eu devia estar 
pirada.
     - Ele est... - eu mal podia desembuchar a pergunta.
     Tinha de manter o olhar em Tad porque, se olhasse para o pai dele, iria botar para fora todo aquele cordeiro e a salada mista. Mesmo na minha ansiedade no 
pude deixar de ver que, inconsciente, Tad ainda era um gato. Certamente no estava babando nem nada. - Ele est morto?
     E pensei que mame ficaria furiosa se descobrisse sobre a coisa de ser mediadora. Voc imagina como ela ficaria furiosa se descobrisse que eu sou uma assassina 
adolescente?
     A voz de Marcus pareceu surpresa.
     - Claro que ele no est morto. S desmaiou. Voc deve ter dado um tremendo susto nele.
     Espiei na direo de Marcus. Ele tinha se levantado e estava parado ali, com meu lpis na mo. Desviei o olhar rapidamente, com o estmago revirando.
     - Foi isso que voc usou nele? - perguntou Marcus numa voz esquisita. Quando assenti em silncio, ainda no querendo olhar na sua direo para o caso de ter 
um vislumbre do sangue do Sr. Beaumont, ele disse: - No se preocupe. No entrou muito fundo. Voc acertou o esterno.
     Meu Deus. Foi timo Red Beaumont no ser um vampiro de verdade, caso contrrio eu estaria seriamente encrencada. Nem era capaz de enfiar uma estaca direito 
num cara. Realmente devia estar perdendo o jeito.
     Como aconteceu, tudo que consegui foi bancar a completa panaca. Ainda sentindo aquela bolha de histeria no peito, a qual culpei pelo meu balbuciar incoerente, 
falei:
     - Ele envenenou Tad, depois me agarrou, e eu pirei de vez...
     Marcus deixou o corpo inconsciente do chefe e ps a mo no meu brao, num gesto reconfortante.
     - Shh, eu sei, eu sei - falou numa voz tranqilizadora.
     - Eu sinto muito, de verdade - continuei arengando. - Mas ele tinha aquela coisa com a luz do sol, depois no quis comer e quando sorriu tinha aqueles dentes 
pontudos, e eu realmente pensei...
     -... que ele era um vampiro.
     Para minha surpresa, Marcus terminou a frase.
      - Eu sei Srta. Simon.
     Sinto vergonha de admitir, mas a verdade  que eu estava  beira de abrir o berreiro. Mas a admisso de Marcus me fez esquecer toda a nsia de desmoronar em 
soluos enormes.
     - Voc sabe - ecoei, olhando-o incrdula.
     Ele assentiu. Sua expresso era sria.
     -  o que os mdicos dele chamam de fixao. Ele est tomando medicamentos para isso e na maior parte dos dias fica bem. Mas algumas vezes, quando no temos 
cuidado, ele deixa de tomar uma dose e... bem, voc mesma pode ver os resultados. Ele se convence de que  um vampiro perigoso que matou dzias de pessoas...
     - . Ele mencionou isso tambm. - E tambm tinha parecido bastante perturbado.
     - Mas eu garanto, Srta. Simon, que de modo algum ele  uma ameaa  sociedade. Na verdade ele  bem inofensivo... nunca fez mal a ningum.
     Meu olhar foi na direo de Tad. Marcus deve ter notado, porque acrescentou rapidamente:
     - Bem, s digamos que ele nunca causou nenhum dano permanente.
     Dano permanente? Seu prprio pai lhe dar um sonfero no era considerado dano permanente por aqui? E como isso explica a Sra. Fiske e todos aqueles ambientalistas 
desaparecidos?
     - Nem sei como pedir desculpas a voc, Srta. Simon - estava dizendo Marcus. Ele passou o brao em volta de mim e estava me afastando do sof, e, veja s, para 
a entrada. - Sinto muito voc ter testemunhado essa cena perturbadora.
     Olhei por cima do ombro. Atrs de mim Yoshi tinha aparecido. Ele virou Tad de modo a no ficar com a cara esmagada no sof, depois colocou um cobertor em cima 
dele enquanto dois outros caras levantavam o Sr. Beaumont. Ele murmurou alguma coisa e girou a cabea.
     No estava morto. Definitivamente no estava morto.
     - Claro, no preciso dizer que nada disso teria acontecido... - Marcus no parecia to pedindo desculpas quanto antes - se voc no tivesse pregado aquela pequena 
pea nele ontem  noite. O Sr. Beaumont no  um homem bem de sade. Ele se agita muito facilmente. E uma coisa que o deixa particularmente agitado  qualquer meno 
a coisas ocultas. O suposto sonho que voc descreveu a ele s serviu para provocar outro ataque da doena.
     Eu senti que tinha de, pelo menos, tentar me defender. Por isso falei:
     - Bom, como  que eu iria saber disso? Quero dizer, se ele tende a ter esses ataques, por que no o mantm trancado?
     - Porque no estamos na Idade Mdia, moa.
     Marcus tirou o brao dos meus ombros e ficou me olhando muito seriamente.
     - Hoje em dia os mdicos preferem tratar as pessoas que sofrem de desordens como a do Sr. Beaumont com medicao e terapia, em vez de mant-lo isolado da famlia. 
O pai de Tad pode viver e trabalhar normalmente, at mesmo bem, desde que menininhas que no sabem o que  bom para elas fiquem com o nariz longe dos negcios dele.
     Argh! Essa foi m. Eu tinha de lembrar a mim mesma que no era a bandida aqui. Quero dizer, no era eu que andava por a insistindo em que era um vampiro.
     E no tinha feito um punhado de gente desaparecer porque elas haviam entrado no meu caminho de construir outro shopping.
     Mas mesmo enquanto pensava isso, imaginei se seria verdade. Quero dizer, o pai de Tad no parecia ter engrenagens suficientes na cabea para organizar uma coisa 
to sofisticada quanto seqestro e assassinato. Ou meu esquisitmetro estava pifado ou havia alguma coisa seriamente errada aqui... e uma mera "fixao" no explicava 
isso. E quanto  Sra. Fiske, pensei. Ela estava morta e o Sr. Beaumont a havia matado - ela mesma disse. Marcus estava obviamente tentando diminuir a seriedade da 
psicose de seu patro.
     Estaria mesmo? Um homem que desmaiava s porque uma garota o cutucava com um lpis no parecia exatamente do tipo que realizaria com sucesso um assassinato. 
Seria possvel que ele no estivesse sofrendo de sua "desordem" atual quando apagou a Sra. Fiske e aquelas outras pessoas?
     Eu ainda estava tentando solucionar isso tudo quando Marcus, que tinha me acompanhado  porta da frente, pegou meu casaco. Ele me ajudou a vesti-lo e disse:
     - Aikilu vai levar voc para casa, Srta. Simon.
     Olhei em volta e vi outro japons, todo vestido de preto, perto da porta da frente. Ele fez uma reverncia educada para mim.
     - E vamos deixar uma coisa clara.
     Marcus ainda estava falando comigo em tom paternal. Parecia irritado, mas no realmente furioso.
     - O que aconteceu aqui esta noite foi muito estranho,  verdade. Mas ningum se machucou...
     Ele deve ter notado meu olhar ir na direo de Tad, ainda desmaiado no sof, j que acrescentou:
     - Pelo menos no se machucou seriamente. Por isso acho que seria bom voc ficar de boca fechada com relao ao que viu aqui. Porque se decidir contar a algum 
o que viu - Marcus continuou de um modo que quase poderia ser chamado de amigvel - claro que eu terei de contar aos seus pais sobre aquela pea infeliz que voc 
pregou no Sr. Beaumont... e fazer uma denncia formal de agresso contra voc, claro.
     Minha boca se abriu. Eu percebi isso, depois de um segundo, e fechei-a de novo.
     - Mas ele... - comecei.
     Marcus me interrompeu:
     - Foi mesmo? - Ele me olhou de modo significativo. - Foi mesmo? No h testemunhas desse fato, alm de voc.
     - E voc realmente acredita que algum vai aceitar a palavra de uma pequena delinqente juvenil como voc contra a de um empresrio respeitvel?
     O sacana tinha me pego, e sabia disso.
     Ele sorriu para mim, com um brilhozinho triunfante no olho.
     - Boa noite, Srta. Simon.
     Provando de novo que a vida de mediadora no  l essas coisas: eu nem pude ficar para a sobremesa.

Captulo 15



     Largada com quase tanta cerimnia quanto um jornal enrolado numa manh de domingo, subi a entrada de veculos. Tinha sentido um pouco de medo de Marcus mudar
de idia quanto a no fazer uma denncia que nossa casa estivesse cercada de policiais que viriam me pegar por ter agredido o Sr. Beaumont.
     Mas ningum pulou em cima de mim saindo de trs dos arbustos com a arma apontada, o que era bom sinal.
     Assim que entrei, minha me partiu para cima, querendo saber como tinha sido na casa dos Beaumont. O que tnhamos comido no jantar? Como era a decorao? Tad 
tinha me convidado ao baile de formatura?
     Eu me declarei com sono demais para falar e fui direto para o quarto. S conseguia pensar em como, diabos, provaria ao mundo que Red Beaumont era um assassino 
de sangue frio.
     Bem, certo, talvez no de sangue frio, j que evidentemente sentia remorso pelo que tinha feito. Mas mesmo assim era um assassino.
     Eu tinha esquecido, claro, de meu novo colega de quarto. Quando me aproximei da porta, vi Max sentado na frente dela, com a lngua enorme pendendo. Havia marcas 
de arranhado em toda a porta, onde ele havia tentado entrar a unhadas. Acho que o fato de haver um gato l dentro era mais forte do que o de haver tambm um fantasma.
     - Cachorro mau! - falei quando vi os arranhes.
     Instantaneamente a porta de Mestre, do outro lado do corredor, se abriu.
     - Voc est com um gato a dentro? - perguntou, mas no como uma acusao. Mais como se estivesse realmente interessado, de um ponto de vista cientfico.
     - Hmm. Talvez.
     -Ah. Eu estava pensando nisso. Porque geralmente Max, voc sabe, fica longe do seu quarto. Voc sabe por qu.
     Mestre arregalou os olhos significativamente. Quando me mudei para c, ele tinha se oferecido cheio de cavalheirismo para trocar de quarto comigo, j que o 
meu, pelo que ele observou, tinha um ponto frio ntido, indicao clara de que era centro de atividade paranormal. Mesmo optando por ficar com o quarto, fiquei impressionada 
com o sacrifcio pessoal de Mestre. Seus dois irmos mais velhos certamente no seriam to generosos.
     -  s por uma noite - garanti. - O gato, quero dizer.
     - Ah. Bem, isso  bom. Porque voc sabe que Brad sofre de uma reao alrgica a caspa de gato. Os alergnicos, ou as substncias que produzem alergia, causam 
a liberao da histamina, um composto orgnico responsvel pelos sintomas alrgicos. H uma variedade de alergnicos, como os de contato - como sumagre venenoso 
- ou os que so transportados pelo ar, como a sensibilidade de Brad a caspa de gato. O tratamento padro, claro,  evitar, se possvel, o alergnico.
     Pisquei para ele.
     - Vou lembrar disso.
     Mestre sorriu.
     - timo. Bem, boa noite. Venha, Max.
     Ele arrastou o cachorro para longe e eu entrei no meu quarto.
     E descobri que o novo colega tinha fugido da cadeia. Spike tinha sumido e a janela aberta indicava como ele havia escapado.
     - Jesse - murmurei.
     Jesse vivia abrindo e fechando minha janela. Eu a abria  noite e descobria de manh que estava fechada. Em geral eu apreciava isso, porque a nvoa da manh 
que vinha da baa costumava ser glida.
     Mas agora suas boas intenes tinham resultado na fuga de Spike.
     Bem, eu no iria procurar aquele gato estpido. Se ele quisesse voltar, sabia o caminho. Se no, eu achei que tinha cumprido com meu dever, pelo menos com relao 
a Timothy.
     Tinha achado seu bichinho desgraado e o trazido para a segurana. Se aquela coisa estpida se recusava a ficar, isso no era problema meu.
     Estava me preparando para entrar na banheira quente, soltando fumaa - penso melhor submersa em gua com sabo - quando o telefone tocou. No atendi, claro, 
porque o telefone quase nunca toca para mim. Em geral  Debbie Mancuso - apesar dos protestos de Dunga, de que os dois no estavam namorando - ou uma dentre a multido 
de garotas cheias de risinhos que ligavam procurando Soneca... que nunca estava em casa devido  sua exaustiva programao de entregas de pizza.
     Mas dessa vez eu ouvi minha me gritar escada acima que era o padre Dominic, para falar comigo. Mame, apesar do que voc possa pensar, no considera nem um 
pouco estranho eu viver recebendo telefonemas do diretor da escola. Graas a eu ser vice-presidente da turma e chefe do comit para a Restaurao da Cabea de Junipero 
Serra, na verdade h alguns motivos completamente incuos para o diretor querer me ligar.
     Mas o padre Dom nunca me liga para discutir qualquer coisa remotamente relacionada  escola. S telefona quando quer pegar no meu p por causa de alguma coisa 
relativa  mediao.
     Antes que eu atendesse pela extenso do meu quarto, me perguntei - irritada, j que estava usando apenas uma toalha e suspeitava de que a gua do banho estaria 
fria quando finalmente eu entrasse nela - o que tinha feito dessa vez.
     E ento, como se eu j tivesse entrado na banheira e descoberto que ela estava gelada, arrepios subiram pelas minhas costas.
     Jesse. Minha discusso apressada com Jesse antes de ir para a casa de Tad. Jesse tinha ido procurar o padre Dominic.
     No, ele no teria feito isso. Eu disse para no fazer. A no ser que eu no estivesse de volta at a meia-noite. E eu tinha chegado em casa s dez. Antes, 
at. Quinze para as dez.
     No podia ser isso, disse a mim mesma. No podia ser. O padre Dominic no sabia sobre Jesse. No sabia de nada.
     Mesmo assim, quando falei al, estava hesitante.
     A voz do padre Dominic saiu calorosa.
     - Ah, ol, Suzannah - falou num jorro. - Desculpe ligar to tarde, s que eu precisava discutir a reunio do conselho de estudantes de ontem com voc...
     - Tudo bem, padre Dom, mame desligou o telefone l de baixo.
     A voz do padre Dominic mudou completamente. No era mais calorosa. Na verdade era muito indignada.
     - Suzannah! Por mais que eu aprecie saber que voc est bem, gostaria de saber quando voc pretendia me contar sobre esse tal de Jesse, se  que ia contar.
     Epa.
     - Ele disse que est morando no seu quarto desde que voc se mudou para a Califrnia h vrias semanas e que durante todo esse tempo voc tinha perfeita conscincia 
desse fato.
     Tive de afastar o telefone do ouvido. Eu sempre soubera, claro, que o padre Dominic ficaria furioso ao descobrir sobre Jesse. Mas no imaginava que fosse pirar 
tanto.
     -  a coisa mais ultrajante que eu j ouvi. - O padre Dom estava realmente pegando pesado. - O que sua pobre me diria se soubesse? Simplesmente no sei o que 
vou fazer com voc, Suzannah. Pensei que voc e eu tnhamos estabelecido uma certa confiana no nosso relacionamento, mas este tempo todo voc vinha mantendo o tal 
de Jesse em segredo...
     Felizmente naquele momento o sinal de chamada em espera soou. Falei:
     - Ah, d pra esperar um minuto, padre Dom?
     Enquanto apertava o boto para receber a chamada, ouvi- o dizer:
     - No me ponha na espera enquanto estou falando com voc, mocinha...
     Eu esperava que Debbie Mancuso estivesse na outra linha, mas, para minha surpresa, era Cee Cee.
     - Ei, Suze - disse ela. - Andei fazendo mais algumas pesquisas sobre o pai do seu namorado...
     - Ele no  meu namorado - falei automaticamente. Ainda mais agora.
     - , certo, seu futuro namorado, ento. De qualquer modo, achei que voc se interessaria em saber que depois que a mulher dele, a me de Tad, morreu h dez 
anos, as coisas realmente comearam a despencar morro abaixo para o Sr. Beaumont.
     Levantei as sobrancelhas.
     - Morro abaixo? Tipo o qu? No financeiramente. Quero dizer, se voc visse onde eles moram...
     - No, no financeiramente. Quero dizer que depois de ela ter morrido (cncer no seio, diagnosticado tarde demais; no se preocupe, ningum a matou) o Sr. Beaumont 
meio que perdeu o interesse por todas as suas muitas empresas e comeou a se isolar.
     Ah. Provavelmente foi quando comeou sua "desordem". 
     - Mas aqui est a parte realmente interessante - disse Cee Cee. Eu podia ouvi-la batucando no teclado. - Foi mais ou menos nessa poca que Red Beaumont repassou 
quase todas as responsabilidades para o irmo.
     - Irmo?
     - . Marcus Beaumont.
     Fiquei genuinamente surpresa. Marcus era irmo do Sr. Beaumont? Eu tinha achado que ele era um mero lacaio. Mas no. Era o tio de Tad.
     -  o que diz. O Sr. Beaumont, o pai de Tad, ainda  a figura de proa, mas esse outro Sr. Beaumont  quem realmente comanda as coisas nos ltimos dez anos.
     Congelei.
     Ah, meu Deus. Ser que eu entendi errado?
     Talvez no tivesse sido o Sr. Beaumont que matou a Sra. Fiske. Talvez tivesse sido Marcus. O outro Sr. Beaumont.
     O Sr. Beaumont matou a senhora? - foi o que eu perguntei  Sra. Fiske. E ela disse que sim. Mas para ela o Sr. Beaumont poderia ter sido Marcus e no o coitado 
do aspirante a vampiro Red Beaumont.
     No, espera. O pai de Tad tinha me dito na bucha que lamentava ter matado todas aquelas pessoas. Que sua motivao para me convidar tinha sido essa o tempo 
todo: ele esperava que eu o ajudasse a se comunicar com suas vtimas.
     Mas o pai de Tad tinha claramente alguns parafusos a menos. No acreditava que ele pudesse ter matado uma barata, quanto mais um ser humano.
     No, quem quer que tivesse matado a Sra. Fiske e aquelas outras pessoas tinha inteligncia suficiente para cobrir os prprios rastros... e o pai de Tad no 
era nenhum Daniel Boone, vou lhe contar.
     O irmo dele, por outro lado...
     - Eu estou tendo uma sensao bem estranha com isso tudo - estava dizendo Cee Cee. - Quero dizer, sei que ns no podemos provar nada. E, apesar do que Adam 
diz,  muito improvvel que qualquer contribuio de minha tia Pru seja aceitvel no tribunal. Mas acho que temos uma obrigao moral...
     O sinal de ligao em espera soou de novo. O padre Dom. Eu tinha esquecido do padre Dom. Ele havia desligado em fria e estava ligando de volta. 
     - Cee Cee - falei, ainda me sentindo meio atordoada. - A gente fala amanh sobre isso na escola, certo?
     - Certo. Mas s quero dizer, voc sabe, Suze, acho que a gente esbarrou numa coisa grande.
     Grande? Experimente formidolosa. Mas no era o padre Dominic na outra linha, como descobri depois de apertar o boto. Era Tad.
     - Sue? - disse ele. Ainda parecia meio grogue.
     E ainda parecia ter apenas uma leve idia de qual era o meu nome.
     - Hmm, oi, Tad.
     - Sue, eu sinto muito. - Tonteira  parte, ele parecia sincero. - No sei o que aconteceu. Acho que eu estava mais cansado do que pensei. Voc sabe, nos treinos 
eles pegam muito pesado com a gente e algumas noites eu apago antes dos outros...
     , disse comigo mesma. Aposto que sim.
     - No se preocupe - falei. Tad tinha muito mais coisas com que se preocupar do que com cair no sono durante um encontro.
     - Mas eu quero compensar - insistiu ele. - Por favor, deixa eu compensar. O que voc vai fazer no sbado  noite?
     Sbado  noite? Esqueci tudo sobre esse cara ser parente de um possvel assassino em srie. O que isso importava? Ele estava me convidando para sair. Um encontro. 
Um encontro de verdade. No sbado  noite. Vises de luz de vela e beijos de lngua danaram na minha cabea. Eu mal podia falar, de to lisonjeada.
     - Eu tenho um jogo - continuou Tad - mas achei que voc poderia me ver jogar, e depois a gente poderia ir comer uma pizza com o resto dos caras ou alguma coisa 
assim.
     Minha empolgao teve uma mortezinha rpida.
     Ser que ele estava brincando? Queria que eu fosse v-lo jogar basquete? Depois ir com ele e o resto do time? Comer pizza! Eu nem era digna de um hambrguer? 
Puxa, nesse ponto eu aceitaria at um croquete, cara.
     - Sue - disse Tad quando eu no falei nada imediatamente. - Voc no est com raiva de mim, est? Quero dizer, eu realmente no pretendia dormir na sua frente.
     O que eu estava pensando, afinal? A coisa nunca daria certo entre ns. Quero dizer, eu sou uma mediadora. O pai dele  um vampiro. O tio dele um assassino. 
E se a gente se casasse? Imagine como nossos filhos iriam sair...
     Confusos. Muito confusos.
     Meio tipo Tad.
     - No  que voc estivesse me chateando nem nada - continuou ele. - Verdade. Bem, quero dizer, aquela coisa que voc estava falando era meio chata, o negcio 
da esttua com a cabea que precisava ser colada de volta. A histria, quero dizer. Mas voc no. Voc no  chata, Susan. No foi por isso que eu ca no sono, juro.
     - Tad - falei, irritada por quantas vezes ele tinha sentido necessidade de garantir que eu no o havia chateado, sinal claro de que tinha sido chata a ponto 
de apag-lo, e, claro, pelo fato de que ele no conseguia lembrar meu nome. - Cresa.
     - O que voc quer dizer? 
     - Quero dizer que voc no caiu no sono, certo? Voc apagou porque seu pai colocou Seconal ou alguma coisa assim no seu caf.
     Certo, talvez esse no fosse o modo mais diplomtico de dizer ao cara que o pai dele precisava aumentar a potncia dos remdios. Mas, epa, ningum vai ficar 
me acusando de ser chata. Ningum.
     Alm disso, voc no acha que ele tinha o direito de saber?
     - Sue - disse ele depois de um momento. A dor latejava em sua voz. - Por que voc est dizendo uma coisa assim?
     - Quero dizer, como  que voc pode ao menos pensar isso?
     Acho que eu no podia culpar o pobre coitado. Era bem difcil acreditar. A no ser que voc tivesse visto do modo ntimo e pessoal como eu vi.
     - Tad. Estou falando srio. Seu velho... o phaser dele parece ajustado permanentemente em "atordoar", se  que voc est me sacando.
     - No - disse Tad meio carrancudo (pelo menos eu achei). - No sei o que voc est falando.
     - Tad... Qual ? O cara acha que  vampiro.
     - No acha! - Eu percebi que Tad estava enfiado at as axilas numa tremenda negao. - Voc est doida!
     Decidi mostrar a Tad at que ponto eu estava doida.
     - Sem ofender, meu chapa, mas na prxima vez em que voc estiver colocando um desses seus cordes de ouro, pode se perguntar de onde veio o dinheiro para pagar 
por ele. Ou melhor ainda, por que no pergunta ao seu tio Marcus?
     - Talvez eu pergunte.
     - Talvez voc devesse mesmo.
     - Ento vou perguntar.
     - timo, ento faa isso.
     Bati o telefone. Depois fiquei ali sentada, olhando para ele.
     Que diabos eu tinha acabado de fazer?
     
Captulo 16



     Apesar de eu ter quase matado um homem naquela noite, no tive muito problema para dormir. Srio.
     Bem, ento eu estava cansada, certo? Olha, vamos encarar: eu tive um dia difcil.
     E no que aqueles telefonemas que eu recebi logo antes de ir para a cama tenham ajudado. O padre Dominic estava totalmente furioso comigo por no ter contado 
antes sobre Jesse e agora Tad tambm parecia me odiar.
     Ah, e o tio dele, Marcus? , o possvel assassino em srie. Quase esqueci essa parte.
     Mas, srio, o que eu deveria fazer? Quero dizer, eu sabia perfeitamente bem que o padre Dom no ficaria empolgado com o Jesse. E quanto ao Tad, bem, se meu 
pai tivesse me drogado, eu com certeza iria querer saber.
     Eu tinha feito a coisa certa contando ao Tad.
     S que fiquei meio pensando no que aconteceria se Tad realmente fosse perguntar ao seu tio Marcus o que eu quis dizer sobre de onde vinha o dinheiro dele. Marcus 
provavelmente acharia que era alguma referncia obscura  doena mental do pai de Tad.
     Eu esperava.
     Porque se ele deduzisse que eu suspeitava da verdade - voc sabe, aquela coisa toda sobre ele matar qualquer um que entrasse no caminho das Indstrias Beaumont 
para abocanhar o mximo de propriedades disponveis no norte da Califrnia - eu tinha a sensao de que ele no gostaria muito.
     Mas at que ponto um sujeito que jogava alto como Marcus Beaumont ficaria com medo de uma garota de dezesseis anos? Quero dizer, srio. Ele no fazia idia 
do negcio de mediadora, de que eu tinha falado com uma de suas vtimas e confirmado a coisa toda.
     Bem, mais ou menos.
     Mesmo assim, apesar de tudo isso, finalmente consegui dormir. Estava sonhando que Kelly Prescott tinha ouvido falar que eu e Tad fomos juntos ao Coffee Clutch 
e que, como vingana, ela estava tentando vetar a deciso de no haver um baile de primavera, quando um barulho baixo me acordou. Levantei a cabea e forcei a vista 
na direo da janela.
     Spike estava de volta. E tinha companhia.
     Vi Jesse sentado ao lado de Spike. Para minha absoluta perplexidade o gato estava deixando que ele o acariciasse.
     Aquele gato estpido que tinha tentado me morder a cada vez que eu chegava perto estava deixando um fantasma - seu inimigo natural - acarici-lo.
     E mais, Spike parecia gostar. Estava ronronando to alto que eu podia ouvi-lo do outro lado do quarto.
     - Epa - falei, me apoiando nos cotovelos. - Isso  digno do Acredite se Quiser.
     Jesse riu.
     - Acho que ele gosta de mim.
     - No se ligue demais. Ele no pode ficar aqui, voc sabe.
     Pude jurar que Jesse ficou frustrado.
     - Por qu?
     - Porque Dunga  alrgico, para comear. E porque eu nem perguntei a ningum se podia ter um gato.
     - Agora a casa  sua, no s dos seus irmos - disse Jesse dando de ombros.
     - Irmos adotivos - corrigi. Eu pensei no que ele disse, depois acrescentei: - E acho que eu ainda me sinto mais uma hspede do que uma moradora de verdade.
     - Espere um sculo, mais ou menos. - Ele riu mais um pouco. - E voc supera isso.
     - Muito engraado. Alm disso, esse gato me odeia.
     - Tenho certeza que no.
     - Odeia sim. Sempre que chego perto ele tenta me morder.
     - Ele s no conhece voc. Vou apresent-la. - Ele pegou o gato e o apontou na minha direo. - Gato. Esta  Suzannah. Suzannah, conhea o gato.
     - Spike - falei.
     - Perdo?
     - Spike. O nome do gato  Spike.
     Jesse ps o gato no cho e olhou horrorizado.
     -  um nome horrvel para um gato.
      - falei. Depois acrescentei em tom puramente casual, se  que voc me entende: - Ento, eu soube que voc esteve com o padre Dominic.
     Jesse levantou o olhar e deixou-o pousar inexpressivamente em mim.
     - Por que voc no contou a ele a meu respeito, Suzannah?
     Engoli em seco. O que  que as pessoas fazem, ensinam aos caras esse olhar de censura ao nascer, ou algo assim? Quero dizer, todos eles parecem ter aquilo pronto. 
Isto , menos Dunga.
     - Olha - falei. - Eu queria contar. S que tinha certeza de que ele ia pirar de vez. Puxa, ele  um padre. Eu no achei que ele ficaria muito empolgado em saber 
que eu tenho um cara, ainda que seja um cara morto, morando no meu quarto. - Tentei parecer to preocupada quanto me sentia. - Ento, ... pelo que vejo vocs dois 
no se deram muito bem, no foi?
     - Entre seu pai e o padre - disse Jesse com ar pervertido - eu ficaria com seu pai em qualquer situao.
     - Bem. No se preocupe com isso. Amanh s vou contar ao padre Dom sobre todas as vezes em que voc salvou minha vida, e a ele vai ter de aceitar.
     Jesse claramente no acreditava que seria to simples, se  que a careta que apareceu em seu rosto fosse indicao de alguma coisa. O triste  que ele claramente 
estava certo. O padre Dom no seria aplacado to facilmente, e ns dois sabamos.
     - Olha. - Joguei as cobertas para longe e me levantei da cama, indo at o banco da janela vestida de short e camiseta. - Desculpe. Desculpe de verdade, Jesse. 
Eu deveria ter contado antes a ele, e apresentado vocs dois direito. A culpa  minha.
     - No  sua culpa.
     -  sim. - Sentei-me ao lado dele, certificando-me que Jesse estivesse entre mim e o gato. - Quero dizer, voc pode estar morto, mas eu no tenho direito de
trat-lo como se estivesse. Isso  simplesmente grosseria. Talvez o que a gente devesse fazer  voc, eu e o padre Dom nos sentarmos juntos para almoar, ou alguma 
coisa assim, e ento ele poder ver como voc  um cara legal.
     Jesse me olhou como se eu fosse uma doente mental.
     - Suzannah, eu no como, lembra?
     - Ah, . Esqueci.
     Spike cutucou Jesse no brao e ele levantou a mo e comeou a coar as orelhas do gato. Eu me sentia to pssima pelo Jesse - quero dizer, pense bem: ele estava 
naquela casa cento e cinqenta anos antes de eu aparecer, sem ningum com quem conversar, ningum - que falei subitamente:
     - Jesse, se houvesse um modo de eu fazer com que voc no estivesse morto, eu faria.
     Ele sorriu, mas para o gato, no para mim.
     - Faria?
     - Num minuto - falei, e ento continuei, com uma ousadia completa: - S que, se voc no estivesse morto, provavelmente no iria querer ficar comigo.
     Isso o fez me olhar.
     - Claro que iria.
     - No - falei examinando um dos meus joelhos nus ao luar. - No iria. Se voc no estivesse morto, estaria na faculdade ou alguma coisa assim e iria querer 
ficar com garotas de faculdade e no com garotas chatas, do segundo grau, como eu.
     - Voc no  chata.
     - Ah, sim, eu sou. Voc simplesmente est morto h tempo demais, no sabe das coisas.
     - Suzannah, eu sei das coisas, certo?
     Dei de ombros.
     Voc no tem de tentar fazer com que eu me sinta melhor. Tudo bem. Eu passei a aceitar. H umas coisas que simplesmente no d para mudar.
     - Como estar morto - disse Jesse em voz baixa.
     Bem, isso certamente colocava uma surdina nas coisas. Eu estava meio me sentindo  deprimida com tudo - o fato de Jesse estar morto e, apesar disso, Spike gostar 
mais dele do que de mim e coisas do tipo - quando de repente Jesse estendeu a mo e segurou meu queixo, quase exatamente como Tad tinha feito no carro, entre o indicador 
e o polegar, e virou meu rosto para ele.
     E de repente as coisas comearam a parecer melhores.
     Em vez de desmoronar em choque - meu primeiro instinto - eu levantei o olhar para o rosto dele. O luar que estava se filtrando no quarto atravs da janela se 
refletia nos olhos escuros e suaves de Jesse e eu podia sentir o calor de seus dedos se espalhando por mim.
     Foi quando percebi que, apesar do quanto eu vinha tentando no me apaixonar por Jesse, no estava fazendo um trabalho muito bom. Dava para ver isso pelo modo 
como meu corao comeou a martelar contra a camiseta quando ele me tocou. Meu corao no tinha feito isso quando Tad me tocou exatamente do mesmo modo.
     E tambm dava para ver pelo modo como instantaneamente comecei a me preocupar com o fato de ele ter escolhido exatamente esse momento especfico para me beijar, 
o meio da noite, quando fazia horas desde que eu tinha escovado os dentes e tinha certeza de que provavelmente estava com mau hlito. No  apetitoso?
     Mas nunca descobri se Jesse ficaria enojado com meu hlito - ou mesmo se realmente iria me beijar - porque naquele instante aquela mulher maluca que ficava 
insistindo que Red no a havia matado apareceu de repente outra vez, berrando feito uma louca furiosa.
     Juro que pulei quase trinta centmetros. Ela era a ltima pessoa que eu esperava ver.
     - Ah, meu Deus - gritei, apertando as mos contra os ouvidos enquanto ela soltava os bichos como um alarme de detector de fumaa. - Qual  o problema?
     A mulher estava usando o capuz do agasalho cinza de ginstica. Agora puxou-o para trs, e ao luar eu pude ver as lgrimas que tinham feito riscas pelas suas 
bochechas plidas. Eu no podia acreditar que a havia confundido com a Sra. Fiske. Essa mulher era muitos anos mais nova e tremendamente mais bonita.
     - Voc no contou a ele - disse ela, entre uivos soluantes.
     Surpreendi-me.
     - Contei sim.
     - No contou!
     - No, eu contei, contei de verdade. - Fiquei chocada com essa acusao injusta. - Contei a ele h dois dias. Jesse, diga a ela.
     - Ela contou - garantiu Jesse  defunta.
     Voc imaginaria que um fantasma aceitaria a palavra de outro. Mas ela no quis aceitar. Gritou:
     - No contou! E voc tem de contar a ele. Voc simplesmente tem. Isso est me rasgando por dentro.
     - Espere um minuto - falei. - Red Beaumont  o Red de quem voc est falando, no ? Foi ele que matou voc?
     Ela balanou a cabea com tanta fora que o cabelo bateu nas bochechas e ficou ali, grudado  pele pelas lgrimas.
     - No. No! Eu disse a voc que Red no me matou.
     - Marcus, quero dizer - emendei rapidamente. - Eu sei que no foi o Red. Ele simplesmente se culpa por isso, no ?  isso que voc quer que eu diga. Que no 
foi culpa dele.
     - Foi o irmo, Marcus Beaumont, que matou voc, no foi?
     - No! - Ela me olhou como se eu fosse uma imbecil. E eu estava comeando a me sentir assim. - No Red Beaumont. Red. Red. Voc conhece ele.
     Eu conheo? Eu conheo algum chamado Red? No nesta vida.
     - Olha - falei. - Eu preciso de um pouco mais de informao do que isso. Por que no comeamos com as apresentaes? Eu sou Suzannah Simon, certo? E voc ...?
     O olhar que ela me deu teria partido o corao at mesmo do mediador mais frio.
     - Voc sabe - disse ela com uma expresso to ferida que eu tive de desviar o olhar. - Voc sabe... 
     E ento, quando arrisquei outro olhar em sua direo, ela sumiu de novo.
     - Hmm - falei desconfortavelmente a Jesse. - Acho que eu peguei o Red errado.
     
Captulo 17



     Certo, admito: eu no estava feliz. Quero dizer, srio. Eu tinha investido todo aquele tempo e esforo em Red Beaumont, e ele nem era o cara certo.
     Tudo bem, , ento ele - ou o irmo; eu apostava no irmo - aparentemente havia matado um punhado de gente, mas eu esbarrei nesse fato totalmente por acaso. 
O fantasma que originalmente me procurou pedindo ajuda no tinha nada a ver com Red Beaumont ou mesmo seu irmo, Marcus. A mensagem dela ficou sem ser dada porque 
eu no podia deduzir quem ela era, mesmo que aparentemente a conhecesse.
     E enquanto isso o assassino da Sra. Fiske ainda estava andando por a, livre.
     E como se tudo isso no bastasse, o fato de a visitante noturna ter aparecido daquele modo havia matado completamente o clima entre Jesse e eu. Depois disso 
ele no me beijou de jeito nenhum. Na verdade agiu como se nunca tivesse pensado em me beijar, o que, considerando minha sorte,  provavelmente a verdade. Em vez 
disso perguntou como estava indo minha erupo do sumagre venenoso.
     Minha erupo! , vai muito bem, obrigada.
     Meu Deus, eu sou uma completa fracassada.
     Mas voc sabe, eu fingi que no me importei. Na manh seguinte levantei e agi como se nada tivesse acontecido. Coloquei minha melhor roupa de dar porrada - 
a minissaia Betsey Johnson preta com meia cala preta, botas Batgirl com zper do lado e conjunto de suter Armani - e caminhei pelo quarto como se tudo em que eu 
estivesse pensando fosse o modo de levar Marcus Beaumont  justia. Fingi que a ltima coisa na minha mente era Jesse.
     No que ele tenha notado. Ele nem estava por ali.
     Mas todo esse negcio de ficar andando de um lado para o outro me fez atrasar e Soneca estava parado na base da escada, berrando meu nome, de modo que, mesmo 
que Jesse sentisse vontade, no seria uma coisa muito boa se materializar naquela hora.
     Peguei a jaqueta de couro e desci a escada, fazendo barulho, at onde Andy estava parado, distribuindo dinheiro do lanche para cada um de ns que passava.
     - Meu Deus, Suze - disse ele ao me ver.
     - O qu? - perguntei na defensiva.
     - Nada - respondeu ele rapidamente. - Aqui.
     Peguei a nota de cinco dlares em sua mo e, lanando-lhe um ltimo olhar curioso, acompanhei Mestre at o carro. Quando cheguei perto, Dunga me olhou e soltou 
um uivo.
     - Ah, meu Deus - gritou, apontando para mim. - Corram para salvar a vida!
     Encarei-o.
     - Voc tem algum problema? - perguntei friamente.
     - Tenho - disse ele com um risinho de desprezo. - No sabia que era o dia das bruxas.
     Mestre falou como quem sabia das coisas:
     - No  o dia das bruxas, Brad. Faltam duzentos e setenta e nove dias.
     - Diga isso  Rainha dos Mortos-Vivos - respondeu Dunga.
     No sei o que me levou quilo. Acho que estava mal-humorada. Tudo que tinha acontecido na noite anterior, desde acertar o Sr. Beaumont com um lpis at descobrir 
que ele era o homem errado o tempo todo - para no mencionar a descoberta de que meus sentimentos para com Jesse no eram exatamente o que eu gostaria de que fossem 
- me voltou.
     E a prxima coisa que eu soube foi que me virei e enfiei o punho na barriga de Dunga.
     Ele soltou um gemido e se dobrou para a frente, depois se esparramou na grama, tentando respirar.
     Certo, admito. Eu me senti mal. No deveria ter feito isso.
     Mas mesmo assim. Que pirralho. Puxa, srio. Ele  da turma de luta livre. O que ensinam a esses lutadores, afinal? Sem dvida no como levar um soco. 
     - Epa - disse Soneca ao notar Dunga no cho. - Que diabos aconteceu com voc?
     Dunga apontou para mim, tentando dizer meu nome. Mas s saam sons ofegantes.
     - Ah, meu Deus - disse Soneca, me olhando enojado.
     - Ele me chamou de Rainha dos Mortos-Vivos - falei com toda a dignidade que pude juntar.
     - Bem, o que voc esperava que ele dissesse? - perguntou Soneca. Voc est parecendo uma vagaba. A irm Ernestine vai mandar voc para casa, se vir voc com 
essa saia.
     Respirei fundo, ultrajada.
     - Essa saia - falei - por acaso  da Betsey Johnson.
     - No me importa se  da Betsy Ross. E irm Ernestine tambm no vai se importar. Anda, Brad, levanta. Ns vamos nos atrasar.
     Brad se levantou com um cuidado enorme, como se cada movimento lhe causasse uma dor insuportvel. Soneca no pareceu sentir muita pena dele.
     - Eu disse para voc no mexer com ela, cara - foi s o que falou enquanto sentava atrs do volante.
     - Ela me deu um raio de um soco, cara - gemeu Brad. - Isso no pode ficar assim.
     - Na verdade pode - disse Mestre em tom agradvel enquanto subia no banco de trs e prendia o cinto. - Ainda que as estatsticas sobre violncia domstica sejam 
difceis de obter devido ao nmero baixo de denncias, os incidentes em que a mulher bate em familiares do sexo masculino so ainda menos denunciados, j que quase 
sempre as vtimas ficam sem graa de dizer aos policiais que, na verdade, foram espancados por uma mulher.
     - Bem, eu no estou sem graa - declarou Dunga. - Vou contar ao papai assim que a gente chegar em casa.
     - V em frente - falei com acidez. Eu estava realmente mal-humorada. - Ele s vai colocar voc de novo de castigo quando eu disser que voc saiu escondido naquela 
noite da festa na piscina de Kelly Prescott.
     - Eu no sa. - Ele praticamente gritou na minha cara.
     - Ento como  que eu vi voc no vestirio da piscina dela dando uma lubrificada na lngua de Debbie Mancuso?
     At Soneca uivou ao escutar isso.
     Dunga ficou completamente vermelho de vergonha, parecia a ponto de chorar. Eu lambi o dedo e fiz um pequeno movimento de ataque no ar, como se estivesse marcando 
um gol. Suze, um. Dunga, zero.
     Mas infelizmente foi Dunga quem riu por ltimo.
     Ns estvamos nos aproximando das filas - srio, eles fazem todas as turmas se formarem na frente da escola, em fileiras separadas por sexo, garotos de um lado,
garotas do outro, durante quinze minutos antes que as aulas comecem oficialmente, para fazer as chamadas e ler anncios - quando a irm Ernestine soprou seu apito 
para mim e sinalizou para que eu fosse at ela, que estava parada perto do mastro da bandeira.
     Felizmente ela fez isso diante de toda a turma de segundo ano - para no mencionar a de primeiro - de modo que cada um dos meus colegas teve o privilgio de 
me ver levar bronca de uma freira, por estar usando minissaia na escola.
     O ponto alto foi que a irm Ernestine disse que eu tinha de ir para casa trocar de roupa.
     Ah, eu argumentei. Insisti que a sociedade que valorizava seus membros apenas pela aparncia externa era uma sociedade destinada  destruio, uma frase que 
eu tinha ouvido Mestre usar alguns dias antes quando ela lhe havia dado uma bronca por usar uma cala Levis - h uma norma rgida contra os jeans na Academia.
     Mas a irm Ernestine no engoliu. Informou que eu podia ir para casa e trocar de roupa ou poderia me sentar em sua sala e ajudar a corrigir as provas de matemtica 
da segunda srie at minha me chegar com uma cala para mim.
     Ah, isso no seria to embaraoso.
     Dada a alternativa, optei por ir para casa e trocar de roupa - apesar de ter argumentado enfaticamente a favor da Sra. Johnson e suas criaes. Mas uma saia 
com a bainha a mais de oito centmetros acima do joelho no  considerada roupa adequada para a Academia. E minha saia, infelizmente, ficava a mais de dez centmetros 
acima dos joelhos. Sei disso porque a irm Ernestine pegou uma rgua e me mostrou. E tambm ao resto da turma de segundo ano.
     E ento foi isso, com um aceno para Cee Cee e Adam, que estavam liderando os gritos de encorajamento da turma para mim - que felizmente abafaram as zombarias 
de Dunga e seus amigos - pus a mochila nos ombros e sa da escola. Claro que tinha de andar at em casa, j que no podia encarar a indignidade de ligar para Andy 
pedindo carona, e ainda no tinha deduzido se havia algum tipo de transporte pblico em Carmel.
     No me sentia muito frustrada. Afinal de contas, o que eu tinha pela frente? Ah, s o padre Dominic me dando uma bronca por no ter lhe contado sobre Jesse. 
Acho que eu poderia t-lo distrado dizendo como ele estivera errado com relao ao pai de Tad ser um vampiro - ele s acha que  - e contando o que Cee Cee tinha 
descoberto sobre o irmo, Marcus. Isso certamente o teria tirado do meu p... pelo menos durante um tempo.
     Mas e da? Ento alguns ambientalistas tinham desaparecido? Isso no prova nada. Ento uma defunta tinha me dito que um tal de Sr. Beaumont a havia matado?
Ah, , isso  um bom argumento para o tribunal, certo.
     No era muito. Na verdade ns no tnhamos nada. Chongas. Zero.
     E era isso que eu estava me sentindo enquanto andava. Um enorme zero de minissaia.
     Como se a pessoa encarregada do clima concordasse comigo sobre meu status de fracassada, estava meio que chovendo. Todas as manhs eram nevoentas ao longo da 
costa no norte da Califrnia. A nvoa chegava do mar e se acomodava na baa at o sol evapor-la.
     Mas nessa manh, alm da nvoa, havia uma garoa caindo. A princpio no era to ruim, mas eu no tinha ido alm do porto da escola quando meu cabelo comeou 
a encaracolar. Depois de todo o tempo que eu tinha passado de manh alisando. Claro que eu no tinha um guarda-chuva. Nem parecia ter muita opo. Ia virar uma doida 
encharcada e encaracolada depois de andar os trs quilmetros - principalmente morro acima - at em casa, e era o fim.
     Ou pelo menos eu pensava. Porque enquanto estava chegando ao porto da escola um carro veio passando por ele e reduziu a velocidade.
     Era um carro legal. Era um carro caro. Era um carro preto com vidro fum. Enquanto eu olhava, uma das janelas baixou e um rosto familiar me espiou do banco 
de trs.
     - Srta. Simon - disse Marcus Beaumont em tom agradvel. - Exatamente quem eu estava procurando. Podemos trocar uma palavrinha?
     E ele abriu a porta, me convidando, chamando para sair da chuva.
     Cada um dos meus neurnios de mediadora disparou imediatamente. Perigo, gritaram eles. Corra com tudo, berraram.
     Eu no podia acreditar. Tad tinha feito. Tad tinha perguntado ao tio o que eu quis dizer.
     E Marcus, em vez de desconsiderar a coisa, tinha vindo  minha escola num carro com janelas de vidro fum para "trocar uma palavrinha" comigo.
     Eu estava ferrada.
     Mas antes que tivesse a chance de girar e correr de volta para a escola, onde eu sabia que estaria em segurana, as portas do sedan de Marcus Beaumont se abriram 
e dois caras vieram para mim.
     Deixe-me dizer em minha defesa que, no fundo, eu nunca pensei que Tad teria coragem de fazer aquilo. Puxa, Tad parecia um cara bem legal, e Deus sabia que ele 
era um beijador fantstico, mas no parecia ter muito recheio debaixo da cabeleira, se  que voc me entende. E imagino que  por isso que uma garota como Kelly 
Prescott o acha to atraente: Kelly sempre foi esperta. No gosta de competio nessa rea.
     Mas eu obviamente havia subestimado Tad. No somente ele tinha procurado o tio como eu sugeri, mas evidentemente conseguiu levantar as suspeitas de Marcus de 
que eu sabia mais do que tinha dado a entender.
     Muito mais, se  que os dois capangas que estavam me cercando, cortando qualquer possvel fuga, serviam como indicao.
     Com a opo de fuga praticamente anulada por aqueles dois palhaos, eu vi que teria de lutar. No me considero uma incompetente no departamento de brigas. Na 
verdade meio que gosto, se voc ainda no percebeu. Claro, em geral eu luto contra fantasmas, e no com seres humanos vivos. Mas se voc pensar bem, realmente no 
h muita diferena. Quero dizer, cartilagem nasal  cartilagem nasal. Eu estava disposta a experimentar.
     Isso pareceu meio surpresa para os capangas de Marcus. Dois rapazes fortes que pareciam mais acostumados a socar massa de po do que gente, eles partiram para 
impressionar o chefe em grande estilo.
     Pelo menos at eu largar minha bolsa de livros, puxar o p por trs do joelho de um deles e jog-lo no cho com um barulho de tremer o asfalto molhado.
     Enquanto o Capanga n 1 ficava olhando o cu nublado com cara surpresa, eu dei um chute excelente no Capanga n 2. Ele era alto demais para eu acert-lo no 
nariz, mas tirei o flego do cara aplicando meu salto oito em sua costela. Deve ter dodo, vou te contar. Ele saiu girando, perdeu o equilbrio e caiu no cho.
     Amador.
     Ento Marcus saiu do carro. Parou com a chuva batendo no cabelo louro e fofo e disse ao Capanga n 2:
     - Seu idiota.
     Se voc pensar bem, ele estava certo em se chatear. Puxa, ele tinha contratado os caras para me pegar e os caras estavam fazendo um pssimo servio. Para mostrar 
como  difcil conseguir bons empregados hoje em dia.
     Voc pensaria que, com tudo isso acontecendo na frente de um belo ponto turstico como a Misso - para no mencionar a escola - algum teria notado e ligado 
para a polcia. Voc pensaria isso, no?
     Mas se est pensando, obviamente no esteve na Califrnia quando chove. No estou brincando,  que nem Nova York na vspera de ano novo: s os turistas se aventuram 
do lado de fora. Todo mundo fica em casa at que seja seguro sair.
     Ah, uns dois carros zuniram a oitenta por hora numa rea de velocidade mxima de quarenta. Eu esperava que um deles nos notasse e decidisse que dois caras contra 
uma garota no era jogo limpo - mesmo que a garota meio parecesse uma vagaba.
     Mas nossa pequena escaramua continuou por um tempo surpreendentemente longo at que Marcus - que aparentemente tinha percebido o que seus capangas no tinham: 
que eu no era exatamente uma tpica estudante de colgio catlico - cortou a coisa me dando um soco de direita no queixo, totalmente injusto.
     Eu nem o vi chegando. Com a chuva e tudo, o cabelo estava grudando no rosto, obscurecendo a viso perifrica. Eu estivera concentrada em aplicar um joelho na 
virilha do Capanga n 1 - sua deciso de se levantar de novo tinha sido m idia - enquanto ficava de olho no Capanga n 2, que estava tentando agarrar meu cabelo 
- obviamente ele tinha cursado a escola Dunga de luta - e nem tinha notado que Marcus vinha na minha direo.
     Mas de repente uma mo pesada pousou no meu ombro e me girou. Um segundo depois uma exploso soou na minha cabea. O mundo balanou de modo enjoativo e eu senti 
cambalear. A prxima coisa que soube foi que estava dentro do carro e que os freios estavam guinchando.
     - Ai - falei quando as estrelas recuaram o bastante. Levantei a mo e toquei o queixo. Nenhum dos dentes parecia frouxo, mas eu definitivamente teria um hematoma 
que no seria coberto nem mesmo por todo o Clinique do mundo. - Por que voc teve de me acertar com tanta fora?
     Marcus simplesmente piscou para mim inexpressivamente, no banco ao lado. O Capanga n l dirigia e o Capanga n 2 estava sentado ao lado dele no banco da frente. 
A julgar por seus pescoos extremamente grossos, eles estavam infelizes. No devia ser muito agradvel ficar ali sentado com todas aquelas vrias partes do corpo 
latejando de dor, com roupas molhadas e enlameadas. Felizmente minha jaqueta de couro havia me protegido do pior da chuva. Mas o cabelo definitivamente era uma causa 
perdida.
     Estvamos indo rpido pela estrada. A gua escorria dos dois lados enquanto atravessvamos o que havia se tornado um aguaceiro firme. No havia uma alma na 
estrada alm de ns. Vou lhe dizer, voc nunca viu gente to apavorada com um pouquinho de chuva quanto os californianos nativos. Terremotos? So fichinha. Mas basta 
uma sugesto de garoa e  hora de enfiar a cabea entre os joelhos.
     - Olha - falei. - Acho que voc deveria saber de uma coisa. Minha me  reprter da WCAL em Monterey, e se alguma coisa acontecer comigo ela vai partir para 
cima de vocs como formigas em cima de um bolo aucarado.
     Marcus, claramente entediado com minha pose, puxou a manga do palet e olhou seu Rolex.
     - No vai - falou em voz chapada. - Ningum sabe onde voc est. Foi bem casual voc ter sado da escola no momento em que ns estvamos chegando. Algum dos 
seus fantasmas - ele disse a palavra com um sarcasmo que eu imagino que ele tenha achado divertido - alertou voc de que ns estvamos chegando? Com um muxoxo, murmurei:
     - No exatamente. - De jeito nenhum diria que tinha sido mandada para casa por violar o cdigo de vestimenta da escola. J era humilhao suficiente por um 
dia.
     - E o que voc estava fazendo ali? - perguntei irritada. - Quero dizer, voc ia simplesmente entrar e me arrancar da aula com uma arma apontada na frente de 
todo mundo?
     - Certamente no - disse Marcus com calma.
     O que eu estivera esperando era que algum - qualquer pessoa - tivesse visto Marcus me acertar e anotado o nmero de seu carssimo carro Euro-lixo. A qualquer 
minuto sirenes poderiam comear a uivar atrs de ns. Os policiais no podiam estar com medo de uma chuvinha - se bem que, para dizer a verdade, eu no me lembro 
de ter visto os policiais Ponch e Jon, de Chips, saindo num aguaceiro.
     Mantenha-o falando, pensei. Se ele estiver falando, no vai poder se concentrar em matar voc.
     - Ento, qual  o plano?
     - Se voc quer saber, eu iria at o diretor para informar que as Indstrias Beaumont estavam interessadas em patrocinar a bolsa de um estudante neste ano, e 
que voc era uma das nossas finalistas. - Marcus tirou um fiapo invisvel da perna de sua cala. - Claro que ns exigiramos uma entrevista pessoal, depois da qual 
pretendamos levar voc - a candidata - a um almoo de comemorao.
     Revirei os olhos. A idia de eu ganhar qualquer tipo de bolsa era risvel. O cara obviamente no tinha visto minhas ltimas notas de geometria.
     O padre Dominic nunca teria me deixado sair com voc. - Especialmente, pensei, depois de eu ter lhe dito o que havia acontecido chez Beaumont na vspera.
     Ah, creio que deixaria. Eu estava planejando fazer uma doao considervel  sua pequena misso.
     Tive de rir dessa. O cara obviamente no conhecia o padre Dom - No creio. E mesmo que deixasse, voc no acha que ele mencionaria que, na ltima vez em que 
me viu, eu estava saindo de carro com voc? Se os policiais por acaso o interrogassem, voc sabe, depois de eu desaparecer.
     - Ah, voc no vai desaparecer, Srta. Simon.
     Isso me surpreendeu.
     - No vou? - Ento de que isso se tratava?
     - Ah, no - garantiu Marcus em tom confidencial. - No haver a mnima dvida sobre o que aconteceu com voc.
     - Seu cadver vai ser achado bem depressa, imagino.4
     
Captulo 18



     Isso era tudo que eu no queria ouvir. Nossa, voc nem imagina como. - Olha - falei rapidamente -, acho que voc deve saber que eu deixei uma carta com uma
amiga. Se alguma coisa acontecer comigo, ela vai procurar a polcia e entregar a carta.
     Dei um sorriso ensolarado para ele. Claro que era tudo uma mentira enorme, mas ele no sabia. Ou talvez soubesse.
     - No creio - falou educadamente.
     Dei de ombros, fingindo no me importar.
     - O enterro  seu.
     - Voc realmente no deveria ter dado a dica ao garoto - disse Marcus, enquanto eu estava ocupada tentando ouvir sirenes. - Foi o seu primeiro erro, voc sabe.
     E no  que eu sabia mesmo?
     - Bem, eu achei que ele tinha o direito de saber o que seu prprio pai estava armando.
     Marcus me olhou um pouco desapontado.
     - No foi isso que eu quis falar - disse Marcus, e havia apenas um leve desprezo em sua voz.
     - Ento o qu? - Arregalei os olhos o mximo possvel.
     - A Pequena Srta. Inocente.
     - Eu no tinha certeza de que voc sabia sobre mim, claro - prosseguiu Marcus, quase amigavelmente. - Pelo menos at voc tentar fugir ali na frente da escola. 
Esse, claro, foi seu segundo erro. Seu medo evidente de mim foi uma clara evidncia. Porque ento no houve dvida de que voc sabia mais do que era bom para sua 
sade.
     - , mas olha - falei em minha voz mais razovel. - O que foi que voc disse ontem  noite? Quem vai acreditar na palavra de uma delinqente juvenil de dezesseis 
anos como eu contra a de um empresrio grande e importante como voc? Quero dizer, fala srio. Voc  amigo do governador, imagine s.
     - E sua me - lembrou Marcus -  uma reprter da WCAL, como voc observou.
     Eu e minha boca grande.
     O carro, que no tinha dado sinais de diminuir a velocidade at aquele ponto, comeou a fazer uma curva na estrada. Percebi de repente que estvamos na Seventeen 
Mile Drive.
     Nem pensei no que eu estava fazendo. Simplesmente estendi a mo para a maaneta e a prxima coisa que vi foi um parapeito vindo na minha direo, e gua de 
chuva e cascalho batendo na minha cara.
     Mas em vez de rolar para fora do carro, na direo daquele parapeito - abaixo do qual eu podia ver as ondas do Mar Inquieto se chocando contra pedras na base 
do penhasco - fiquei onde estava. Isso porque Marcus agarrou as costas do meu casaco de couro e no quis soltar.
     - No to depressa - disse ele, tentando me puxar de volta para o banco.
     Mas eu no ia desistir to fcil. Girei - muito gil em minha saia de Lycra - e tentei bater com o salto da bota em sua cara. Infelizmente os reflexos de Marcus 
eram to bons quanto os meus, j que pegou meu p e torceu muito dolorosamente.
     - Ei - gritei. - Isso di!
     Mas Marcus apenas riu e me deu outro soco.
     Vou te contar, a sensao no foi muito legal. Durante um ou dois minutos no pude ver muito bem. Foi durante esse tempo que demorou at minha viso se ajustar 
que Marcus fechou a porta do carro, que tinha continuado aberta, me puxou de volta para o lugar e prendeu o cinto de segurana. Quando meus globos oculares finalmente 
se ajustaram nas rbitas, olhei para baixo e vi que ele estava me segurando com fora, principalmente agarrando um punhado do meu conjunto de suter.
     - Ol - falei debilmente. - Isso  caxemira, voc sabe.
     - Eu solto se voc prometer que vai ser razovel.
     - Acho que  perfeitamente razovel tentar fugir de um cara como voc.
     Marcus no pareceu muito impressionado com minha abordagem sensata.
     - Voc no pode imaginar que eu vou deix-la ir - disse ele. - Eu tenho de me preocupar com o controle dos danos.
     - Quero dizer, no posso deixar voc sair contando s pessoas sobre minhas... hum... tcnicas especiais de solucionar problemas.
     - No h nada de especial no assassinato - informei.
     Marcus continuou, como se eu no tivesse falado:
     - Historicamente, voc entende, sempre houve alguns poucos ignorantes que insistiram em ficar no caminho do progresso. Essas so as pessoas que eu fui obrigado 
a... realocar.
     - . Para a sepultura.
     Marcus deu de ombros.
     -Uma infelicidade, certamente, mas mesmo assim necessria. De qualquer modo, para avanarmos como civilizao, ocasionalmente alguns poucos selecionados devem 
se sacrificar...
     - Duvido que a Sra. Fiske concorde com quem voc escolheu para ser sacrificado - interrompi.
     - O que pode parecer uma melhoria para uns, para outros pode parecer uma orgia de destruio...
     - Como a aniquilao de nosso litoral natural por parasitas loucos por dinheiro como voc?
     Bem, ele j tinha dito que ia me matar. Eu no achei que importaria se eu fosse educada ou no.
     - E assim, para que o progresso acontea - continuou ele como se no tivesse me ouvido - alguns simplesmente tm de ser privados.
     - Privados da vida? - olhei-o irada. - Cara, vou lhe dizer uma coisa. Sabe seu irmo, o aspirante a vampiro? Voc  to doente quanto ele.
     Exato naquele momento o carro virou na entrada da casa do Sr. Beaumont. O guarda no porto acenou enquanto ns passvamos, ainda que no pudesse me ver pela 
janela de vidro fum. Provavelmente no tinha idia de que dentro do carro de seu chefe havia uma adolescente em vias de ser executada. Ningum - ningum - pensei, 
sabia onde eu estava: nem minha me, nem o padre Dominic, nem Jesse - nem mesmo o meu pai. Eu no tinha idia do que Marcus havia planejado para mim, mas o que quer 
que fosse, eu suspeitava de que no gostaria muito... especialmente se isso me levasse para onde tinha levado a Sra. Fiske.
     O que eu estava comeando a achar que provavelmente aconteceria.
     O carro parou. Os dedos de Marcus apertaram a parte de cima do meu brao.
     - Venha - disse ele, e comeou a me arrastar pelo banco para o seu lado, onde a porta estava aberta.
     - Espera um minuto - falei, num ltimo esforo para convenc-lo de que poderia ser  perfeitamente razovel se tivesse o incentivo correto. Por exemplo, ser 
morta. - E se eu prometesse no contar a ningum?
     - Voc j contou a algum - lembrou Marcus. - Meu sobrinho, Tad, lembra?
     - Tad no vai contar a ningum. Ele no pode. Ele  seu parente. No tem permisso de testemunhar contra os prprios parentes no tribunal, ou sei l. - Minha 
cabea ainda estava tonta pelo soco de Marcus, por isso eu no me sentia muito lcida. Mesmo assim tentei ao mximo ser razovel com ele. - Tad  um superguardador 
de segredo.
     - Em geral os mortos so.
     Se eu no estivesse apavorada antes - e definitivamente estava -, agora me sentia superapavorada. O que ele quis dizer com isso? Quis dizer... quis dizer que 
Tad no falaria porque estaria morto? Esse cara ia matar o prprio sobrinho? Por causa do que eu tinha dito a ele?
     No podia deixar que isso acontecesse. Eu no tinha idia do que Marcus pretendia fazer comigo, mas de uma coisa estava certa:
     Ele no ia pr um dedo no meu namorado.
     Ainda que naquele momento em particular eu no fizesse idia de como ia impedi-lo.
     Enquanto Marcus me puxava, falei com seus capangas:
     - S quero agradecer a vocs por terem me ajudado. Vocs sabem, considerando que eu sou uma garota indefesa e que esse cara  um assassino a sangue-frio, e 
coisa e tal. Verdade, vocs foram fantsticos...
     Marcus me deu um puxo e eu fui voando pelo carro at ele.
     - Epa - falei quando achei os ps. - Para que pegar pesado?
     - No vou me arriscar - disse Marcus, mantendo o aperto de ferro no meu brao enquanto me arrastava at a porta da frente da casa. - Voc se mostrou um problema 
muito maior do que eu tinha previsto.
     Antes que eu tivesse tempo para digerir o elogio, Marcus tinha me arrastado para casa enquanto atrs de ns os capangas saam do carro e nos seguiam... s para 
o caso, imaginei, de que eu subitamente me soltasse e tentasse uma fuga tipo La Femme Nikita.
     Dentro da casa dos Beaumont - pelo que eu podia ver, na velocidade com que Marcus me arrastava - as coisas estavam como da ltima vez em que eu tinha ido ali. 
No havia sinal do Sr. Beaumont - provavelmente estava na cama se recuperando de meu ataque brutal na vspera. Coitado. Se eu soubesse que era Marcus o parasita 
sugador de sangue, e no o irmo, teria mostrado alguma compaixo para com o velho.
     O que me lembrou.
     - E o Tad? - perguntei enquanto Marcus me arrastava pelo ptio, onde a chuva batia na piscina, fazendo centenas de pequenos borrifos e milhares de ondulaes. 
- Onde voc trancou ele?
     - Voc vai ver - garantiu Marcus enquanto me puxava para o pequeno corredor onde ficava o elevador para a sala do Sr. Beaumont.
     Ele abriu a porta do elevador e me empurrou para dentro, depois entrou tambm. Seus capangas assumiram posio no corredor, j que no havia espao para eles 
e seus msculos. Fiquei feliz, porque o palet de l do Capanga n 1 estava comeando a feder a um pouco maduro demais.
     De novo tive a sensao de movimento, mas no podia perceber se era para baixo ou para cima. Enquanto seguamos, tive a chance de examinar Marcus de
perto. 
Era engraado, mas ele realmente parecia um cara comum. Poderia ter sido qualquer pessoa, um agente de viagens, um advogado, um mdico.
     Mas no. Era um assassino.
     - Sua me devia sentir muito orgulho!
     - Sabe - observei -, quando minha me descobrir sobre isso, as Indstrias Beaumont vo afundar. Muito.
     - Ela no vai ligar sua morte s Indstrias Beaumont. 
     - Ah, ? Meu chapa, vou lhe dizer uma coisa. No minuto em que meu cadver mutilado for encontrado, minha me vai virar aquela criatura do Aliens 2. Voc sabe, 
aquele filme em que a Sigourney Weaver entra naquele negcio tipo uma empilhadeira. E a... Voc no vai ser mutilada. - Marcus obviamente no era f de cinema. 
Abriu a porta do elevador e eu vi que estvamos de volta onde tudo isso havia comeado, na sala assustadora do Sr. Beaumont.
     - Voc vai se afogar - disse ele satisfeito.
     
Captulo 19



     - Aqui.
     Aplicando uma presso firme nas minhas costas,  Marcus tinha me guiado para o meio da sala. Rodeou a mesa, enfiou a mo numa gaveta e tirou uma coisa vermelha
e sedosa. Jogou para mim.
     Com meus reflexos rpidos como o raio, eu peguei, larguei, depois peguei e olhei com ateno. A no ser pelas luzes no fundo do aqurio, a sala estava escura.
     - Vista - disse Marcus.
     Era uma roupa de banho. Um mai Speedo. Joguei-o em cima da mesa de Red Beaumont como se tivesse queimado meus dedos.
     - No, obrigada. Alas cruzadas no caem bem em mim. Marcus suspirou. Seu olhar se desviou para a parede  minha direita.
     - Tad no foi to difcil de ser persuadido como voc.
     Girei. Tad estava esticado num sof de couro que eu no tinha notado antes. Dormindo ou inconsciente. Meu voto era por inconsciente, j que a maioria das pessoas 
no dorme com roupa de banho.
     Isso mesmo: Tad estava pelado, a no ser pelo calo de banho em que eu tinha tido a sorte de v-lo antes.
     Virei-me de novo para o seu tio Marcus.
     - Ningum vai acreditar - falei. - Quero dizer, est chovendo l fora. Ningum vai acreditar que a gente foi nadar num tempo assim.
     - Vocs no vo nadar. - Marcus tinha ido at o aqurio e bateu no vidro para atrair a ateno de um anjo-do-mar.
     - Vocs vo pegar o iate do meu irmo e vo andar de jet-ski.
     - Na chuva?
     Marcus me olhou cheio de pena.
     - Voc nunca andou de jet-ski antes, andou?
     - Na verdade, no. Prefiro manter os ps, sempre que possvel, em terra seca. De preferncia calados com Prada, mas aceito Nine West.
     - A gua fica particularmente agitada num tempo assim - explicou Marcus cheio de pacincia. - Quem  bom em jet-ski, como o meu sobrinho, nunca se farta das
ondas.  o tipo perfeito de atividade para um casal de adolescentes que buscam empolgao e mataram aula para desfrutar a companhia um do outro... e que, claro,
nunca vo voltar  terra. Bem, pelo menos vivos.
     Marcus suspirou e foi em frente:
     - Veja bem,  lamentvel, mas Tad se recusa a usar colete salva-vidas quando vai para a gua. Atrapalha os movimentos. E acho que convenceu voc a ir sem um 
tambm.
     - Vocs dois vo se afastar muito do barco, uma onda particularmente forte vai derrub-los e... Bem, as correntes provavelmente vo acabar jogando seus corpos 
sem vida em terra... - Ele puxou a manga e olhou de novo o relgio.
     Eu tenho um almoo com um cavalheiro que quer me vender uma propriedade que seria perfeita para um Chuck  E. Cheese.
     - Voc no pode matar seu prprio sobrinho. - Minha voz ficou esganiada. Estava me sentindo... bem, cheia de pavor. - Puxa, no acho que uma coisa dessas v 
deixar voc muito popular na festa de Natal na casa da vov.
     A boca de Marcus se firmou numa linha sria.
     Talvez voc no tenha entendido. Como acabei de me esforar muito para explicar, Srta. Simon, sua morte, bem como a do meu sobrinho, vai parecer um trgico 
acidente.
     - Foi assim que voc se livrou da Sra. Fiske? Acidente com jet-ski?
     - De jeito nenhum - disse ele revirando os olhos. - Eu no estava interessado em que o corpo dela fosse encontrado. Sem corpo no h prova de que ocorreu um 
assassinato, correto? Agora seja uma boa menina e...
     -  assim que voc se diverte? - Olhei-o irritada. - Voc  mesmo um doente. E, para sua informao, eu no vou tirar nada. Quem encontrar este corpo vai encontr-lo 
totalmente vestido, muito obrigada.
     - Ah, desculpe - disse ele. Na verdade o sujeito parecia sincero. - Claro que voc gostaria de um pouco de privacidade para trocar de roupa. Ter de me perdoar. 
Faz muito tempo desde que eu fiquei na companhia de uma jovem to recatada. - Seu olhar baixou vilmente at a minha minissaia.
     Mais do que nunca, senti vontade de enfiar um polegar em seus olhos. Mas estava com a impresso de que ele poderia me deixar sozinha por um minuto. E era tentador 
demais para resistir. Por isso apenas fiquei ali, tentando invocar um rubor.
     - Acho que posso lhe dar cinco minutos - disse ele com um suspiro. Depois voltou para o elevador. - S lembre, Srta. Simon, que eu vou pr voc nesse mai de
um jeito ou de outro. Veja bem, claro, o que o pobre Tad escolheu.
     - Ele assentiu para o sof. - Seria mais simples e menos doloroso para voc a longo prazo, se voc mesma o vestisse e me poupasse o trabalho.
     Ele fechou a porta do elevador.
     Realmente havia alguma coisa estranha com o sujeito, decidi. Quero dizer, ele tinha acabado de abrir mo da chance de ver uma gata como eu peladinha. O cara
sem dvida tinha um prato de macarro no lugar do crebro.
     Bem, pelo menos foi o que eu disse a mim mesma.
     Sozinha na sala do Sr. Beaumont - a no ser por Tad e os peixes, nenhum dos quais parecia muito comunicativo no momento, comecei imediatamente a tentar descobrir 
um jeito de escapar. As janelas, eu sabia, eram inteis. Mas havia um telefone na mesa do Sr. Beaumont. Peguei-o e comecei a digitar o nmero.
     - Srta. Simon - a voz de Marcus, vindo pelo aparelho, pareceu divertida. -  um telefone interno. Voc no imagina que deixaramos o pai de Tad dar qualquer
telefonema para fora em seu estado, imagina? Por favor, apresse-se e troque de roupa.
     Ele desligou. Eu tambm.
     Meio minuto desperdiado.
     A porta do elevador estava trancada. Assim como a porta do outro lado da sala. Tentei chut-la, mas ela era feita de algum tipo de madeira realmente grossa 
e no cedeu.
     Decidi voltar a ateno para as janelas. Enrolando a ponta de uma cortina de veludo no punho, soquei alguns vidros, depois tentei bater o p contra um dos postigos 
de madeira.
     No adiantou. Eles pareciam ter sido pregados.
     Restavam trs minutos.
     Olhei em volta procurando uma arma. Decidi que meu plano, j que a fuga era impossvel, era subir na estante atrs da porta do elevador. Quando Marcus viesse 
eu pularia em cima dele e encostaria um objeto pontudo em sua garganta. Depois iria us-lo como refm para passar pelos dois capangas.
     Certo, era meio Xena, a princesa guerreira. Ei, mas era um plano, certo? Eu nunca disse que era um plano bom. S era o melhor que eu pude inventar nas circunstncias. 
Quero dizer, ningum ia aparecer de repente para me resgatar. Eu no via como algum poderia fazer isso - a no ser Jesse, talvez, que era perfeito para atravessar 
paredes e coisas do tipo.
     S que Jesse no sabia que eu precisava dele. No sabia que eu estava encrencada. Nem sabia onde eu estava.
     E eu no tinha como avisar.
     Decidi que um pedao de vidro seria uma arma excelente, muito ameaadora, por isso procurei um de aparncia particularmente letal em meio  baguna que eu tinha 
feito sob as janelas do Sr. Beaumont.
     Dois minutos.
     Segurando o caco de vidro - desejando estar com minhas luvas de caa-fantasma para no me cortar - subi na estante, o que no era fcil com sapatos de salto 
oito.
     Um minuto e meio.
     Olhei para Tad. Ele estava frouxo como uma boneca de pano, o peito nu subindo e descendo num movimento vagaroso, rtmico. Na verdade era um peito bem legal 
de se olhar. No to bonito, talvez, quanto o de Jesse. Mas mesmo assim, apesar de seu tio ser um assassino, e de seu pai ser o astro mximo do hospcio - para no 
mencionar toda a coisa do basquete - eu no acharia ruim encostar a cabea nele. No peito, quero dizer. Voc sabe, em outras circunstncias, sendo uma delas Tad 
estar consciente.
     Mas nunca teria essa chance se no conseguisse que ns dois sassemos vivos.
     No havia qualquer som na sala, alm da respirao constante de Tad e do borbulhar do aqurio.
     O aqurio.
     Olhei o aqurio. Ele cobria a maior parte de uma parede da sala. Como aqueles peixes eram alimentados?, pensei. O tanque era embutido na parede. Eu no podia 
detectar nenhum alapo conveniente pelo qual algum pudesse botar comida. O tanque tinha de ser acessado pela sala ao lado.
     A sala em que eu no podia entrar porque a porta estava trancada.
     A no ser que.
     Trinta segundos.
     Pulei da estante e comecei a ir para o aqurio.
     Pude ouvir o elevador comeando a zumbir. Marcus, bem na hora, estava voltando. No preciso dizer que eu no tinha posto o mai como uma boa menina. Se bem 
que peguei-o -  junto com a cadeira giratria que estivera atrs da mesa do Sr. Beaumont - enquanto ia para o aqurio.
     O zumbido do elevador parou. Ouviu a maaneta girar. Continuei andando. As rodinhas da cadeira faziam barulho no cho de parque.
     A porta do elevador se abriu. Marcus, vendo que eu no tinha feito o que ele havia pedido, balanou a cabea.
     - Srta. Simon - disse ele, num tom desapontado. - Estamos sendo difceis?
     Posicionei a cadeira giratria na frente do aqurio. Depois levantei um p e o equilibrei em cima do assento. Num dos dedos segurei o mai pendurado.
     - Desculpe - falei. - Mas cor de morto nunca foi a minha predileta.
     Ento peguei aquela cadeira e joguei com toda a fora contra o aqurio gigante.
     
Captulo 20



     A  prxima coisa que percebi foi um estrondo tremendo. Depois uma parede de gua, vidro e vida marinha extica veio na minha direo.
     Aquilo me jogou de costas. Um maremoto me acertou com o peso de um trem de carga, jogando-me no cho e depois me esmagando contra a parede mais distante da
sala. Fiquei sem flego deitada por um segundo, encharcada, tossindo gua salobra, parte da qual engoli acidentalmente.
     Quando abri os olhos tudo que podia ver eram peixes. Peixes grandes, peixes pequenos, tentando nadar nos seis centmetros de gua no cho de madeira, abrindo 
e fechando a boca numa tentativa pattica de agarrar mais alguns segundos de vida. Um peixe em particular tinha parado perto de mim e me encarava com olhos quase 
to vtreos e sem vida quando os de Marcus quando havia me explicado como pretendia me matar.
     Ento uma voz muito familiar atravessou meus pensamentos atordoados com os paradoxos da vida e da morte.
     - Suzannah?
     Levantei a cabea e fiquei extremamente surpresa ao ver Jesse parado acima de mim, com uma expresso muito preocupada no rosto.
     - Ah. Oi. Como chegou aqui?
     - Voc me chamou.
     Como eu podia ter pensado que qualquer cara, at mesmo Tad, seria to gato quanto Jesse, imaginei enquanto estava ali olhando-o. Tudo, desde a cicatriz minscula 
na sobrancelha at o modo como o cabelo escuro se encaracolava na nuca, era perfeito, como se Jesse fosse o molde original para o arqutipo do gato.
     E tambm era educado. Os modos do velho mundo eram os nicos que ele conhecia. Inclinou-se e me ofereceu a mo...sua mo esguia, morena, completamente livre
de sumagre-venenoso.
     Estendi a minha. Ele me ajudou a ficar de p.
     - Voc est bem? - perguntou, provavelmente porque eu no estava falando bobagem como sempre.
     - Estou - falei. Encharcada e fedendo a peixe, mas bem.
     - Mas eu no chamei voc.
     Do canto oposto da sala veio um rosnado muito baixo. Marcus estava lutando para ficar de p, mas ficava escorregando na gua e nos peixes.
     - Por que diabos voc fez isso? - perguntou.
     Na verdade eu no podia lembrar. Acho que talvez, quando a gua me acertou, eu tenha batido a cabea em alguma coisa. Uau,  pensei. Amnsia. Legal. Com certeza 
vou me livrar da prova de geometria de amanh.
     Ento meu olhar caiu sobre Tad - ainda dormindo pacificamente no sof, com um peixe extico se sacudindo na agonia da morte em suas pernas nuas - e lembrei.
     - Ah, . O tio de Tad, Marcus, estava tentando nos matar. Iria nos matar, se eu no impedisse.
     No sei se estava pensando direito. Tudo que podia lembrar de antes que a gua nos acertasse era que era importante, por algum motivo, que eu fosse para o outro 
lado daquele aqurio.
     Por isso atravessei toda aquela gua - pensando comigo mesma: minhas botas esto totalmente arruinadas - e subi no que agora era apenas uma plataforma elevada, 
como um palco, diante de um mar de caudas de peixes se debatendo. As luzes do aqurio, ainda enterradas no cascalho colorido do fundo, me iluminavam.
     - Suzannah - ouvi Jesse dizer. Ele tinha me acompanhado e agora estava me olhando curiosamente. - O que voc est fazendo?
     Ignorei-o - e ignorei Marcus tambm, que ainda estava xingando enquanto tentava atravessar a sala sem arruinar seus Cole-Haans mais do que j estavam.
     Parei dentro do aqurio arruinado e olhei para cima. Como tinha suspeitado, os peixes eram alimentados de uma sala atrs do tanque... uma sala onde havia apenas 
equipamento de manuteno de aqurio. A porta trancada da sala do Sr. Beaumont levava a esse cmodo. No havia outra forma de sair.
     No que agora importasse, claro.
     - Desa da. - Marcus estava realmente furioso. - Desa da, por Deus, ou eu subo e pesco voc...
     Me pesca. Isso pareceu meio engraado nas circunstncias. Comecei a rir.
     - Suzannah - disse Jesse. - Eu acho... Veremos at quando voc vai rir - berrou Marcus - quando eu acabar com voc, sua vaca estpida.
     Parei de rir de repente.
     - Suzannah - disse Jesse. Agora ele realmente parecia preocupado.
     - No se preocupe, Jesse - falei numa voz perfeitamente calma. - Eu tenho tudo sob controle.
     - Jesse? - Marcus olhou em volta. No vendo mais ningum na sala, alm de Tad, falou: -  Marcus. Eu sou Marcus, lembra? Agora desa da. Ns no temos mais 
tempo para estes jogos infantis...
     Curvei-me e peguei uma das luzes do aqurio, acesa na areia do fundo. Na forma de um pequeno farol, estava muito quente quando a toquei.
     Percebendo que eu no iria at ele por vontade prpria, Marcus suspirou e enfiou a mo no bolso do palet, que agora estava molhado e fedorento. Teria de trocar 
de roupa antes do encontro para o almoo.
     - Certo, quer brincar? - Marcus sacou do bolso do peito alguma coisa feita de metal brilhante. Percebi que era uma arma minscula. Uma vinte e dois, pela aparncia. 
Eu sabia por ter visto muitos episdios de Nova York contra o crime.
     - Est vendo isso? - Marcus apontou o cano para mim.
     - E no quero ter de atirar em voc. O legista costuma suspeitar quando as vtimas de afogamento tm ferimentos de bala. Mas ns sempre podemos deixar as hlices
desmembrarem voc, de modo que ningum note. Talvez s a sua cabea seja jogada em terra. Sua me no adoraria isso? Agora largue essa luminria e vamos.
     Levantei-me, mas no larguei a luminria. Ela veio comigo, junto com o fio preto, emborrachado, que passava por baixo da areia.
     - Isso mesmo - disse Marcus, parecendo satisfeito.
     - Largue a luminria e vamos.
     Parado na gua ao lado do aspirante a meu assassino, Jesse parecia extremamente interessado no que estava acontecendo, e falou:
     - Suzannah, isso que ele est segurando  uma arma.
     - Voc quer que eu...
     - No se preocupe, Jesse - falei me aproximando da beira do aqurio, onde antes houvera uma parede de vidro, isto , antes de eu t-la quebrado. - Est tudo
sob controle.
     - Quem, diabos,  Jesse? - Eu percebi que Marcus estava ficando irritado. - No existe nenhum Jesse aqui. Agora largue a luminria e vamos...
     Fiz o que ele disse. Bem, mais ou menos. Isto , enrolei na mo esquerda o fio que estava preso  luminria. Depois, com a outra mo, puxei a luminria de modo
que o fio saiu da parte de trs do soquete.
     Depois fiquei ali segurando a luminria numa das mos e o fio esgarado na outra.
     - Fantstico - disse Marcus. - Voc quebrou a luminria.
     Realmente me mostrou. Agora - sua voz subiu de volume -, desa aqui!
     Fui at a beira do tanque.
     - Eu no sou estpida - informei a Marcus.
     Ele sinalizou com a arma.
     - Tanto faz. S...
     - E - acrescentei - no sou uma vaca.
     Os olhos de Marcus se arregalaram. De repente ele percebeu o que eu ia fazer.
     - No! - gritou.
     Mas era tarde demais. Eu j tinha jogado o fio na gua salgada aos ps de Marcus.
     Houve um brilhante claro azul e um monte de estalos. Marcus gritou.
     E ento fomos jogados na escurido impenetrvel.
     
Captulo 21



     Bem, certo, no era realmente impenetrvel. Eu ainda podia ver Jesse, brilhando daquele seu jeito.
     - Isso foi muito impressionante, Suzannah - disse ele olhando para Marcus que gemia.
     - Obrigada - falei, satisfeita por ter obtido sua aprovao.
     Isso acontecia muito raramente. Fiquei feliz por ter ouvido Mestre durante uma de suas recentes palestras sobre segurana eltrica.
     Agora voc cr que pode me contar exatamente o que est acontecendo aqui? - perguntou Jesse oferecendo-me a mo enquanto eu descia do aqurio. - Aquele ali 
no sof  o seu amigo Tad?
     - Ah. - Antes de descer eu me abaixei, procurando o fio no cho. - Venha aqui, certo, para eu poder... - O brilho de Jesse, por mais sutil que fosse, logo 
revelou o que eu estava procurando. - No importa. - Puxei o fio de volta para o aqurio. - S para o caso de eles religarem o disjuntor antes de eu sair daqui - 
falei, levantando-me e saindo do aqurio.
     - Eles quem? Suzannah, o que est acontecendo aqui?
     -  uma longa histria. E no vou ficar aqui para contar. Quero estar longe quando ele tiver acordado - assenti para Marcus, que agora estava gemendo mais alto. 
- Ele tem dois compadres de pescoo grosso esperando por mim, tambm, para o caso... - parei.
     Jesse me olhou interrogativamente.
     - O qu?
     - Est sentindo esse cheiro?
     Pergunta idiota. Quero dizer, afinal de contas, o cara est morto. Ser que os fantasmas sentem cheiro? Aparentemente sim, porque ele disse:
     - Fumaa.
     Apenas uma palavra, mas ela fez um arrepio descer pela minha coluna. Ou isso ou um peixe tinha entrado no meu suter.
     Olhei para o aqurio. Para alm dele pude ver um brilho rosado emanando da sala contgua. Como eu havia suspeitado, ao dar um gigantesco choque eltrico em 
Marcus eu tinha conseguido provocar uma fagulha no painel de circuitos. Aparentemente o fogo se espalhou para as paredes em volta. Dava para ver as primeiras lnguas 
minsculas de chamas laranja saltando de trs do lambri.
     - Fantstico - falei. O elevador era intil sem eletricidade. E, como eu sabia muito bem, no havia outra sada da sala.
     Mas Jesse no era to derrotista quanto eu.
     - As janelas - disse ele, e correu para elas.
     - No adianta. - Eu me encostei na mesa do Sr. Beaumont e peguei o telefone interno. Desligado, como eu esperava. - Elas so pregadas.
     Jesse olhou para mim por cima do ombro. Pareceu achar divertido.
     - E da? - perguntou.
     - E da - eu bati com o fone. - Pregadas, Jesse. Tipo impossvel de abrir.
     - Para voc, talvez. - Ao mesmo tempo em que dizia, os postigos de madeira perto da janela mais prxima comearam a tremer malignamente como se sopradas por 
um vendaval invisvel. - Mas no para mim.
     Olhei impressionada.
     - Que coisa, moo - falei. - Eu tinha esquecido dos seus super-poderes.
     O olhar de Jesse passou de divertido para confuso.
     - Meus o qu?
     - Ah. - Parei com a imitao que eu estava fazendo de um garoto de um episdio do Superman.
     - No faz mal.
     Acima do som de pregos gritando como se fossem apanhados na zona de suco de um tornado classe 5, ouvi pessoas gritando. Olhei para o elevador. Os capangas, 
aparentemente preocupados com o bem-estar do patro, estavam berrando o nome dele para dentro do poo.
     Acho que no podia culp-los. A fumaa ia enchendo constantemente a sala. Eu pude ouvir pequenas erupes agora enquanto substncias qumicas - provavelmente 
de natureza perigosa - usadas para manter o aqurio do Sr. Beaumont explodiam em chamas no cmodo ao lado. Se no sassemos logo, eu tinha a sensao de que estaramos 
todos inalando alguns vapores bastante txicos.
     Felizmente naquele momento os postigos voaram, primeiro numa e depois em outra janela, com toda a fora como se um furaco as tivesse subitamente arrancado. 
Blam! E depois blam de novo. Eu nunca tinha visto algo assim, nem mesmo no Discovery Channel.
     A luz cinzenta entrou. Percebi que ainda estava chovendo l fora.
     No importava. Acho que nunca fiquei to feliz em ver o cu, mesmo estando com nuvens escuras daquele jeito. Corri para a janela mais prxima e olhei para fora, 
forando a vista por causa da chuva.
     Vi que estvamos no ltimo andar da casa. Abaixo de ns ficava o ptio...
     E a piscina.
     Os gritos no poo do elevador estavam mais fortes. Parecia que quanto mais densa ficava a fumaa, mais frenticos os capangas se tornavam. Que Deus no permitisse 
que um deles ligasse para o 911. Mas, considerando as escolhas profissionais que tinham feito, esse nmero provavelmente no tinha muito apelo para eles.
     Medi a distncia entre onde eu estava e a parte funda da piscina.
     - No pode ter mais de seis metros. - Observando meus clculos, Jesse assentiu para Marcus. - V voc. Eu cuido dele. - Seus olhos escuros se viraram para o 
poo do elevador. - E deles, se fizerem algum progresso.
     No perguntei o que ele queria dizer com "cuido". No precisava. A luz perigosa em seus olhos dizia tudo.
     Olhei para Tad. Jesse acompanhou meu olhar, depois revirou os olhos, onde a luz perigosa tinha se extinguido. Ele murmurou alguma coisa em espanhol.
     - Bem, eu no posso simplesmente deix-lo aqui - falei.
     - No.
     E foi assim que, alguns segundos depois, apoiado por mim mas transportado pela ligao telecintica de Jesse, Tad terminou empoleirado no parapeito de uma das 
janelas que Jesse tinha arrombado para mim.
     O nico modo de colocar Tad na piscina - e em segurana - era jog-lo da janela. Esse j era um empreendimento suficientemente arriscado sem ter um inferno 
chamejando na sala ao lado, e assassinos de aluguel descendo. Eu tinha de me concentrar. No queria nada malfeito. E se eu errasse e ele batesse no ptio? Tad podia 
quebrar o pescoo cheio de erupo de sumagre venenoso.
     Mas eu no tinha muita escolha. Era transform-lo numa possvel panqueca ou deix-lo virar churrasco de verdade. Optei pela possvel panqueca, pensando que 
era mais provvel ele se curar de um crnio rachado do que de queimaduras de terceiro grau a tempo para o baile de formatura e, depois de mirar do melhor modo possvel, 
soltei-o. Ele caiu para trs, como um homem r mergulhando da lateral de um barco, girando uma vez no cu e fazendo o que Dunga chamaria de um mortal invertido bem 
sinistro (Dunga  um vido praticante de snowboard - ainda que sem talento).
     Felizmente o mortal invertido sinistro de Tad terminou com ele flutuando de costas na parte funda da piscina de seu pai.
     Claro, para garantir que ele no se afogasse - pessoas inconscientes no so os melhores nadadores - eu pulei em seguida... mas no antes de dar uma ltima 
olhada em volta.
     Marcus finalmente ia comeando a recuperar a conscincia. Estava tossindo um pouco por causa da fumaa e espadanando na gua dos peixes. Jesse estava acima 
dele, olhando srio.
     - V, Suzannah - disse ele quando notou que eu tinha hesitado.
     Assenti. Mas ainda havia uma coisa que eu precisava saber.
     - Voc no vai... - Eu no queria, mas tinha de perguntar. - Voc no vai mat-lo, vai?
     Jesse pareceu to incrdulo como se eu tivesse perguntado se ele ia servir uma fatia de torta de queijo a Marcus. Falou:
     - Claro que no. V.
     Fui.
     A gua estava quente. Era como pular numa banheira gigante. Quando nadei at a superfcie - o que, por sinal, no era exatamente fcil com botas - fui rapidamente 
para perto de Tad.
     E descobri que a gua o havia reanimado. Ele estava espadanando, confuso e tomando grandes goles de gua. Bati em suas costas algumas vezes e o guiei at a 
beira da piscina,  qual ele se agarrou agradecido.
     S... Sue - engasgou ele, perplexo. - O que voc est fazendo aqui? - Ento notou minha jaqueta de couro. - E por que no est usando roupa de banho?
     -  uma longa histria.
     Depois disso ele pareceu ainda mais confuso, mas tudo bem. Achei que, com tanta coisa com a qual ele teria de lidar - seu pai sendo candidato ao Prozac, o tio 
um assassino em srie - ele no precisava de todos os detalhes gosmentos imediatamente. Em vez disso guiei-o at a parte rasa. S estvamos ali h um minuto quando 
o Sr. Beaumont abriu a porta deslizante e saiu.
     - Crianas - disse ele. Estava usando um roupo de seda e chinelos. Parecia muito empolgado. - O que esto fazendo nessa piscina? H um incndio! Saiam da casa 
imediatamente.
     Ao mesmo tempo em que ele dizia isso eu pude ouvir,  distncia, o uivo de uma sirene. O corpo de bombeiros estava a caminho. Algum tinha telefonado para o 
911.
     - Eu avisei ao Marcus sobre as ligaes eltricas na minha sala - disse o Sr. Beaumont, enquanto estendia uma grande toalha fofa para Tad. - Eu tinha a sensao 
de que havia um defeito. Meu telefone nunca fazia ligaes externas.
     Ainda de p na gua que ia at a cintura, acompanhei o olhar do Sr. Beaumont e me vi olhando para a janela de onde eu tinha pulado. A fumaa saa dela. O incndio 
parecia contido naquela parte da casa, mas mesmo assim parecia bastante ruim. Imaginei se Marcus e seus capangas teriam sado a tempo.
     E ento algum subiu na janela e olhou para mim.
     No era Marcus. E tambm no era Jesse, se bem que essa pessoa tivesse uma luminosidade reveladora.
     Era algum que acenava alegre para mim.
     A Sra. Deirdre Fiske.
     
Captulo 22



     Nunca mais vi Marcus Beaumont. Ah, pare de se preocupar: ele no bateu as botas. Claro, os bombeiros procuraram por ele, Eu disse que achei que havia pelo menos
uma pessoa presa naquela sala em chamas, e eles fizeram o mximo para chegar a tempo de salv-lo.
     Mas no acharam ningum. E nenhum resto humano foi descoberto pelos investigadores que entraram depois que o incndio foi finalmente apagado. Acharam um monte 
de peixes queimados, mas nada de Marcus Beaumont.
     Marcus Beaumont foi declarado oficialmente desaparecido.
     Mais ou menos do mesmo modo, pensei, como suas vtimas tinham desaparecido. Ele simplesmente sumiu, no ar.
     Um monte de pessoas ficaram perplexas com o desaparecimento do empresrio proeminente. Semanas depois ainda saam matrias sobre isso nos jornais locais e at 
uma meno numa rede de notcias a cabo. De modo interessante, a pessoa que mais sabia sobre os ltimos momentos de Marcus Beaumont antes de ele desaparecer nunca 
foi entrevistada - muito menos interrogada - sobre o que poderia ter levado a esse estranho desaparecimento.
     O que  provavelmente bom, considerando o fato de que ela tinha coisas mais importantes com que se preocupar. Por exemplo, ficar de castigo.
     Isso mesmo. De castigo.
     Se voc pensar bem, a nica coisa que eu fiz de realmente errada no dia em questo foi me vestir de modo um pouco menos conservador do que deveria. Srio. Se 
eu fosse de Banana Republic em vez de Betsey Johnson, talvez nada disso tivesse acontecido. Porque a eu no seria mandada para casa trocar de roupa e Marcus nunca 
teria posto as garras em mim.
     Por outro lado, ele provavelmente ainda estaria por a, enfiando ambientalistas em botas de cimento e jogando por cima da amurada do iate do irmo... ou sei 
l como ele se livrava de todas aquelas pessoas sem ser apanhado. Nunca realmente consegui saber toda a histria sobre isso.
     De qualquer modo, fiquei de castigo, o que era totalmente injusto, se bem que no estava exatamente em condies de me defender... no sem contar a verdade 
e claro que no poderia fazer isso.
     Acho que voc pode imaginar como deve ter sido para minha me e meu padrasto quando o carro da polcia parou na frente da nossa casa e o policial Green abriu 
a porta dos fundos revelando... bem, euzinha.
     Eu parecia uma coisa sada de um filme sobre a Amrica ps apocalptica. Tank Girl, mas sem o corte de cabelo medonho. Irm Ernestine no teria de se preocupar 
com a hiptese de eu aparecer de novo na escola vestida com roupas Betsey Johnson. A saia estava completamente arruinada, bem como o conjunto de suter de caxemira. 
Minha fabulosa jaqueta de motoqueiro podia ficar bem, algum dia, se eu descobrisse um modo de tirar o cheiro de peixe dela. Mas as botas so uma causa perdida.
     Vou te contar, mame ficou furiosa. E no por causa das minhas roupas.
     O interessante  que Andy ficou ainda mais furioso. Interessante porque, claro, ele no era meu pai de verdade.
     Mas voc deveria ter visto o modo como ele partiu para cima de mim ali mesmo na sala de estar. Porque, claro, eu tive de explicar o que estava fazendo na casa 
dos Beaumont quando o incndio comeou, em vez de estar onde eu deveria: na escola.
     E a nica mentira em que pude pensar e que parecia um pouquinho acreditvel foi a histria da minha matria do jornal.
     Ento falei que tinha matado aula para levantar mais detalhes da minha entrevista com o Sr. Beaumont.
     Eles no acreditaram, claro. Por acaso sabiam que eu tinha sido mandada da escola para casa, para trocar de roupa. O padre Dominic, alarmado quando eu no voltei 
a tempo, tinha ligado imediatamente para minha me e meu padrasto em seus locais de trabalho para alertar sobre o fato de que eu estava desaparecida.
     - Bem - expliquei. - Eu vinha para casa trocar de roupa quando o irmo do Sr. Beaumont passou e me ofereceu uma carona, por isso eu aceitei, e quando estava 
sentada na sala do Sr. Beaumont, comecei a sentir cheiro de fumaa, por isso pulei a janela...
     Certo, at eu tenho de admitir que a coisa toda parecia super suspeita. Mas era melhor do que contar a verdade, certo? Quero dizer, ser que eles realmente 
iriam acreditar que o tio de Tad, Marcus, estava tentando me matar porque eu sabia demais sobre alguns assassinatos que ele havia cometido em nome da expanso urbana?
     No era muito provvel. Nem Tad tentou jogar esse papo para os canas que apareceram junto com os bombeiros, exigindo uma explicao para o motivo de ele estar 
em casa vestindo calo de banho num dia de aula. Acho que ele no queria encrencar o tio porque isso ficaria mal para o seu pai e coisa e tal. Ele comeou a mentir 
feito um louco dizendo que estava com gripe, e que o mdico recomendou que ele tentasse limpar o snus ficando longo tempo numa banheira quente (essa  boa: eu definitivamente 
teria de lembrar para referncia futura - Andy estava falando em construir uma banheira de hidromassagem no deque dos fundos de casa).
     O pai de Tad, que Deus o abenoe, negou completamente nossas duas histrias, insistindo em que estivera na sala de estar esperando que o almoo fosse servido 
quando um dos empregados informou que seu escritrio estava pegando fogo. Ningum dissera nada sobre Tad estar em casa com gripe, ou que havia uma garota esperando 
para ter uma entrevista com ele.
     Mas felizmente ele tambm afirmou que, enquanto esperava o almoo, estava tirando um cochilo em seu caixo.
     Isso mesmo: no caixo.
     Isso provocou vrios olhares desconfiados e por fim foi decidido que o Sr. Beaumont deveria ser admitido na ala psiquitrica do hospital local para ser observado 
durante alguns dias. Isso, como voc pode entender, necessariamente cortou qualquer conversa que Tad e eu pudssemos ter tido na ocasio e, enquanto ele partia com 
a ambulncia e o pai, eu fui pouco cerimoniosamente posta numa rdio patrulha e, eventualmente, quando os policiais se lembraram de mim, fui levada para casa.
     Onde, em vez de ser recebida no seio da famlia, levei a maior bronca da vida.
     No estou brincando. Andy ficou furioso. Disse que eu deveria ter vindo direto para casa, trocado de roupa e voltado direto para a escola. Eu no tinha nada 
que aceitar carona de ningum, particularmente de empresrios ricos que eu mal conhecia.
     Alm disso, eu tinha matado aula e no importando quantas vezes eu observasse que: a) eu tinha sido chutada da escola; e b) estava fazendo um trabalho para 
a escola (pelo menos segundo a histria que contei a ele), eu tinha essencialmente trado a confiana de todo mundo. Fiquei de castigo uma semana.
     Vou te contar, isso quase bastou para que eu pensasse em dizer a verdade.
     Quase. Mas no o suficiente.
     Eu estava me preparando para subir para o quarto - com o objetivo de "pensar no que eu tinha feito" - quando Dunga entrou e anunciou casualmente que, a propsito, 
alm de todos os meus outros pecados, eu tambm lhe tinha dado um soco violento no estmago naquela manh, sem motivo aparente.
     Isso, claro, era uma mentira descarada, e eu fui rpida em lembrar isso a ele: eu tinha sido provocada, desnecessariamente. Mas Andy, que no admite violncia
por nenhum motivo, de imediato me ps de castigo por mais uma semana. Como ele tambm tinha posto Dunga de castigo pelo que quer que tivesse me levado a lhe dar 
um soco, no me importei demais. Mas mesmo assim a coisa pareceu meio exagerada. To exagerada que, depois de Andy ter sado da sala, meio tive de me sentar, exausta 
depois de sua fria, que eu nunca tinha visto antes - bem, pelo menos lanada na minha direo.
     - Voc realmente deveria ter avisado onde estava - disse minha me, sentando-se  minha frente e olhando meio preocupada para a capa do sof em que eu estava 
sentada.
     - O pobre do padre Dominic ficou morto de medo por voc.
     - Desculpe - falei tristonha, repuxando os restos da saia.
     - Vou me lembrar da prxima vez.
     - Mesmo assim. O policial Green nos disse que voc ajudou muito durante o incndio. Por isso eu acho...
     Olhei-a.
     - Acha o qu?
     - Bem. Andy no quer que eu lhe diga, mas...
     Ela na verdade se levantou - mame, que j entrevistou Yasser Arafat - saiu da sala, ostensivamente para verificar se Andy no poderia estar ouvindo.
     Revirei os olhos. Amor.  uma coisa que pode transformar a gente numa tremenda otria.
     Enquanto revirava os olhos, notei que minha me, que sempre fica com muita energia nervosa numa crise, tinha passado o tempo em que eu estivera desaparecida 
pendurando mais quadros na parede da sala. Havia alguns novos, que eu no tinha visto antes. Levantei-me para inspecion-los mais de perto.
     Havia um retrato dela com meu pai no dia do casamento. Eles estavam descendo a escada do tribunal onde tinham se casado e seus amigos jogavam arroz. Pareciam 
impossivelmente jovens e felizes. Fiquei surpresa em ver uma foto de mame e papai junto com as de mame se casando com Andy.
     Mas ento notei que ao lado da foto de mame e papai havia uma foto do que devia ser o casamento de Andy com sua primeira mulher. Era mais um retrato de estdio 
do que um instantneo simples. Andy estava de p, parecendo rgido e meio embaraado, perto de uma garota muito magra, meio riponga, de cabelos compridos e retos.
     Uma garota riponga que parecia meio familiar.
     - Claro que parece - disse uma voz junto ao meu ombro.
    - Minha nossa, papai - sibilei, girando. - Quando vai parar com isso?
     - Voc est numa tremenda encrenca, mocinha - disse meu pai. Ele parecia srio. Bem, to srio quanto um cara com calas de moletom pode parecer. - O que voc
estava pensando?
     Sussurrei:
     - Estava pensando em tornar seguro para as pessoas protestar contra a destruio dos recursos naturais da Califrnia sem ter de se preocuparem em ser lacradas 
num tambor de leo e enterradas a sete palmos do cho.
     - No banque a espertinha comigo, Suzannah. Voc sabe do que eu estou falando. Voc poderia ter sido morta.
     - Voc est parecendo ele. - Revirei os olhos para a foto de Andy.
     - Ele fez a coisa certa, colocando voc de castigo - disse meu pai severamente. - Ele est tentando lhe dar uma lio. Voc se comportou de modo impensado e 
insensato. E no devia ter batido no filho dele.
     - No Dunga? Voc est brincando?
     Mas dava para ver que ele estava falando srio. Tambm dava para ver que esta era uma discusso que eu no iria ganhar.
     Ento em vez disso olhei a foto de Andy e sua primeira mulher e falei, carrancuda:
     - Voc podia ter me falado sobre ela. Isso teria tornado minha vida muito mais simples.
     - Eu tambm no sabia - disse meu pai, dando de ombros. - No at que vi sua me pendurar a foto esta tarde.
     - O que quer dizer, no sabia? - Olhei-a furiosa. - Ento por que todos aqueles avisos cifrados?
     - Bem, eu sabia que Beaumont no era o Red que voc estava procurando. Eu lhe disse isso.
     - Ah, grande ajuda.
     - Olha. - Meu pai pareceu chateado. - Eu no sei tudo. S estou morto.
     Ouvi os passos de mame no piso de madeira.
     - Mame est vindo. D o fora.
     E papai, pela primeira vez, fez o que eu pedi, de modo que quando mame voltou  sala eu estava parada diante das fotos na parede, parecendo muito recatada 
- bem, pelo menos para uma garota que praticamente fora queimada viva.
     - Escute - sussurrou minha me.
     Virei de costas para a foto. Mame estava segurando um envelope. Era um envelope cor-de-rosa, coberto com pequenos coraes e arco-ris desenhados  mo. O 
tipo de coraes e arco-ris que Gina sempre pe nas cartas que manda de Nova York.
     - Andy queria que eu esperasse para lhe contar isso - disse mame em voz baixa - at depois de terminar o castigo. Mas no posso. Quero que voc saiba que falei 
com a me de Gina, e ela concordou em deixar Gina vir para c fazer uma visita na semana de frias de primavera, no ms que vem.
     Minha me desmoronou quando eu envolvi seu pescoo com os dois braos.
     - Obrigada! - gritei.
     - Ah, querida - disse mame me abraando. Se bem que meio hesitante, notei, j que eu ainda fedia a peixe. - De nada. Eu sei como voc sente falta dela. E sei 
como tem sido difcil se ajustar a uma escola nova e a amigos novos.
     - E a ter irmos adotivos. Ns temos muito orgulho de como voc est se saindo. - Ela se afastou de mim. Dava para ver que continuava querendo me abraar, mas 
eu estava nojenta demais, at mesmo para minha me. - Bem, pelo menos at agora.
     Olhei a carta de Gina, que mame tinha me entregue. Gina era uma missivista fantstica. Eu mal podia esperar para subir e ler. S que... s que ainda havia 
uma coisa me incomodando.
     Olhei para trs, por cima do ombro, para a foto de Andy com a primeira esposa.
     Mame acompanhou meu olhar.
     - Ah, sim. Bem, isso manteve minha cabea ocupada enquanto ns espervamos notcias suas. Porque no sobe e toma um banho? Andy est fazendo pizza para o jantar.
     - A primeira mulher dele - falei, com os olhos ainda grudados na foto. - A me de Dunga... quero dizer, a me de Brad. Ela morreu, certo?
     - H-h. H vrios anos.
     - De qu?
     - Cncer no ovrio. Querida, tenha cuidado com onde vai pr essas roupas quando tirar. Elas esto cobertas de fuligem. Olha, tem uma gosma preta em cima da 
minha capa de sof nova da Pottery Barn.
     Olhei a foto.
     - Ela... - Lutei para formular a pergunta correta. - Ela entrou em coma, ou alguma coisa do tipo?
     - Acho que sim. , perto do final.
     - Andy teve de... - Fiquei revirando a carta de Gina. - Eles tiveram de desligar os aparelhos?
     - Sim. - Mame tinha esquecido a capa de sof. Agora estava me encarando, obviamente preocupada. - Sim, de fato eles tiveram de pedir que ela fosse retirada 
do suporte de vida num certo ponto, j que Andy acreditava que ela no gostaria de viver assim. Por qu?
     - No sei. - Olhei os coraes e arco-ris no envelope de Gina. Red. Tinha sido to idiota. Voc me conhece, insistira a me de Mestre. Meu Deus, minha licena 
de mediadora deveria ser revogada. Se houvesse uma licena, coisa que obviamente no h.
     - Qual era o nome dela? - perguntei, balanando a cabea para a foto. - Da me de Brad.
     - Cynthia.
     Cynthia. Meu Deus, que panaca eu sou.
     - Querida, venha me ajudar, est bem? - Mame ainda estava mexendo na poltrona em que eu tinha me sentado.
     - No consigo soltar esta almofada...
     Enfiei o envelope de Gina no bolso e fui ajudar mame.
     - Onde est Mestre? Quero dizer, David?
     Mame me olhou curiosamente.
     - L em cima no quarto dele, acho, fazendo o dever de casa. Por qu?
     - Ah, eu s tenho de contar uma coisa a ele. Uma coisa que deveria ter contado h muito tempo.
     
Captulo 23



     E  ento? - perguntou Jesse. - Como ele recebeu a coisa? - No quero falar nisso.
     Eu estava esticada na cama, totalmente sem maquiagem, vestida com meu agasalho de corrida mais antigo. Tinha um novo plano: decidi que iria tratar Jesse exatamente 
como tratava meus irmos adotivos. Desse modo teria a garantia de no me apaixonar por ele. Estava folheando um exemplar da Vogue em vez de fazer meu dever de geometria 
como deveria. Jesse estava na sentadeira da janela - claro - acariciando Spike.
     Jesse balanou a cabea.
     - Qual ? - Eu sempre achava estranho quando Jesse dizia coisas como Qual . Parecia muito esquisito vindo de um cara que usava camisa com amarrados em vez 
de botes. - Conte o que ele disse.
     Virei uma pgina da revista.
     - Conte o que vocs fizeram com Marcus.
     Jesse pareceu meio surpreso com a pergunta.
     - Ns no fizemos nada com ele.
     - Besteira. Ento para onde ele foi?
     Jesse deu de ombros e coou Spike debaixo do queixo. O gato estpido estava ronronando to alto que dava para ouvir do outro lado do quarto.
     - Acho que ele decidiu viajar por um tempo. - O tom de Jesse era de uma inocncia enganadora.
     - Sem dinheiro? Sem os cartes de crdito? Uma das coisas que os bombeiros tinham achado no quarto era a carteira de Marcus... e a arma dele.
     - H uma coisa a ser dita com relao a conhecer este seu grande pas a p -Jesse deu um tapinha nas costas de Spike quando o gato lhe deu uma patada preguiosa. 
-Talvez ele passe a apreciar melhor a beleza natural.
     Funguei e virei uma pgina da revista.
     - Ele vai voltar em uma semana.
     - Acho que no.
     Jesse falou isso com tanta certeza que eu senti suspeitas instantaneamente.
     - Por qu?
     Ele hesitou. No queria contar, dava para ver.
     - O qu? - falei. - Contar a mim, um mero ser vivo, vai violar algum cdigo espectral?
     - No - disse Jesse com um sorriso. - Ele no vai voltar, Suzannah, porque as almas das pessoas que ele matou no vo deixar.
     Levantei as sobrancelhas.
     - O que voc quer dizer?
     - Na minha poca diriam que ele est atormentado. No sei como chamam agora. Mas sua interveno teve um grande efeito na Sra. Fiske e nos outros trs cuja 
vida Marcus tirou. Eles se juntaram e no vo descansar enquanto ele no for suficientemente punido pelos crimes. Ele pode correr de uma ponta da terra  outra, 
mas nunca vai escapar deles. Pelo menos at morrer. E quando isso acontecer - a voz de Jesse estava dura - ele ser apenas uma sombra do que foi.
     No falei nada. No podia. Como mediadora, sabia que no deveria aprovar esse tipo de comportamento. Quero dizer, os fantasmas no deveriam ter permisso de 
tomar a lei nas prprias mos, tanto quanto qualquer ser vivo.
     Mas eu no gostava particularmente de Marcus e nem tinha como provar que ele havia matado aquelas pessoas. Eu sabia que ele nunca seria punido pelos habitantes 
deste mundo. Ento o que havia de to errado em ser punido pelos que viviam no outro?
     Olhei para Jesse pelo canto dos olhos, lembrando que, pelo que eu tinha lido, ningum jamais fora condenado pelo crime contra ele, tambm.
     - Ento - falei - acho que voc fez a mesma coisa, hein, com as...  ... pessoas que mataram voc, certo?
     Mas Jesse no engoliu a pergunta marota. Apenas sorriu e disse:
     - Diga o que aconteceu com seu irmo.
     - Irmo adotivo - lembrei.
     E no ia contar a Jesse sobre minha conversa com Mestre, assim como Jesse no contaria chongas sobre como tinha morrido. S que no meu caso era porque o que 
tinha acontecido com Mestre era simplesmente embaraoso demais para contar. Jesse no queria falar sobre como tinha morrido por que... bem, no sei. Mas duvido de 
que fosse porque se sentia sem graa com isso.
     Eu tinha encontrado Mestre exatamente onde mame disse que ele estaria, em seu quarto fazendo o dever de casa, um trabalho que s deveria ser entregado no ms 
seguinte. Mas assim era o Mestre: por que deixar para amanh um dever de casa que voc podia fazer hoje?
     Seu "entra", quando eu bati na porta foi casual. Ele no havia suspeitado que era eu. Eu nunca entrava nos quartos dos meus irmos adotivos, se pudesse evitar. 
O cheiro de meias sujas era simplesmente avassalador demais.
     S que como eu tambm no estava cheirando a frescor de margaridas naquele momento em particular, achei que suportaria.
     Mestre ficou chocado ao me ver, com o rosto quase to vermelho quanto os cabelos. Pulou e tentou esconder a pilha de cuecas sujas debaixo do edredom da cama 
desfeita. Mandei relaxar. E ento me sentei naquela cama desarrumada e disse que tinha uma coisa para lhe contar.
     Como ele recebeu? Bem, para comear, ele no fez um monte de perguntas estpidas tipo como voc sabe? Ele sabia como eu sabia. Sabia um pouco sobre o negcio 
de mediao. No muito, mas o bastante para saber que eu me comunico, numa base um tanto regular, com os mortos.
     Acho que foi o fato de que era com sua me que eu estivera me comunicando dessa vez que lhe trouxe lgrimas aos olhos azuis... e me deixou meio chocada. Eu
nunca tinha visto Mestre chorar.
     - Ei - falei cheia de alarme. - Ei, tudo bem...
     - Como... - Mestre estava contendo um soluo. Dava para ver totalmente. - Como era sua aparncia?
     - Como era sua aparncia? - repeti, sem ter certeza de que tinha ouvido direito. Mas diante de sua vigorosa confirmao com a cabea falei, com cuidado: - Bem,
ela estava... ela estava bem bonita.
     Os olhos cheios de lgrimas de Mestre se arregalaram.
     - Mesmo?
     - . Foi por isso que eu reconheci, voc sabe. Por causa da foto dela com seu pai, l embaixo. Ela estava daquele jeito. S com o cabelo mais curto.
     O esforo que Mestre estava fazendo para no chorar fez com que sua voz tremesse.
     - Eu queria poder... eu queria poder v-la assim. Na ltima vez em que a vi, ela estava terrvel. No como naquela foto. Voc no teria reconhecido. Ela estava 
em c-coma.
     - Os olhos dela estavam fundos. E havia um monte de tubos saindo dela...
     Mesmo eu estando sentada a uns trinta centmetros dele, senti o tremor que o atravessou. Falei gentilmente:
     - David, o que vocs fizeram, quando tomaram a deciso de deixar que ela fosse embora... foi a coisa certa. Foi o que ela queria.  isso que ela precisa garantir 
que voc entenda. Voc sabe que foi a coisa certa, no sabe?
     Os olhos dele estavam to profundamente cravados nos meus que eu mal podia ver suas ris. Enquanto eu olhava, uma lgrima escapou e escorreu pela bochecha, 
seguida rapidamente por outra do lado oposto do rosto.
     I-intelectualmente - disse ele. - Acho que sim. M-mas... Foi a coisa certa - repeti com firmeza. - Voc tem de acreditar. Ela acredita. Ento pare de se censurar. 
Ela ama voc demais...
     Isso foi a conta. Agora as lgrimas escorriam com fora total.
     - Ela disse isso? - perguntou ele numa voz embargada que me lembrou de que, afinal de contas, ele ainda era um garotinho bem pequeno e no o computador sobre-humano 
que finge ser algumas vezes.
     - Claro que disse.
     Ela no tinha dito, claro, mas tenho certeza de que teria, se no estivesse to enojada com minha incompetncia total.
     Ento Mestre fez uma coisa que me chocou por completo: envolveu meu pescoo com os dois braos.
     Esse tipo de demonstrao passional era to pouco estilo Mestre que eu no soube o que fazer. Fiquei ali sentada por um momento incmodo, sem me mexer, com 
medo de que, se fizesse isso, poderia cortar seu rosto com algum dos rebites da minha jaqueta. Mas, finalmente, quando ele no me soltou, levantei a mo e lhe dei 
um tapinha inseguro no ombro.
     - Tudo bem - falei debilmente. - Vai ficar tudo bem.
     Ele chorou por uns dois minutos. O fato de ter se agarrado a mim, chorando daquele jeito, me deu uma sensao estranha. Era uma espcie de sentimento protetor.
     Ento ele finalmente se inclinou para trs, e, sem graa, enxugou os olhos de novo e disse:
     - Desculpe.
     - Bobagem - falei. Embora, claro, no fosse.
     - Suze. Posso perguntar uma coisa?
     Esperando mais perguntas sobre sua me, falei:
     - Claro.
     - Por que voc est fedendo a peixe?
     Voltei ao quarto pouco depois, abalada no somente pela reao emocional de Mestre ao recado mas tambm por outra coisa. Uma coisa que eu no tinha contado 
a Mestre, e que tambm no tinha inteno de mencionar a Jesse.
     Foi que enquanto eu estava abraada a Mestre sua me tinha se materializado do lado oposto da cama e olhado para mim.
     - Obrigada - disse ela. Vi que ela estava chorando quase tanto quanto o filho. S que suas lgrimas, tive uma conscincia desconfortvel, eram de gratido e
amor.
     Com toda aquela gente chorando em volta de mim, teria sido realmente um espanto que meus olhos tambm se enchessem? Puxa, qual . Eu sou apenas humana.
     Mas realmente odeio quando choro. Prefiro sangrar, vomitar ou sei l o qu. Chorar  simplesmente...
     Bem,  o pior.
     D para ver por que eu no podia contar nada disso a Jesse. Era simplesmente... pessoal demais. Era entre Mestre, a me dele e eu, e nem cavalos selvagens - 
ou fantasmas excessivamente bonitos que por acaso morassem no meu quarto - iriam arrancar isso de mim.
     Jesse, eu vi quando levantei o olhar da matria que eu estava espiando sem ver (Como saber se ele a ama em segredo. , certo. Um problema que eu no tenho de
jeito nenhum), estava rindo para mim.
     - Mesmo assim - disse ele. - Voc deve estar se sentindo bem. No  todo mediador que pega um assassino sozinho.
     Grunhi e virei outra folha.
     -  uma honra sem a qual definitivamente eu poderia viver. E no fiz isso sozinha. Voc ajudou. - Depois lembrei que, na verdade, eu estava com a situao bastante
resolvida quando Jesse apareceu. Por isso acrescentei: - Bem, mais ou menos.
     Mas isso pareceu indelicado. Por isso falei, de m vontade:
     - Obrigada por voc ter aparecido daquele jeito.
     - Como eu poderia no aparecer? Voc me chamou. - Ele tinha achado um pedao de barbante em algum lugar e agora balanava-o na frente de Spike, que o olhou
com uma expresso que parecia dizer "O que voc acha, que eu sou estpido?"
     - Hmm. Eu no chamei voc, certo? No sei de onde voc tirou isso.
     Ele me olhou, com os olhos mais escuros do que nunca  luz do sol poente que jorrava sem misericrdia no meu quarto todo dia no fim de tarde.
     - Eu ouvi voc claramente, Suzannah.
     Franzi a testa. Isso estava ficando um pouco esquisito demais para mim. Primeiro a Sra. Fiske tinha aparecido quando tudo que eu fiz foi pensar nela. E depois 
Jesse fez a mesma coisa. S que, pelo que eu sabia, eu no tinha chamado nenhum dos dois. Tinha pensado neles, certo.
     Nossa. Havia mais coisas nesse negcio de mediao do que eu havia suspeitado.
     - Bem, j que estamos no assunto - falei -, por que voc no me contou que Red era o apelido que a me de Mestre deu a ele?
     Jesse me olhou perplexo.
     - Como  que eu ia saber?
     Certo. Eu no tinha pensado nisso. Andy e minha me tinham comprado a casa - a casa de Jesse - s no vero passado. Jesse no poderia saber quem era Cynthia. 
E no entanto...
     Bem, ele devia saber alguma coisa sobre ela.
     Fantasmas. Ser que algum dia eu iria entend-los?
     - O que o padre disse? - perguntou Jesse, numa bvia tentativa de mudar de assunto. - Quero dizer, quando voc contou a eles sobre os Beaumont.
     - No muita coisa. Ele ficou bem chateado comigo porque no contei imediatamente sobre Marcus e seus negcios. - Tive o cuidado de no acrescentar que o padre 
Dom tambm estava pirado com o negcio do Jesse. Isso, ele me garantiu, era um assunto que iramos discutir longamente na manh seguinte, na escola. Eu mal podia 
esperar. No era de espantar que estivesse me ferrando tanto em geometria, dado o tempo que passava na sala do diretor.
     O telefone tocou. Atendi, agradecida por uma desculpa para no ter de continuar mentindo a Jesse.
     - Al?
     Jesse me lanou um olhar azedo. O telefone  uma convenincia moderna sem a qual Jesse insiste em que viveria feliz. A tev  outra. Mas ele parece no se incomodar 
com Madonna.
     - Sue?
     Surpresa, surpresa. Era Tad.
     - Ah, oi.
     - Hmm. Sou eu, Tad.
     No me pergunte como esse cara e o cara que tinha cometido tantos assassinatos sem ser preso compartilhavam dos mesmos genes. Realmente no entendo.
     Revirei os olhos e, jogando o exemplar da Vogue no cho, peguei a carta de Gina e reli.
     - Eu sei que  voc, Tad. Como seu pai est?
     - Hmm. Muito melhor, na verdade. Parece que algum estava dando alguma coisa a ele, uma coisa que meu pai achava que era remdio e que podia estar tendo algum 
tipo de efeito alucingeno nele. Os mdicos acham que isso podia estar fazendo com que ele pensasse que era... bem, o que ele acha que .
     - Verdade?
     Cara, escreveu Gina em sua letra grande e cheia de curvas. Parece que eu vou ao oeste ver voc! Sua me  um barato! E tambm esse seu pai adotivo. Mal posso 
esperar para conhecer a galera nova. Eles no podem ser to ruins como voc diz.
     Quer apostar?
     - . Ento eles vo tentar, voc sabe, desintoxic-lo durante um tempo e a esperana  de que, assim que esse negcio, o que quer que seja, saia do sangue dele, 
ele volte a ser o que era.
     - Uau, Tad. Isso  timo.
     - . Mas vai demorar um tempo, j que acho que ele vem tomando esse negcio desde logo depois da morte da minha me. Eu acho... bem, eu no contei a ningum,
mas estou imaginando se o tio Marcus podia estar dando esse negcio ao meu pai. No para fazer mal a ele nem nada...
     , certo. Ele no estava tentando fazer mal. Estava tentando controlar as Indstrias Beaumont, s isso. E tinha conseguido.
     - Acho que ele podia ter pensado que estava ajudando ao meu pai. Logo depois da morte da minha me, papai ficou muito abalado. O tio Marcus s estava tentando 
ajudar, tenho certeza.
     Como estava tentando ajudar a voc, Tad, quando lhe deu uma cacetada com o revlver e trocou sua Levis por um short de banho. Percebi que Tad estava num tremendo 
processo de negao.
     - De qualquer modo - continuou ele. - Eu s queria dizer... ... obrigado. Quero dizer, por no ter contado nada aos canas sobre o meu tio. Quero dizer, a gente 
provavelmente deveria ter dito, certo? Mas parece que ele sumiu, e, voc sabe, seria meio ruim para os negcios do meu pai...
     Essa conversa estava ficando esquisita demais para mim. Voltei ao conforto da carta de Gina.
     E o que eu devo levar? Quero dizer, para vestir? Comprei uma cala Miu Miu chiquersima por vinte pratas, numa promoo na Filene's, mas a no est fazendo 
um tempo tipo SOS Malibu? A cala  de l. Alm do mais,  melhor voc conseguir que a gente seja convidada a umas festas maneiras enquanto eu estiver a, porque 
mandei fazer trancinhas novas, e, garota, vou te contar, estou um ARRASO. Foi Shauna quem fez, e ela s me cobrou um dlar por cada. Claro que eu tive de tomar conta 
do irmozinho fedorento dela no sbado, mas quem se importa? Valeu a pena.
     - Bem, de qualquer modo, eu s liguei para agradecer por voc ter sido, voc sabe, to legal com tudo.
     Alm disso, escreveu Gina, acho que voc deveria saber, eu estou pensando seriamente em fazer uma tatuagem enquanto estiver a. Eu sei, eu sei. Mame no ficou 
exatamente empolgada com o piercing na lngua. Mas estou achando que no tem motivo para ela ver a tatuagem, se eu fizer onde estou pensando. Se  que voc me entende! 
UM BEIJO - G
     Alm disso, acho que devo dizer, j que meu tio foi embora e meu pai est... voc sabe, no hospital... parece que eu tenho de ficar com minha tia um tempo, 
em So Francisco. Por isso no vou estar por aqui durante umas semanas. Ou pelo menos at meu pai melhorar.
     Percebi que nunca mais ia ver Tad de novo. Para ele eu acabaria me tornando s uma lembrana incmoda do que tinha acontecido. E por que ele iria querer ficar 
com algum que o faz se lembrar do tempo doloroso em que seu pai andava por a fingindo ser o conde Drcula?
     Achei isso meio triste, mas podia entender.
     P.S.: Saca isso! Eu achei num brech. Lembra daquela paranormal pirada que a gente foi ver uma vez? A que chamou voc de... como foi mesmo? Ah, , de mediadora. 
Condutora de almas? Bem, olha s! Bela roupa. Srio. Muito Cynthia Rowley.
     Enfiada no envelope junto com a carta de Gina estava uma velha carta do tar. Parecia ser de um baralho de iniciante, porque havia uma explicao impressa sob
a ilustrao, que era de um velho de barba branca e comprida segurando uma lanterna.
     O Arcano Nove - dizia a explicao. O eremita, a nona carta do tar, guia as almas dos mortos para alm da tentao das fogueiras ilusrias ao lado da estrada, 
de modo que possam ir direto ao seu objetivo mais elevado.
     Gina tinha desenhado um balo saindo da boca do eremita, com as seguintes palavras: Oi, eu sou Suze, serei sua guia espiritual na outra vida. Certo, qual de 
vocs, seus sacanas, pegou meu brilho labial?
     - Sue? - Tad pareceu preocupado. - Sue, voc ainda est a?
     - Estou. Estou aqui. Que pena, Tad. Vou sentir falta de voc.
     - . Eu tambm.  uma pena voc nunca ter me visto jogar.
     - .  uma pena mesmo.
     Tad murmurou um ltimo adeus em sua voz sensual e sedosa e depois desligou. Eu fiz o mesmo, tendo o cuidado de no olhar na direo de Jesse.
     - Ento - disse Jesse sem ao menos um "desculpe por ter ouvido sua conversa particular". - Voc e Tad? Acabaram?
     Olhei-o furiosa.
     - No que seja da sua conta - falei rigidamente. - Mas , parece que Tad vai se mudar para So Francisco.
     Jesse nem teve a decncia de tentar esconder o riso.
     Em vez de deixar que ele pegasse no meu p, peguei a carta do tar que Gina tinha me mandado.  curioso, mas parecia a mesma que Pru, a tia de Cee Cee ficava 
virando quando ns estivemos em sua casa. Ser que eu tinha feito com que aquilo acontecesse? Fiquei pensando. Teria sido por minha causa?
     Mas certamente eu no era grande coisa como condutora de almas. Quero dizer, veja s a confuso que eu fiz com a me de Mestre.
     Por outro lado, eu acabei deduzindo. E no meio tempo ajudei a parar com as atividades de um assassino...
     Talvez eu no fosse to ruim nesse negcio de mediao quanto pensava.
     Estava ali sentada no meio da minha cama, tentando deduzir o que faria com a carta - pregar na porta? Ou isso geraria muitas perguntas curiosas? Grudar dentro 
do meu armrio da escola? - quando algum bateu na porta do quarto.
     - Entra - falei.
     A porta se abriu e Dunga ficou ali parado.
     - Ei - disse ele. - O jantar est pronto. Papai disse para voc descer. - Ei. - Sua expresso normalmente idiota se transformou num riso de deleite malicioso. 
- Isso  um gato?
     Olhei para Spike. E engoli em seco.
     - Hmm. . Mas escuta, Dun... quero dizer, Brad. Por favor, no conte ao seu...
     - Voc est... totalmente... ferrada - disse Dunga.
     
     
     
     
     
     
     
     


     
     
     



     
     
  
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Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm 
proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.
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3 O seriado ao qual a personagem se refere  A supermquina, (N. do E.)
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